Psicologias e Métodos de Ação: do Evangelho e do mundo

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Interessa a todos conhecer a técnica da descida das forças do Alto, a Terra, as armas de que elas dispõem e a estratégia que usam para vencer. Pode ser instrutivo observar como, neste caso, ocorreu o choque entre duas psicologias e métodos de ação os do Evangelho e os do mundo. Pode ser útil, depois de haver visto qual dos dois é verdadeiramente o mais poderoso, aprender sistemas mais evoluídos de vencer. Cada um usa sua forma mental e seus meios, de acordo com o diverso comportamento de sua natureza.

O mundo humano é um cenário complicado de aparências, entre as quais o homem evangélico deve mover-se com simples sinceridade. Aparentemente tudo é bondade, estima, desinteresse, nobre sacrifício pelo ideal, magnânima generosidade. De todos os lados esse exemplo nobre, estimulando á imitação. Nosso personagem encontrara esse ambiente e ficara encantado. Mas infelizmente, havia por baixo uma realidade diferente, havia a natureza humana que funcionava segundo as leis de seu plano biológico. A realidade era a luta feroz pela vida, conluios bem organizados de interesse, o velamento dos próprios objetivos para vencer melhor, dissimulando a verdadeira estratégia usada na batalha. Jogo sutil, recoberto de ideais desfraldados, para escondê-lo melhor. Sempre no mundo o mesmo tipo, os mesmos métodos estandardizados.

Esse o antagonismo que nosso personagem devia vencer: homens unidos em alianças, para se tornarem mais fortes, senhores do campo porque aí tinham nascido e vivido, conhecedores do terreno da batalha e armados de todos os meios, quer do poder econômico, quer do social, quer da astúcia: em outros termos — ao menos na opinião do mundo — os mais fortes indiscutivelmente, e portanto, segundo sua lógica, destinados ao triunfo, e eles mesmos antecipadamente certos da vitória.

Do outro lado a simples realidade descoberta: um homem pacífico, sozinho, sem planos manifestos nem ocultos, incapaz de enganar a quem quer que seja; um homem sozinho, desconhecedor do terreno da batalha completamente novo e desconhecido para ele; um homem pobre, evangelicamente indefeso, sem meios de qualquer espécie, desprovido de tudo e a mercê de todos. Indiscutivelmente — ao menos na opinião do mundo — ele era o mais fraco, e portanto, segundo a lógica dominante, destinado a derrota, considerado vencido antecipadamente por todos.

Tínhamos de considerar as qualidades opostas dos dois contendores, para compreender a natureza milagrosa da salvação do indefeso, e portanto o valor do exemplo, que só pode ser explicado com a intervenção de forças superiores. Isto nos mostrará o poder do fenômeno a que estamos assistindo, ou seja, não apenas a técnica da descida das forças do Alto, mas também o valor e o alcance dessa descida neste caso.

A escravidão do mundo foi abolida apenas formalmente, nas leis, mas continuou no instinto humano, em relação a qualquer indivíduo, desde que pareça mais fraco: escravidão moral, econômica, política etc., de forma civilizada, com cadeias invisíveis, mas nem por isso menos fortes.

No plano biológico em que reina a lei do mais forte, constitui justiça apoderar-se do mais fraco para sujeitá-lo. A lógica do fenômeno — dados seus elementos componentes — não podia deixar de desenrolar-se até o fim. O mundo, por sua forma mental e pelos meios a sua disposição, não podia trabalhar de outra forma e continuava a funcionar destemido com seus métodos. O espetáculo a que estamos assistindo é o que nos oferecem as forças do Alto, que se revelam com sua intervenção necessária para realizar a salvação.

Como teriam agido para vencer, neste caso, a Grande Batalha?

Deviam empenhar-se a fundo, porque aqui estava em jogo o valor do Evangelho e a palavra de Cristo. Mas se esse homem tivesse vencido em condições tão contrárias, essa vitória teria constituído uma prova tanto mais evidente, quanto mais difícil fosse o caso superado.

Todas as probabilidades pareciam em favor do mundo. Sua derrota teria sido tanto mais clamorosa e milagrosa quanto mais contradizia a regra normal. E existiriam meios supranormais capazes de dobrá-la até o ponto de fazer triunfar um indefeso num mundo de armados? Mas então os meios espirituais são mais poderosos que os materiais, tendo na batalha um peso tão decisivo? Nesse caso, não só não é verdade que o Evangelho seja inaplicável na terra, como, ao contrário, ele representa a arma mais poderosa para vencer. Conclusões importantes, de interesse geral.

Daí resulta, para o homem que fez essa experiência, o dever de comunicar seus resultados, tanto quanto os cientistas comunicam os de suas descobertas científicas, embora neste caso a experiência tenha sido realizada no terreno espiritual e moral. Um fato que realmente se verificou tem sua importância no terreno das pesquisas positivas, porque se tem o direito de presumir que a experiência deva reproduzir-se com o mesmo êxito, todas as vezes que for repetida nas mesmas condições. Cada caso vitorioso constitui uma prova de uma nova verdade que vamos descobrindo, e abre-nos uma porta para que, repetimo-lo, se chegue ao conhecimento completo dessa verdade e depois a sua aplicação para nossa vantagem.

Continua a estranha Batalha. De um lado o mundo aguerrido, do outro um homem indefeso, sozinho. Mas atrás dele estão as forças espirituais que o sustentam. É nesse milagre que se manifesta o poder delas. Parece rever a cena de Davi que enfrenta o gigante Golias. O gigante é o mundo que esmaga, com seu poder no plano da matéria. Davi representa o mundo poderoso no imponderável e dominador no plano do espírito. Mas este achava-se na terra dos gigantes, onde imperava a lei deles. Segundo esta lei, nosso personagem nada valia e era considerado um falido.

Entretanto escapavam a psicologia do mundo e aos cálculos de sua estratégia — porque não eram computados — outros elementos que também estavam em jogo na batalha. Aquele homem não era um falido. Tornara-se pobre, não por ter sido um dissipador, nem por inércia, mas por fidelidade a um princípio, por não se haver defendido, por bondade para com o próximo, para entregar-se de todo ao cumprimento de sua missão. Como rico ou como pobre, mantivera-se igualmente parco e honesto, inocente das riquezas que para si jamais aceitara pessoalmente, como era inocente de sua dispersão, ocorrida acima de sua vontade. Ora, se nos planos inferiores o que vale é o poder material, nos superiores domina, ao invés, a lei de justiça.

Então o que na terra pode parecer fraqueza, pode ter valor de força, e esses elementos — a inocência, a não-culpabilidade, a fidelidade a um princípio, bem pouco computados no mundo porque desaparecem no imponderável — podem adquirir peso decisivo, poder de verdadeiras forças protetoras.

Havia ainda outro falo. O que constituía a fraqueza daquele homem, no terreno humano, constituía sua força num plano mais alto. Se na terra era desprezível por haver perdido tudo, essa perda era compensada pelo fato de que em seu destino amadurecera uma missão, fato que, num plano diferente de vida, o revalorizava, apesar de sua desvalorização no plano comum de vida.

A vida, que é honesta e utilitária, utiliza essas justas compensações. O mundo concebe a vida num sentido restrito, limitado ao seu plano atual. Mas a vida é um fenômeno cósmico, em que entram também as forças Crísticas que guiam nossa evolução para um futuro melhor. Resulta que a ligação com essas forças, para colaborar aos objetivos delas, pode valer muito mais que possuir riquezas, glória, poderes humanos, valores efêmeros diante dos eternos. Se olharmos bem, nosso homem era um fraco apenas para os olhos míopes do mundo e vencido apenas no plano deste, por sua estreita psicologia.

O que dava poder a posição dele era o fato de que, se ele desaparecesse no mundo como um vencido, reaparecia na roupagem totalmente diversa de instrumento. Então não era mais ele que vivia, mas outras forças viviam nele, e por seu intermédio queriam realizar os próprios objetivos na terra. Ser instrumento significa não estar mais sozinho, como esta o homem que se arma, apoiando-se apenas em suas forças. Para isto, ha grande necessidade de armar-se, porque não existe outra defesa.

Quem se tornou instrumento, de nada disso precisa, porque a isso providenciam as forças do imponderável de que ele se tornou meio de realização e que devem mantê-lo em vida se quiserem que ele trabalhe para essa atuação de seus planos.

Ser instrumento significa ter de obedecer ao próprio patrão, mas significa também colaborar, fazendo parte de sua organização, e portanto também significa ser defendido por ele. Pôr-se em estado de aceitação diante de um chefe inteligente e justo não equivale a posição em que se acha o fraco, na terra, condenado a condição de servo, ao qual só resta ser pisado e explorado. Ao subir, tudo se inverte.

Mais no alto, obedecer não é perda, mas vantagem. Num mundo de bondade e de justiça, submeter-se não é perder, mas vencer. Ele se torna, então, parte de um plano, o que pode dar poder ao homem mais miserável e, sempre que isto seja requerido pelas necessidades daquele plano, ele pode ser arrastado além de sua própria compreensão e vontade, à vitória.

O instrumento é como uma apara de palha que sobrenada no oceano, e assim toma os movimentos dele. Mas por trás do homem comum só está ele mesmo, com suas limitadas forças humanas. Por trás de um instrumento há uma poderosa organização de forças espirituais. Enquanto este último parece só e abandonado na terra, é justamente o primeiro que está sozinho, e ninguém se acha tão rico de amigos e auxílios quanto o segundo.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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