Redenção dos Pecados e O Cordeiro de Deus

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Como aceitar a peremptória afirmação do fundamentalismo cristão de que Jesus, com Sua morte, Ele promoveu a redenção de nossos pecados? Podemos legitimar essa afirmativa que já se consagrou como um dos principais dogmas do cristianismo? O Evangelho não diz que o Cordeiro de Deus tomou sobre si as nossas dores e morreu em nosso lugar na cruz? Poderia a morte de um justo pagar pelas faltas de outros? Como pode ser isso, se a própria justiça humana jamais concordaria em penalizar alguém por erros alheios?

O nosso inconsciente traz, em seus meandros, registros arquetípicos de nossa falência original. Ao despertarmos para a razão e descobrir a existência de uma Divindade criadora, acorremos a postar-nos em Sua presença como um genuíno devedor, alguém que cometeu um ato condenável, merecedor, por isso, dos justos castigos divinos. Esse prístino psicologismo pode ser facilmente identificado nas mais antigas culturas, sem que se possa explicá-lo senão pelo declínio do espírito.

Em resposta a esse sentimento, adotamos, no início de nossas civilizações, a prática da oblação, a caracterizar todas as seitas religiosas que confeccionamos em nossa história, como uma maneira infantilizada de aplacar-se a pretensa ira de nosso Criador para conosco. Nas sociedades bárbaras do começo, intentávamos ludibriar a Divindade, por vezes na figura de nossos muitos deuses, sacrificando jovens virgens, consideradas inocentes, para que o sangue derramado por elas, no lugar do nosso, pudesse simular a pena a que nos sentíamos condenados. Com a evolução da ética social, substituímos esses ritos macabros pela imolação de certos animais, também vistos como puros, ovelhas e pombos comumente, ou a oferta da melhor parte de nossas colheitas agrícolas, para se atingir o mesmo objetivo.

Evidentemente que tais primitivos costumes baseavam-se na mais antropomórfica concepção que tecíamos de Deus, compreendendo-O como um déspota humano, a quem a simples visão de sangue ou meros agrados materiais bastariam para dissuadir de impor-nos as penas de que nos fazíamos jus, ou cobrar-nos o que Lhe devíamos.

Alimentados por esse infantil psicologismo, equivocadamente encontramos no sacrifício do Cristo a perfeita oferenda a Deus, para a remissão de nossas arquetípicas faltas. O sangue do mais puro dos inocentes, ou mesmo de um verdadeiro deus, seria então, em nossa ignorância, mais que o bastante para que o Senhor desistisse de aplicar as penas a que nos julgamos sentenciados.

Fizemos de Jesus o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, passando a considerar Sua execrável morte nada mais que um de nossos sangrentos rituais aos pés do Criador. Atendíamos, desse modo, mesmo sem a clara noção do fato, aos apelos de nosso inconsciente, onde guardamos nossa culpa de origem, oriunda de nossa queda. Naturalmente que o Mestre, profundo conhecedor da natureza humana e da estreiteza de nosso entendimento, sabia que Lhe imputaríamos esse inadequado papel, fazendo-nos iludir de que assim estaríamos isentos do próprio esforço em prol da nossa salvação. Mas Ele não tinha outro caminho a seguir, senão expor-se a esse grave equívoco, a perdurar por muitos séculos, até que a compreensão humana amadurecesse.

Em nossa linha de estudos cristãos, entendemos inclusive que esse teria sido o “cálice” que Jesus não queria sorver e pediu ao Pai que o isentasse. Naturalmente que o Messias não se referia à dor ou à morte, as quais não temia, como demonstrou ao arrostar com galhardia sua injusta e execranda condenação. Ele não desejava, sim, era justamente fazer-se o perfeito símbolo da oblação do homem a Deus.

Enfim, por essa breve exposição de motivos, chegamos à clara conclusão de que Jesus de fato sacrificou-se por amor a nós e tomou sobre si as nossas dores, como um médico que se aconchega ao doente, disposto a auxiliá-lo a reerguer-se. Não podemos, no entanto, aceitar, em sã consciência, que Sua morte tenha redimido nossos erros perante a Lei divina. Isso fere o conceito que detemos de Deus e Sua justiça na atualidade. Nossa consciência corrompida somente será recomposta se seguirmos o exemplo do Messias, jamais pelo simples fato de um inocente ter sido condenado e imolado em nosso lugar.

Entendemos que os discípulos de Jesus, igualmente imersos nessa pueril compreensão, terminaram por corroborá-la, inscrevendo-a nos anais sagrados que perdurariam pelos séculos vindouros. E o homem comum acolheu-a como a mais cômoda justificativa para se ver livre dos arquétipos da culpa que traz nos painéis do inconsciente, eximindo-se comodamente do próprio esforço para a salvaguarda de sua condição de réprobo. Evidentemente que não foi essa a recomendação do divino Pastor. Se não tomarmos nossa cruz e seguir Seus passos, ascendendo pelo calvário redentor, não nos salvaremos. A prova disso é que mesmo após a crucificação do Senhor, continuamos padecendo pelos nossos erros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s