Votos Franciscanos

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

O Santo de Assis, profundo conhecedor do psicologismo humano e das prementes necessidades da evolução, estabeleceu um roteiro de renúncias indispensáveis à construção desse novo homem, satisfazendo assim os nossos mais íntimos anseios evolutivos. Chamados de votos franciscanos, incluíam os convites à obediência, à castidade e à pobreza, como ferramentas necessárias à inibição dos principais e mais perturbadores excessos praticados pelo homem inferior. Estudemo-los, para melhor aplicá-los em nossas vidas, a fim de mais rapidamente atingir os pináculos do progresso.

O voto da obediência visa a coibir no homem sua milenar rebeldia, fruto de seu inadequado desejo de expansão, o qual já entendemos tratar-se exatamente da motivação de nossa queda. Por impositivo da revolta que nos retirou do seio Paterno, almejamos, desde os primórdios da vida na matéria, dominar o próximo, impondo-lhe a própria vontade. Esse é o sentimento mor que impulsiona o espírito desde seus primeiros passos nos proscênios do Relativo. Portanto, a obediência franciscana pede-lhe a inibição da arrogância, o respeito ao bem alheio e a submissão total à Lei de Deus como necessidades básicas de um ser que negou a priori sujeição à vontade divina. Dessa forma, ao inibir a expansão ególatra através da obediência, esse voto permitirá ao homem a dilatação de seu potencial divino no rumo que convém, levando-o ao aflorar da real grandeza que herdou do Pai.

O segundo voto, da castidade, evidentemente não almeja suprimir no ser humano a necessária prática da sexualidade, indispensável à vida e ao próprio mecanismo da evolução. Ele colima, sim, dirigir o homem ao correto uso de suas energias genésicas, fazendo-o silenciar a instintividade selvagem que ainda as norteia.

Convencendo-o de que ele não é mais um animal sexual, pede-lhe orientar o emprego de suas forças sexuais consorciadas à afetividade e a objetivos sublimes. Que se exima dos abusos inadequados à sua elevação espiritual e que desfrute dos prazeres do sexo com respeito ao semelhante, probidade e responsabilidade, angariando assim valores inestimáveis à sua ascese espiritual.

Já o voto da pobreza pretende solapar o imenso egoísmo que o homem emprega no uso dos bens materiais. Ele não pede ao romeiro da vida humana abdicar-se dos recursos necessários à sua subsistência no planeta, para viver na miséria e em estado de dependência social. Não. Que ele desfrute das riquezas a seu alcance, porém que a ganhe de forma honesta e que se utilize unicamente daqueles bens que são frutos de seu genuíno trabalho. Que se isente de esbanjar recursos e usufruir daquilo que nada fez por merecer. E, sobretudo, que aprenda a doar ao próximo tudo o que exceda as próprias necessidades.

Cuidemos de observar que os votos franciscanos, em sua contundente originalidade, foram lançados pelo Santo de Assis em uma época em que o homem ainda vivia sob o domínio de franca barbárie. A obediência visava a premir o exaltado hábito humano de impor-se ao próximo, uma vez que a posição de mando era o anseio natural de todos em uma sociedade que considerava inferior os que viviam no dever da obediência. A sexualidade, como norma, era exercida com desregramento, irresponsabilidade e desrespeito, como justo prêmio ao mais forte e capaz. E toda riqueza, nas sombrias eras medievais, devia-se a furtos, desonestidades e exploração do trabalho escravo, auferidos sob a imposição de armas, jamais do serviço honesto. Insensível ao bem-estar alheio, o homem daquela época interessava-se apenas por desfrutar de luxúrias, entregar-se à infrene ganância por prazeres fáceis e usurpar seu semelhante em prol de escusos interesses. Evidente que tais práticas, inadequadas ao novo homem do futuro, estavam fadadas a produzir unicamente atritos e dores, inibições e contrações involutivas, contraproducentes ao progresso humano, necessitando ser prontamente banidas dos costumes sociais, para o próprio bem.

Portanto, sem renúncia ao homem velho e seus abusos não se pode construir o homem novo. Eis por que Jesus nos disse ser inadequado derramar vinho novo em odre envelhecido. O vasilhame antigo precisa ser destruído para que se reconstrua, sob renovadas bases, o novo recipiente que deverá albergar o super-homem do Evangelho.

Nos nossos dias, como já abrandamos um pouco nossos costumes, os originais votos franciscanos podem e devem adaptar-se ao patamar que nos encontramos. Hoje, o homem já não necessita mais abdicar-se de seus bens, mas aprender a angariá-los através do trabalho honesto, e cuidar de tornar o mais útil possível toda riqueza que conquiste. Compreendendo que os recursos do mundo nada mais são que empréstimos, os quais deverá devolver com a morte, ele irá coibir a cupidez por valores irrisórios, dirigindo seus esforços para a conquista do único tesouro que realmente importa: o relicário imperecível do espírito.

Sua sexualidade não requer completa supressão, evidentemente. Basta, e com urgência, que ele a exerça nos limites do absoluto respeito ao próximo, regando com sincera afetividade toda troca de energias genésicas, além de não poder mais eximir-se da responsabilidade pelos seus atos.

E, finalmente, o preceito da obediência não precisa ser vivido como completa sujeição aos desmandos alheios. É pertinente ao moderno candidato à santificação fixar sua posição no mundo social onde vive, que cuide, no entanto, com humildade, de obedecer à vontade de Deus e aprenda a entregar-se às exigências da Lei, necessárias a seu crescimento no rumo devido. Se a sociedade outorga-lhe a tarefa do comando, que o faça nos limites do respeito ao semelhante e da imolação do orgulho, habilitando-se a valorizar seu irmão e enaltecê-lo na mesma medida em que almeja engrandecer a si próprio.

Esses são os votos franciscanos adaptados aos nossos dias, imprescindíveis à edificação do novo homem, a surgir nas paisagens terrenas do futuro próximo. Moldados à nossa era, fazem-se tão necessários na atualidade quanto outrora.

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