Salvação pela Graça e Salvação pelo Próprio Esforço

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Para melhor elucidar o tema devemos esclarecer, todavia, que identificamos a existência de dois tipos distintos de salvação em ação na intimidade do espírito em evolução: a “salvação pela graça” e a “salvação pelo próprio esforço”.

No período em que o espírito é ainda um completo ignorante, desconhecendo inteiramente suas necessidades, ele é paciente e inteligentemente guiado pela sabedoria divina, que lhe faculta todas as oportunidades para que conquiste valores e evolua. Essa é a salvação pela graça, produto exclusivo da patente atuação da complacência divina a nosso favor. Por meio dela, o Criador nutre com a sabedoria dos instintos a alma em evolução, facultando-lhe, nos pontos em que ela ainda ignora as próprias necessidades, tudo o que requer para viver e progredir. Prepara-lhe organismos adaptados à luta e à sobrevivência, guia-lhe ao necessário sustento, repara-lhe os danos e dá-lhe sempre novos corpos para tornar à arena da carne e evoluir. Sem essa ínsita inteligência, orientadora das formações orgânicas da natureza, o progresso do espírito não seria possível. Ela guia-nos no constante aperfeiçoamento e na contínua aquisição de genuínos valores evolutivos, ajudando-nos ativamente no embate contra as forças adversas e destrutivas que aninhamos no imo pela queda. Essa força salvacionista de Deus sabiamente aproveita o mal que flui de nossas equivocadas intenções para fazer-nos avançar, pois a alma, buscando pela felicidade, foge sempre das condições tormentosas que encontra pelo seu caminho.

Todavia, chega o instante em que o espírito, impulsionado pelas divinas potências redentoras, desperta da inconsciência e conquista a razão. Nesse ponto, a evolução torna-se um movimento consciente, sujeito então à interferência de nossa vontade. Por isso, na fase de evolução consciente em que nos encontramos, nossas escolhas e nosso empenho na reforma dos velhos valores passam a influir preponderantemente em nossa ascese evolucional. Aí sim, nossa jornada ascensional passa a se valer de nosso operante desejo de realizações no bem e a decisiva abdicação do mal. Antes disso, era puro e gratuito dom da graça divina. Agora depende de nós e de nossas obras. Essa é a salvação pelo esforço próprio a que nos referimos.

Ela agora está na alçada de nossas escolhas.

Nessa nova fase de evolução consciente, a Lei redentora induz-nos a colher de volta todos os dissabores que infligimos aos nossos irmãos de jornada, com a precípua intenção de fazer-nos desistir de nossas impróprias intenções, inaugurando-se o período expiatório de nossa caminhada, no qual ainda nos encontramos. Todavia, mesmo nessa etapa, a salvação pela graça divina prossegue atuante em nós, exatamente nos pontos em que continuamos ignorantes e não sabemos guiar-nos devidamente como convém. Essa inestancável potência divina permanece ativa em nossa intimidade como ação reconstrutora e mantenedora da homeostase orgânica, permitindo-nos subsistir na escola da carne. Ela regenera-nos e restabelece equilíbrios desfeitos no trânsito de nossas existências, de modo a beneficiar-nos com quase infinitas oportunidades para a inteira recomposição de nossa perdida perfeição. Essa operante força continua fundida à substância de nosso ser, gerando-nos inteligência molecular, sabedoria funcional e argúcia anatômica, sem as quais jamais existiríamos no mundo das formas, seja no plano denso ou nas esferas do além-túmulo. Então ela age onde nosso conhecimento é ainda insuficiente para edificar e resguardar nossos corpos físicos ou perispirituais. Ação que sabiamente, e para o próprio bem, deixa-se momentânea e periodicamente ser suplantada pelos impulsos destrutivos da queda, a fim de levar-nos à sua definitiva superação. Por isso vemos que, a despeito do aparente triunfo das forças negativas, que trazem dor, degeneração e morte, a sabedoria divina sabe impulsionar todos os seus filhos à vitória final do bem e da vida.

Assim, sob a sanção das forças salvadoras, a degeneração e a dor tornam-se condição de saúde e equilíbrio. E a morte faz-se nada mais que início de uma nova existência, até que conquistemos a definitiva Eternidade que perdemos.

Atravessamos nossas muitas vidas sem dar-nos conta do ingente trabalho que nosso Pai permanentemente efetua em favor de todos nós, filhos transviados do Seu amor. E vemos que a complacência divina assiste até mesmo aqueles seres que tomamos por diabólicos, sem compreender que assim também nos caracterizamos.

Se permanecemos vivos, envergando corpos e mais corpos na remodelagem do tempo, devemos isso exclusivamente ao amor de Deus para conosco. Isso deveria bastar para sensibilizar-nos a alma e entregar-nos, confiantes, aos braços amorosos de nosso Pai.

O homem da Terra não desconfia das operosas potências divinas que a todo o momento o sustentam na carne. Sem essa oculta sabedoria trabalhando permanentemente a nosso favor, não sobreviveríamos um minuto sequer na face do planeta.

O assunto da salvação se esclarece então ao denotarmos a existência desses dois tipos distintos de redenção, pela graça divina e pelo esforço próprio.

“Salvação pela graça divina” e através de “nossa própria vontade” compõem assim o cortejo das potências redentoras que soerguem o espírito das cinzas da matéria, onde ele encontrou a morte da consciência. Por isso, está certa a doutrina espírita que nos ensina que “a fé sem obras é morta” e “somente a caridade pode nos salvar”. O espiritismo fala-nos aqui da redenção consciente que requer nosso empenho em tornar-nos pessoas melhores, através do esforço de realização de boas obras. Mas o fundamentalismo cristão não se enganou ao afirmar-nos a existência de uma ação socorrista inerente à substância da vida, na qual devemos confiar e que inexoravelmente nos resgatará do cativeiro na matéria. Para isso, a evolução se utiliza das infalíveis ferramentas, propulsoras do progresso, que já estudamos. Essa salvação não é obra de nossas escolhas e, sim, da complacência divina, na qual devemos depositar nossa mais pura fé. Confiarmos nela, entregando-nos à sua ação sempre benéfica, amorosa e restauradora, fará dinamizar seus extraordinários proventos a nosso favor.

Essa compreensão funde perfeitamente a visão espírita com o fundamentalismo cristão, conferindo inteira validade a ambos. Ela autoriza as descobertas humanas no campo da evolução, mas valida também as lições do Texto Sagrado, por incrível que nos pareça.

A obra divina está plena de criatividades, que comparecem no palco da vida com soluções prontas e inteligentes para os muitos desafios que a existência propõe ao ser. Edifica-nos corpos cada vez mais aperfeiçoados e conduz-nos, através da sábia linguagem dos instintos, nas etapas primevas, nas quais não detemos ainda a inteligência suficiente para efetuar escolhas. Isso basta para compreendermos que importante parcela da salvação independe de nosso esforço, é fruto da benevolência divina, porquanto vai muito além de nossa mera vontade em progredir e produzir frutos do bem.

“A salvação é dom de Deus, não de nossas obras, para que ninguém se vanglorie”.

Estava certo o apóstolo dos gentios ao exarar sua famosa assertiva. É-nos impossível negar que forças divinas operem constantemente a nosso favor.  Hipócrates reconheceu nessa poderosa força a presença de uma ínsita inteligência, levando-o a denomina-la de “nosso médico interno”. Enfatizava o pai da medicina que a primeira obrigação de todo profissional da saúde era não obstaculizar essa ação curadora, e a segunda, segui-la com determinação, fazendo-se um auxiliar de sua sempre sábia atuação.

Um dia a medicina redescobrirá a força e a sabedoria desse médico interno, e ela então nos trará benefícios realmente seguros para que efetuemos nossa própria cura.

Elucida-se que, à medida que o espírito progride rumo à aquisição de sabedoria, essa salvação pela graça faz-se cada vez menos operosa, depositando em nossas mãos o trabalho de reconstrução de nós mesmos. Por isso a dor se acentua no espírito consciente à proporção que ele se torna responsável por seu trabalho evolutivo, mas se reduz na mesma razão em que ele se reintegra ao verdadeiro bem. Portanto, não há dúvida de que nosso empenho na reforma íntima e a predisposição de servir ao bem apressarão sobremodo nosso resgate definitivo do universo às avessas em que vivemos.

Está correta a interpretação de Kardec que nos leva a essa mesma conclusão. Somente agregamos agora que essa atuação consciente não seria suficiente para nos socorrer quando ainda ignorávamos tais premências. Uma vez que ingressamos na fase consciente de nossa evolução, aí sim, somente progrediremos, como nos alertam as lições espíritas, através do esforço próprio e do empenho na realização de boas obras. Fato igualmente registrado nos Evangelhos, pois esses dois aspectos da salvação foram lançados pelo Cristo.

“Todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia”, disse-nos o Mestre. Mas o divino Rabi também afirmou: “Crê somente e serás salvo”.

Os dois tipos de salvação, pela fé e pelas obras, estão presentes nos Textos Sagrados. Cientes disso, poderemos agora facilmente identificá-los, validando todas as afirmações unilaterais de uma verdade que agora fundimos em genuína síntese.

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