Superando a Animalidade

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

O Poverello de Assis representa para todos nós o ápice da evolução humana, o homem santificado que absorveu e pratica verdadeiramente as virtudes evangélicas. Esse é o biótipo que se prepara para a angelização e então, encerrando o processo evolutivo, atingir o estado crístico, ou de espírito puro, quando, enfim, reintegrar-se-á ao Pai.

Para edificar esse homem franciscano e evangelizado em nossos painéis interiores, a vida dispõe-nos importantes ferramentas evolutivas. Identifiquemo-las sem demora, a fim de utilizá-las com determinação, fazendo precipitar em nós, o mais rápido possível e sem possibilidades de fracassos, essa surpreendente realização do porvir.

E estejamos certos, a nova humanidade regenerada dos dias vindouros não poderá mais tolerar em suas alas aqueles que não seguirem as normas do progresso espiritual apontadas pelo Cristo. Todos os que resistirem a esse salto evolutivo que a vida nos pede serão banidos da nova Terra, lançados em mundos ainda primitivos, para que prossigam dando vazão aos instintos barbarizados que não puderam superar. Aí haverá, segundo a promessa do Evangelho, choro e ranger de dentes, para que aprendam, enfim, na luta e na dor, a correta forma de se viver na ordem do amor.

É da Lei então que, na intimidade de cada um, a besta se transforme em santo. O homem, no entanto, por estar dotado da razão e do livre-arbítrio tem agora a liberdade de escolher seus caminhos. Trazendo no imo o estigma de sua queda, ele é o artífice de seu destino, sendo-lhe permitido eleger continuar reverberando as motivações de sua revolta ou, com seu esforço, libertar-se delas. Com diligência, ele necessita modelar a si mesmo, esculpindo na própria argila da alma a perfeição perdida. É seu dever, portanto, empregar todo o seu empenho na superação das leis biológicas que o trouxeram às raias da santidade, fazendo sufocar os anseios ainda animalizados que persistem ativos nos porões de sua consciência. Faz-se imprescindível seguir pelo caminho estreito do altruísmo, abandonando a estrada larga de perdição ególatra. Para isso, uma palavra de ordem se faz preponderante na edificação do novo homem: a renúncia.

Sem renúncia aos valores da selvageria e da barbárie, e aos prazeres do ego, heranças genuínas do mundo animal, a alma humana não poderá seguir adiante. Faz-se indispensável, portanto, assumir as recomendações de Jesus e negar o personalismo inferior que ainda reveste sua imaculada essência, teimando em detê-la nas fileiras do egoísmo animal. Então o triunfo do homem sobre si mesmo não poderá ser atingido sem a renúncia evangélica. Esse é o único caminho.

Para isso, deveremos aprender, por força da evolução, a doar nossa vida em prol do semelhante e não tirá-la em proveito próprio, como ainda é nosso hábito. A vida biológica inferior proporcionou-nos, em inumeráveis experiências, a livre evasão do ego amotinado, expresso na luta pela sobrevivência e superação dos valores alheios. Agora, no entanto, faz-se premente sufocar a egolatria e dilatar ao máximo nossa disposição de amar perdidamente o próximo e a Deus sobre todos os interesses menores que ainda nos movem na vida.

Eis por que o Evangelho opõe-se às leis biológicas, ditas naturais, e a evolução conduz-nos a princípios exatamente opostos àqueles que tão bem exercitamos na escola dos milênios. E agora compreendemos que a evolução terrena não nos adestrou na arte da animalidade, mas unicamente permitiu-nos dar vazão aos instintos que a revolta primária deixou impressos em nosso ser, conduzindo-nos pacientemente ao necessário aprendizado da ética do amor, como única norma possível para se viver no Reino de Deus. De outra forma, como inúmeras vezes afirmamos, não poderemos compreender a renúncia que a Lei divina agora tão veementemente nos exige.

A animalidade, desse modo, não representa genuína aquisição da evolução, mas etapa a ser superada pelo progresso da alma. É um mal que se fez necessário em sua época, decorrente não da pedagogia divina, como querem muitos, mas de prévia opção do espírito que caiu por pretender viver com intensidade os espúrios valores do ego.

A experiência da animalidade é, portanto, nada mais que uma aberração no seio da Perfeição, promovida por seres que derrogaram a ordem do amor, e que necessita ser definitivamente superada pela evolução. Tanto é assim que a Lei se apressa vetar ao homem a livre evasão dos hábitos que ele traz do reino animal, devolvendo-lhe, em forma de dor, todas as ações a que ele tão bem se adestrara no período de exercício da selvageria. A agressão ao semelhante, o assassinato, o roubo, a luta pela superação do próximo e a usurpação da felicidade alheia tornam-se agora completamente impróprios à vida superior do espírito. Exatamente por isso a evolução consiste na superação do passado, e quanto mais rápido empreendemos essa tarefa, maior será nosso quilate de poder e felicidade.

Não viemos de uma escola genuinamente divina de crescimento evolutivo, porém frequentamos um reformatório de rebeldes, que objetiva a destituição de falsos valores com os quais nos vestimos no alúvio dos milênios. Eis por que nosso passado está eivado de erros e a revolta caracteriza-nos os passos pelos caminhos da vida na matéria. Por isso a evolução é superação definitiva de uma inferioridade que não podemos imputar como herança do Criador. É absurda tal proposta, ainda admitida por muitos, pois ela ofende a perfeição divina. Os hábitos do egoísmo e da animalidade, repetimos, são atributos nossos, frutos de nossa derrocada, os quais as sábias leis da evolução estão cuidando de agastar em nossos painéis conscienciais. Assim, o progresso, como um movimento que caminha da besta para a angelitude, deve ser compreendido como um processo de correção e não de uma verdadeira e primária criação do espírito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s