Criação Única no Absoluto

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Nestes estudos compreendemos que a Criação original foi única. No entanto, custa-nos entender, ante a prodigalidade da vida universal, que Deus não continua criando em nossa realidade.

Com efeito, ao analisarmos o sucessivo escalonamento dos seres com nossa estreita visão racional, presa nas ilusões da forma, somos levados a acreditar que Deus segue criando permanentemente no palco do espaço-tempo, o que não pode corresponder à realidade.

Deus, que é uma potência pertinente unicamente ao Absoluto, não poderia criar no Relativo. Sua criação seria instável, jamais perfeita. Aqui nada se cria, como nada se destrói, tudo apenas se transforma, como nos diz a famosa assertiva de Lavoisier. Então este plano em que agora vivemos não é o mundo das origens, não é o berço do ser.

Sendo o espírito uma edificação eterna, ele somente pode ter sido criado no seio da Eternidade. Logo, a única origem possível para o espírito, como fruto genuíno de Deus, é o Absoluto. Sem compreender esse postulado essencial e axiomático, e ao observar que, em nossa realidade, há seres acima e abaixo de nossa posição evolutiva, julgávamos que Deus estaria criando espíritos na sequência cronológica, ou seja, uns antes e outros depois, por toda a ilimitada extensão do tempo. E assim acreditávamos que aqueles que seguem na nossa dianteira foram criados antes de nós; e os que estão na retaguarda de nossos passos, nasceram depois de nós.

A Criação realmente divina e original está muito além de nossos acanhados referenciais, deu-se fora do tempo, onde não há primeiros e últimos, onde tudo ocorre em um presente eterno, sem passado e sem futuro. Uma vez ocorrida a queda é que assistiremos a esse avanço escalonado dos seres, em diferentes velocidades evolucionais, o que caracteriza a criação progressiva. Logo, ao nosso derredor, estamos vendo nada mais que a gênese secundária que se seguiu à queda. E não podemos mais, com os acanhados veículos da razão, conceber o que foi ou é a primeira Criação.

Nossa equivocada pretensão de fazer-nos ponto de referência da Criação divina leva-nos a julgar que Deus cria na dimensão em que vivemos.

Somente no Relativo encontraremos a chamada criação progressiva, como uma escalada de seres estendida no tempo, rumo ao Absoluto. Aí sim, nessa esteira de ascensão, vemos que uns vão à frente, outros aparentemente se detêm, enquanto muitos seguem a passos lentos a meio do caminho. E já sabemos que essas diferentes velocidades evolutivas se devem aos distintos potenciais em que se deu a primeira queda. No entanto, permanece a dúvida quanto à origem dessa queda diferente para cada um. Custa-nos compreender a justiça desse processo, pois não nos deixa de intrigar a imensa distância evolutiva que separa os últimos dos primeiros.

 

Identidade entre Espírito e Matéria

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Espírito e matéria passaram então a ser vistos como substratos de naturezas diversas e não elementos de mesmíssima origem e constituição. Eis então assoalhadas as razões do dualismo fenomênico em que as grandes religiões monoteístas, muitas consideradas modernas, ainda se demoram. O monismo substancial que estamos aprendendo, que considera  espírito e matéria como produtos idênticos, vem agora em socorro aos nossos equívocos. Não temos mais dúvidas de que a matéria é o hálito do espírito, e não um elemento inerte do qual se serve apenas para evoluir.

Se não houvesse a perfeita identidade substancial entre ambos, eles não poderiam abraçar-se da forma tão exitosa como o fazem. E estamos evoluindo agora, na verdade, não exatamente para nos libertar da matéria, mas sim transubstanciá-la em sua manifestação original, a pura emanação divina, cuja expressão ainda desconhecemos.

Por que o espírito deixa para trás seus resíduos físicos, como se tivessem existência independente deles, por isso que nos confunde e nos leva a apartar a matéria do espírito…

A observação superficial da natureza por vezes nos confunde. Lembremo-nos sempre de que a matéria inexiste por si só, e se a alma se desprende do corpo inerte de carne, ao desencarnar, isso não pressupõe que as unidades espirituais subalternas que o mantinham deixem de fazê-lo.

Recordemo-nos do conceito de coletivizações hierarquizadas e entenderemos o fenômeno. Somos um cosmo em miniatura, feitos de incontáveis unidades menores, a serviço de nossa unidade maior, escalonadas dos níveis mínimos ao máximo, que é nossa consciência superior. Ao devolver nossa veste grosseira à natureza, sua organização maior termina por desagregar-se por falta do governo central; sua contraparte densa, no entanto, permanece como produto de entidades inferiores, as quais apenas a fazem retornar a seu estado bruto, o “pó”, representando as bases minerais que nos sustentam, desde o nível intra-atômico. Eis exatamente por que o corpo físico não se desfaz inteiramente em energias livres quando a alma o abandona.

Primeiras Encarnações e Desencarnações

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Somente após o advento da vida orgânica, o espírito passou a encarnar e desencarnar. Antes disso o espírito não experimentava a morte e o renascimento, tal qual os entendemos?

Enquanto o espírito dormia na matéria bruta, não experimentava ainda o fenômeno desencarnatório propriamente dito. “Morto” de fato, sua consciência jazia em  estado de completa obnubilação nos redemoinhos atômicos. Compreendamos que, nesse estado primordial em que a queda o remeteu, ele não se achava propriamente vestido de um conjunto de átomos físicos, porquanto estes eram nada mais que a própria expressão na realidade densa.

A matéria não lhe era exatamente um encaixe, mas sim o inerente e inseparável hálito. Desse modo, nesse plano ainda prístino e grosseiro, o espírito não se separava de seu corpo para tornar a ocupá-lo em ritmos de mortes e renascimentos. Portanto, não se concebe a reencarnação nesse estado ainda incipiente do ser que caiu na matéria. Logo, o espírito não desencarna da rocha bruta para nela renascer logo a seguir. A rocha é a própria manifestação e não sua roupa, repitamos, para que se faça claro o conceito.

Nesse reino ainda inorgânico, o espírito evolui muito lentamente, desenvolvendo-se na escala periódica dos elementos fundamentais, até as formações cristaloides. Amadurecendo nos compostos radioativos, finalmente “morre”, digamos assim, através do fenômeno da desintegração atômica, ressurgindo como emanações energéticas. Aí, sim, poderemos considerá-lo “desencarnado”, embora o termo ainda não se lhe aplique de fato, uma vez que ele não detém uma consciência livre e sequer um corpo de carne.

No reino dinâmico, ele evolui até adquirir a condição de raio vital. Nesse ponto, ele retorna sobre a matéria bruta remanescente no mundo denso para, enfim, elevá-la à condição de substância orgânica. Aí nasce a vida animal, e a partir dessa condição é que o espírito começa de fato os rápidos recâmbios de mortes e renascimentos, alternando sua existência entre a esfera física e a extrafísica. O ágil dinamismo palingenésico, próprio da vida carnal, surge então unicamente após o despertar da alma para as experiências nos reinos biológicos.

Nesse momento é que nos encontraremos com o espírito trajando instáveis e progressivas roupagens físicas, ao longo de seu passeio evolutivo por sucessivas vidas. Qual se fora um ciclone, ele arrebanha em sua passagem resíduos densos do mundo tangível, vestindo-se momentaneamente com eles, em seu rápido dinamismo, para logo os abandonar, repetindo adiante o fenômeno, inúmeras vezes, sem jamais extinguir-se de fato.

A morte e o renascimento orgânico surgiram como um atributo da vida animal, que até então inexistiam. Como todos os fenômenos biológicos, fez-se um evento abrupto, inserido no ágil metabolismo vital, muito distinto do letárgico dinamismo da matéria bruta. Nesse novo contexto, a visão do cadáver sem vida, como se fora uma massa inerte, levou o homem a considerar que o espírito era um constructo totalmente distinto da matéria, nela inserido senão para evoluir.

Formação do Mundo Espiritual

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Se o mundo espiritual formou-se simultaneamente ao nascimento da vida orgânica, a dimensão espiritual existia antes disso?

Claro que existia, apenas não era habitado por seres da Terra. Desde que o planeta desprendeu-se da massa solar, ele irradia ao derredor seu campo espiritual, qual se lhe fora aura natural. Unicamente espíritos superiores, todavia, nessa primitiva etapa, percorriam essas paragens, auxiliando no preparo da biogênese terrena. Assim que as condições geofísicas tornaram-se propícias, os raios globulares, partindo desse campo de energias sutis, como vimos, criaram os primeiros seres vivos no plano denso.

Estes, naturalmente, logo passaram a desencarnar em massa, preenchendo assim as esferas espirituais em suas camadas mais adensadas. Entrementes, o pensamento contínuo inexistia nessas primevas criaturas, de forma que elas não podiam ainda expressar nenhuma atividade orgânica após o desenlace físico. Permaneciam elas no mundo espiritual em estado de latência, aguardando pronto e novo retorno à carne.

Somente com a conquista da razão, no reino humano, é que o espírito pôde manter a integridade consciencial necessária para o sustento da organização perispirítica, após o desenlace. Esse momento demarca a sobrevivência incondicional da alma depois do túmulo. A partir daí é que os homens desencarnados passaram a preencher de intensa atividade as zonas espirituais do planeta. A rica civilização que hoje ocupa o mundo dos Espíritos desenvolveu-se, desse modo, como uma extensão das sociedades terrenas, e somente muito mais tarde é que, avançando a passos mais ágeis, passou a dominar a vida humana na crosta planetária.

Foi a persistência do pensamento contínuo depois da morte que permitiu a plenitude da vida espiritual no chamado mundo dos mortos. Paulatinamente as paisagens do além passaram a refletir, pela maior plasticidade de sua matéria constitutiva, as emanações psíquicas dominantes de seus amontoados humanos, contorcendo-se ante suas baixas condições morais. Desse modo, as paragens avernais, sombrias e hostis, surgiram primeiro em consonância aos baixos anseios do homem barbarizado e guerreiro do início.

Os planos iluminados apareceram somente mais tarde, quando a bondade passou a irradiar-se de forma preponderante no pequeno contingente de almas que a conquistou, rompendo a barreira inicial do egoísmo dominante. E entenderemos também que apenas a partir da fixação da vida humana após a morte é que alguns animais, como aqueles que observamos em nosso plano, encontraram condições para aqui se expressar. Fato impossível, como sabemos, não fosse o sustento proporcionado pela irradiação da aura conjunta dos espíritos que aqui vivem.

Viroses Oportunas

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É preciso também agregar que a sabedoria da vida serve-se, como sempre se serviu, de muitos outros mecanismos para fazer evolucionar o universo e a vida, os quais até então ignoramos por completo.

Sabemos, por exemplo, que a extraordinária habilidade dos vírus de se fundirem aos genes é aproveitada pela inteligência divina para realizar verdadeiras intervenções microcirúrgicas no código genético dos seres em evolução. Nas mãos habilidosas do Senhor, o vírion, a partícula viral infectante, funciona qual engenhoso bisturi capaz de inserir importantes e delicadas modificações na complexa cadeia genômica dos seres superiores. Dessa forma, o ataque viral, processo visto pelo homem comum nada mais como um dano para todas as espécies que lhe sofrem o assédio, faz-se genuíno mecanismo evolutivo, sabidamente um dos mais eficazes, capaz de incorporar importantes avanços no DNA, a benefício do ser. E assim vemos, mais uma vez, que o mal, em toda circunstância, é sempre aproveitado pelo Criador para nos fazer avançar.

Eis uma fórmula que nos leva a reconhecer a utilidade das infecções virais, um dos importantes males ditos naturais que assediam nossa humanidade, e até então desconsideradas como portadoras de benefícios para a vida superior. Fato que nos conduz a compreender que as doenças sempre cumprem relevante papel em nosso progresso.

 

Hereditariedade Espiritual

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Aos olhos do espírito eterno, podemos afirmar que, com efeito, as aquisições adquiridas são transmitidas para a prole. Não, porém, as adulterações acidentais impostas a um indivíduo, como a despropositada perda de uma cauda, por exemplo, mas, sim, aquelas que são fruto do esforço de conquista do ser e se mostram úteis à sua vida. O espírito tem força suficiente para plasmar órgãos segundo as necessidades que experimenta na evolução. Essas aquisições, oriundas de seu esforço ascensional, passam a integrar seu código genético, em sua próxima encarnação, sendo o próprio ser que as conquistou quem as imprime em seu futuro genoma. Assim são efetivadas as famosas mutações gênicas.

A hereditariedade que realmente conduz a evolução é a espiritual, aquela que a criatura traz das próprias experiências passadas, e não a simples herança fisiológica, nada mais que um rascunho para que o espírito reencarnante reconstrua sua organização carnal. Assim, compreendemos que todo o empenho de um animal na superação de seus desafios é arquivado em sua memória espiritual, e com ele retorna à vida física logo que renasce. Lamarck então tinha razão, o esforço que a girafa fez por crescer seu pescoço induzia-a efetivamente ao alongamento da estrutura cervical. Adaptando-se melhor às condições ambientes, ao ressurgir na carne, ela então pôde transmitir a importante aquisição àqueles mesmos descendentes que anteriormente se empenharam em igual tentame. Desse modo, a sabedoria da vida faz com que o espírito, favorecido pelos mecanismos genéticos, termine por herdar valores de si mesmo.

Sob a ótica do espírito imortal a evolução transforma-se em um estudo maravilhoso e sobremodo coerente. Quando a ciência humana descobrir que a alma está no comando da evolução fará seu grande salto rumo à verdade, esclarecendo todas suas incongruências. Então a escola terrena transformar-se-á em genuína ciência de orientação para o homem que peregrina no tempo, auxiliando-o a projetar-se mais rapidamente nos patamares superiores da vida. Por ora, afeita à estreita visão materialista da vida, seus conhecimentos estão limitados e eivados de equívocos. Aguardemos, no entanto, pois o espírito não demora a fazer-se uma realidade nos laboratórios do mundo denso, por força de Lei, demonstrando sua inequívoca existência.

Saltos Evolutivos

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Não há dúvida, a evolução torna-se não só fascinante quando estudada sob a ótica da queda, mas extremamente clara e, ao contrário do que afirmam os estudos do mundo, a evolução caminha aos saltos e não propriamente através de adaptações graduais.

Darwin e seus seguidores não se referiram à existência dessas abruptas transposições evolutivas, e afirmaram categoricamente que o gradualismo adaptativo seria o único fator a responsabilizar-se pela diversidade das espécies e seus avanços no palco da evolução…

A existência desses súbitos saltos criativos na esteira do progresso faz-se fato inquestionável. E eles muito nos esclarecem sobre a forma como se desenvolve a ascese evolutiva.

É inegável que encontraremos os dois movimentos, a adaptação gradualista e os saltos criativos, presentes na dinâmica do devenir. Enquanto a ação divina está plena de criatividade, atuando em modificações abruptas que comparecem na vida como formações já prontas, a inteligência menor do espírito caído cuida de promover pequenas e paulatinas acomodações de seus organismos às condições ambientes. Ambos os processos são importantes e integram os mecanismos evolucionais. No entanto, sem a criatividade promovida pela sabedoria de Deus, o gradualismo por si só não seria suficiente para levar adiante o progresso. Para se avançar é preciso inovar, apresentando soluções já prontas que somente a engenhosidade e a inteligência podem produzir.

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Ação Divina e Ação Maligna

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Uma das mais importantes chaves para se aclarar como age a mecânica evolucional é saber que nela atuam duas forças básicas: a ação proveniente diretamente do Criador e aquela representada pelo conjunto de espíritos falidos. Chamamos a primeira de ação divina e a segunda de ação maligna, pois, em seus primórdios, esta age nitidamente em oposição aos fundamentos do amor, almejados pelo Pai para todos os seus Filhos. Essa força faz-se assim essencialmente agressiva e destrutiva da vida, porquanto interessa a cada um de seus protagonistas não apenas a sobrevivência, mas o próprio domínio sobre os demais.

Ambas as forças são eminentemente inteligentes, uma vez que os espíritos falidos são filhos do Divino, feitos de igual substância e dotados de mesmo poder criador. A despeito de acharem-se reduzidas pela contração da queda, as admiráveis potencialidades do espírito que caiu mantiveram-se ativas e operantes na vida, e podemos facilmente vê-las em ação. São forças cegas e imprecisas, pois com a queda, o espírito obnubilou-se e teve sua inteligência obscurecida pela matéria. Por isso as potências malignas trabalham com imprecisão, estão sujeitas ao fracasso, são passíveis de produzir aberrações, como se pode facilmente constatar na natureza em que participam ativamente, junto com as forças divinas.

As plantas, por exemplo, padecem de tumores cancerígenos, os animais, ainda que inferiores, apresentam malformações importantes, frutos de verdadeiros acidentes genéticos. Astros chocam-se em espetaculares desastres cósmicos. E sabemos que existem até mesmo galáxias que neste momento engalfinham-se em fenomenal colisão, fazendo destruir em ciclópicas fornalhas milhões de mundos e sóis. Mas não precisamos ir tão longe para constatar a presença de forças destrutivas na natureza. As erupções vulcânicas tudo consomem em seu caminho. Terremotos e tempestades fenomenais podem devastar em minutos as mais bucólicas belezas do mundo.

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Fé e Ciência

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O pensador terreno amadureceu sua inteligência e descobriu admiráveis princípios que regem o universo e a vida a seu derredor. Se ele permanece creditando a forças aleatórias a direção da evolução, não há dúvidas de que ele reconhece também a existência de leis fenomênicas coerentes, perfeitamente ajustadas às múltiplas necessidades da vida, às quais não sabe responder de onde provêm. Em breve, o estudioso do mundo denso não terá outra maneira de explicar essa ínsita sabedoria da Lei senão atribuí-la a uma Consciência cósmica, em ação na realidade em que vivemos. Até o momento, ele se nega a conferir sabedoria e criatividade ao processo evolutivo. Admitir qualquer lógica nesse processo forçá-lo-ia a reconhecer a existência de um Criador operoso e sábio.

Não obstante, não podemos negar que muitas de suas constatações não se coadunam de fato com a imagem de Deus que as religiões tradicionais lhe repassam, fundamentadas ainda em arcaicas concepções medievais. Trata-se de uma visão antropomórfica e infantilizada do Criador que não satisfaz, em absoluto, o moderno entendimento do homem atual, advindo daí sua natural rejeição aos preceitos religiosos. Quando a religião se modernizar, a ciência terminará por abraçar-se ao Sagrado como a única forma de se explicar a vida e o cosmo, meus queridos. É preciso, no entanto, aguardar o amadurecimento dos tempos na ribalta terrena.

Que isso não nos incomode, por ora. Façamos nossa parte, cuidando de dilatar nossa compreensão. Quiçá, começando por fazer avançar nosso entendimento, possamos, de alguma forma, contribuir com o progresso da civilização materialista que insiste em fazer-se protagonista da verdade. Que não nos indigne então a pobre condição do homem intelectualizado dos nossos dias. Ele não detém até então a chave para fundir ciência e religião. Com a mente fixada na profusão de dados que acumulou da observação científica da realidade, que não podem ser desmentidos, e o coração enrijecido pela concepção materialista, ele não tem outro caminho que padecer os terríveis males de seu frio agnosticismo. Falta-lhe no momento a visão intuitiva que somente o desenvolvimento moral pode lhe proporcionar. Quando ele conquistá-la, facilmente alcançará a síntese de suas infindáveis análises, fundindo-as com perfeição às revelações da fé, pois as verdades divinas são também científicas, evidentemente. Então ele reconhecerá a decisiva atuação do Criador no universo e na vida, oculta sob o véu da forma.

Vale ressaltar que já não podemos retirar de todo a razão da ciência hodierna, ao atestar que o acaso faz-se, sim, presença patente na realidade fenomênica. Existem de fato desordens nas engrenagens da evolução, as quais podem ser vistas nos inquestionáveis fracassos biológicos, facilmente constatáveis. Assim, não se pode negar que poderosas forças destrutivas, ignorando a complacência, agem indomáveis na natureza, produzindo aberrações e mortes. Justo assim que muitos se recusem a aceitar uma decisiva atuação de Deus nos proscênios do progresso, enquanto outros creem que, se Deus criou o universo, Ele não interfere mais em seu funcionamento, deixando-o conduzir-se pelo próprio automatismo. Do contrário, seremos forçados a irrogar-Lhe a autoria da destruição e do mal, patentes em nossa realidade, os quais quase sempre, com justa razão, parecem raiar ao despropósito, conduzindo-se nada mais que ao sabor do acaso.

O estudioso do espírito que ainda não absorveu os conceitos da queda ver-se-á em dificuldades para explicar a ação da desordem, do mal e da destruição em nosso universo, sem remetê-los à sabedoria de Deus, que a tudo deveria controlar com exatidão.

Enquanto o deísta, aquele que julga que o Criador não se preocupa mais com Sua criação, acredita que ela está entregue à gerência das próprias leis; o teísta, que crê na decisiva interferência do Altíssimo em sua obra, justifica que o caos presente na natureza é produto nada mais que de forças primitivas ainda operantes no universo.

O crente afirmará que a selvagem luta pela sobrevivência, no palco da criação progressiva, ainda que traga sofrimentos para seres inocentes, demarcados por egoísmos nascentes e ainda ignaros, resulta da inerente necessidade de impulsionar todos ao necessário crescimento. E justificará na premência do progresso a existência das fabulosas armas de ataques desenvolvidas pela natureza, bem como os curiosos ardis do parasitismo, como necessidade para que todos avancem na conquista da inteligência e do amor. Explicará então que as destruições em massa promovidas pelos fenômenos naturais advêm da necessidade de se manter o equilíbrio do mundo. Que a dor representa nada mais que fabuloso propulsor da evolução. Que, se o mal existe, este trabalha para que todos sejam conduzidos à perfeição, justificando-se assim sua presença na criação. E, enfim, se a matéria é uma realidade, e impõe-se como um obstáculo ao avanço do espírito, isso se deve à necessidade que detém o ser eterno de aprender a sujeitá-la segundo propósitos elevados, e assim galgar as dimensões elevadas.

Depois que aprendemos a realidade da queda do espírito, reconhecendo que nosso universo é produto de uma derrocada e não da perfeita ação divina, explicamos melhor suas incoerências. Elucida-se por que ele detém o mal e a dor, a desordem e a destruição em seus fundamentos. E entendemos que as ações aparentemente desastrosas da natureza são movimentos que buscam refazer uma estabilidade perdida e favorecer condições ideais de vida para todos. Aclarando-se que os fatores coibitivos e as forças indômitas de nosso cosmo, as quais terminam por impor sofrimentos a todos os seus seres, são produtos unicamente das intenções ególatras, ambientadas no campo de revolta dos espíritos que o habitam, ajuda-nos a conformar exatidão à da obra de Deus.

Sendo nosso mundo o próprio inferno criado pela queda, percebemos que ele não integra um plano natural de criação, pretendido pelo Criador. E chegamos à irrevogável conclusão de que habitamos as tristes paisagens de um universo desmoronado, situado nos antípodas do Reino de Deus.

O Altíssimo, sendo unicamente amor, não pode de fato ser imputado como autor de males e ações destrutivas, que levam a devastações imensas e dores indescritíveis. Vemos então que Sua sabedoria apenas cuida de aproveitar esses impróprios movimentos e equivocadas motivações, consentâneos à revolta primária do ser, para reconduzir todos à Sua presença. Isso confere à evolução um caráter muito distinto daquele que até então lhe demos.

Conhecendo a queda do espírito e determinando as origens e os fins, não só devolvemos a nosso Pai a sabedoria e o amor infinitos, como apressamos nossos passos na alçada do progresso.

Instintos

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A sabedoria de nosso Pai, sem inibir-nos a vontade, soube muito bem servir-se de nosso mal para convencer-nos da impropriedade de se praticá-lo em uma Criação que se alicerça unicamente no amor. Assim, vemos que a tremenda luta de interesses egoicos em que se estabelece a vida inferior transforma-se, nas mãos da sábia Lei divina, em poderoso estopim capaz de acender em todos as chamas da inteligência e da bondade.

O instinto de sobrevivência, cerceado pela fome, é sabiamente utilizado para desenvolver-nos habilidades; o de reprodução, servido pelo apetite sexual, transfaz-se nas relações de colaboração e afeto que fundamentam nossas relações. O impulso de preservação e o temor da morte garantem-nos, sob a orientação divina, a sobrevivência para a necessária experiência no grande laboratório da vida.

Privações e agruras impostas pela natureza ajudam-nos a afastar dos reinos inferiores. As dores típicas da carne, em suas mais diversas expressões, nada mais que danos consequentes à nossa falência, compelem-nos ao correto aprendizado da Lei de Deus. A degeneração orgânica, própria da instável matéria que nos veste, serve-se a seu necessário desgaste. E as aspirações impróprias, as quais nos integram o expansionismo egolátrico e atiram-nos à imperiosa satisfação dos baixos prazeres, terminam por orientar nosso crescimento no rumo adequado, devolvendo-nos a grandeza perdida.

Ao agregar a esse conjunto de ferramentas evolutivas os demais mecanismos que já aprendemos a identificar na dinâmica do progresso, como a técnica de estratificação por camadas, integrando o arquivo vivo das experiências vividas; a gênese dos automatismos, permitindo a fixação do aprendizado e os saltos criativos, tornam-se indispensáveis à superação dos desafios da vida. Todos igualmente compõem o imprescindível instrumental de que a evolução se utiliza para promover o avanço de todos os seres contraídos pela queda.

Existem muitos outros propulsores que até então não conseguimos identificar com precisão na mecânica evolucional, compreendendo que os dispositivos a serviço do devenir igualmente progridem, por sua vez, adaptando-se com justeza ao platô em que estagia o espírito. Ao projetar o ser no reino da razão, por exemplo, transformam-se em motores mais refinados e apropriados às exigências da condição humana.

O instinto de sobrevivência torna-se a motivação para o trabalho, que conduzirá o homem no desenvolvimento de novas e importantes habilidades, desconhecidas no reino animal. O impulso reprodutor converte-se em afetividade, prestando-se como o cimento da família humana. A aspiração expansionista do ego orienta-se para a correta dilatação interior da alma, rumo ao altruísmo.

Os entrechoques de vida e morte transvertem-se em competições saudáveis que visam não eliminar o opositor, mas a permitir o progresso de todos no cortejo social. E assim paulatinamente a luta transmuta-se em relações fraternas, prontas a induzir os entrelaces coletivos do amor. Através dessa maravilhosa alquimia evolutiva, a fera, produto da queda, refaz-se no anjo, o genuíno Filho de Deus.

Vemos, assim, que a ativa sabedoria divina, em preponderante ação na evolução, tornará infalível a recuperação do universo desmoronado, reconduzindo todos os filhos da revolta ao Reino de origem. E ovelha alguma se perderá, como nos prometeu o Cristo.