O Imponderável

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Eis que vemos entrar em cena na batalha um fator novo: o imponderável. Esta é a nova arma que defende o indefeso. Trata-se de forças sutis e profundas, lentas a movimentar-se, mas poderosas e irresistíveis. O mundo continua a armar-se com seus meios e a lutar com sua psicologia, escapando-lhe estas outras armas que fazem parte da estratégia do invisível. Elas são constituídas de equilíbrios complexos entre ações e reações em organismos cósmicos de forças, que o mundo não vê. Não as vendo, nega-as, o que as torna por isso muito mais perigosas, porque ele não as leva em conta.

O mundo se desobriga, dizendo que elas não existem, o que não as impede de continuar a funcionar. Escapa-lhe assim completamente a estratégia do inimigo, e ele comporta-se como um cego que avança sem saber onde caminha. Acontece então, que o mundo se arma de modo errado, que só vale para a luta em seu plano, e nada vale na luta contra outros planos de vida. Acontece também que o mundo usa uma estratégia de guerra adequada apenas ao seu ambiente, e que nada vale diante da mais sutil e poderosa estratégia do imponderável. Ora, só se pode enfrentar um inimigo cuja natureza, psicologia e métodos da ação não se conhecem, em posição de grande desvantagem.

Se tudo isto é penoso e perigoso, não deixa de ser lógico. Uma das primeiras qualidades do involuído é sua cegueira, que o faz crer apenas no poder das forças materiais de seu mundo, não o deixando ver e computar o que esta além dele. A ignorância cresce com a involução, quanto mais baixo se desce, paralela à força bruta, à ferocidade. Acredita-se poder suprir vantajosamente a falta de luz, com a falta de escrúpulos; a falta de justiça, com a prepotência; a desordem, impondo o próprio eu. Chega-se assim, sem dúvida, à potência da explosão das forças elementares, fenômeno grandioso, mas primitivo e caótico.

Embora reconhecendo que esta é a única manifestação da vida nesse nível, por que ela aí nada sabe fazer melhor, alcança, entretanto, manifestações de muito maior potência e valor, com o aperfeiçoamento realizado pela evolução, ao fazê-la subir a planos superiores.

O homem evangélico, embora possa parecer inepto sonhador aos olhos do mundo, a única coisa que faz na realidade é lançar fora as armas primitivas e pouco poderosas, para apanhar mais aperfeiçoadas e de maior potência.

De que serve a força bruta do involuído, se fica paralisada com a ignorância?

De que serve tão grande desencadeamento de energia, se não se sabe dirigi-la e se erram todos os golpes?

Se a força bruta, acompanhada da obtusidade e ignorância para chegar a ilusão é patrimônio do involuído, patrimônio do evoluído é o poder do espírito, acompanhado da  inteligência e do conhecimento, que dão segurança e levam ao bom êxito.

Sem dúvida, o homem do mundo está bem proporcionado ao seu ambiente, satisfeito, e até apegado a ele. Mas o que é pena, é que essa forma de existência representa para ele toda a vida, o único tipo de vida que pode conceber. Por isso lhe atribui importância capital, já que não sabe viver de outro modo, e esta é sua maior condenação. O homem evangélico vive na terra, imerso no mesmo pântano, mas com os olhos voltados para o céu, sem prender-se a tal ambiente. Em sua insatisfação faz esforços desesperados para sair dele, enquanto o outro esta contente aí, e portanto condenado a permanecer.

Desespero salutar, porque incentivo ao esforço necessário à superação.

Continuamente continuam a encontrar-se e chocar-se os dois biótipos, no curso desta história, cada um trabalhando com a própria psicologia e estratégia, e usando o próprio tipo de armas. Um dia, sentados lado a lado no mesmo automóvel, um esplêndido exemplar do biótipo dominante na terra disse ao nosso personagem: “coitado, o senhor não sabe nada da vida pratica… faz-me pena”! Depois, voltando-se para um amigo do mesmo tipo, sentado do outro lado, acrescentou: “Nós é que sabemos viver e vencer. Ele, coitado, é um pobre desgraçado na vida”. Nosso personagem ouviu e sorriu. Ele não necessitava mostrar-se forte com afirmativas verbais, para ter certeza de vencer num mar de incertezas tortuosas.

Sorriu com amargura, não por si, pois via claro seus problemas, mas pelo vizinho, ao vê-lo tão imerso na escuridão em relação ao que depois lhe aconteceria, conforme acabava de provar, com suas palavras, nada ter entendido.

Continuemos a observar como funcionam os dois princípios opostos e como se desenvolvem suas estratégias opostas, para aprender sobretudo a do evangélico, descobrindo onde esta sua força e superioridade, e para ver do lado oposto os erros de método que constituem a fraqueza e inferioridade da estratégia do mundo. Veremos, assim, como esta, acreditando tirar vantagem para si, acaba buscando seu prejuízo, ou seja, como o sistema da astúcia é quase sempre contraproducente.

De um lado seres fortes, mas elementares, só movidos pela inteligência curta dos instintos, engodados pela perspectiva do lucro imediato, isolados no próprio egocentrismo, sem sentido orgânico da vida, tendentes, para tornar-se mais fortes, a organizar-se em grupos e prontos a desfazê-los porque baseados no egoísmo que é separatista e desagregante. Seres que se acreditam fortes porque armados de meios humanos e de grande fé em sua astúcia. Pequena estratégia elementar, miúda, para alcançar objetivos concretos e próximos, ignorante das profundas maturações de longo alcance e da organicidade a longo prazo das grandes batalhas.

Do outro lado o tipo biológico despersonalizado do próprio egocentrismo, organicamente fundido com as forças de seu plano, forte por essa organicidade impossível de desfazer-se porque baseada no altruísmo que irmana unificando. Uma vida que transcende no particular, assumindo profundos significados universais. Um mundo ignorado pelos atores da parte oposta, e no entanto vivo, presente, que opera também no mundo deles. Que peso podiam ter, no choque com impulsos desse gênero, os pequenos estratagemas humanos, para conseguir fins pessoais terrenos? Quem os utilizava, não compreendia que estas eram ótimas redes para pegar os peixinhos comuns, mais que inadequadas para peixes de outras formas e dimensões, que, ao invés de serem presos, as rasgariam.

Assim essa batalha oferece-nos um espetáculo estranho. As aparências estão todas a favor do primeiro tipo de homens. E eles creem cegamente nessas aparências, tanto que nelas baseiam sua estratégia.

E por isso eram enganados completamente pela própria psicologia. A substância era completamente diferente. Enquanto eles se acreditavam fortes, porque armados, hábeis e senhores do terreno, de fato eram fracos. Embora acreditassem o contrario, se achavam diante de um inimigo do qual não viam as armas, a estratégia, nem a verdadeira natureza, um inimigo imponderável, de quem nem conheciam o rosto. E acreditavam conhecê-lo. Combatiam, pois, um inimigo completamente diferente do que criam que fosse.

Nascia desta forma, da parte deles, uma estratégia toda errada, dirigida a golpear certos pontos que lhes pareciam vitais, mas que não o eram. Seria como querer matar um espírito com tiros. Aconteceu, portanto, que seus golpes caíram no vazio e atingindo um alvo diferente, não chegaram a produzir o efeito querido. Ao contrario, esta foi para eles uma atividade totalmente contraproducente porque, além de representar inútil desperdício de energia, se voltou depois contra eles mesmos. Cada golpe deles não atingia o alvo, mas ricocheteava nele. Era como se atirassem contra si mesmos. Explica-se isto com o fato de que, tratando-se de golpes lançados contra a ação de planos superiores, entra logo em cena e manifesta-se sua lei de justiça, pela qual quem faz o bem ou quem faz o mal, o faz a si mesmo. Assim, cada golpe dado contra o inimigo, volta a quem o deu. Por isso, quem acredita vencer com a astúcia e o engano, fica vencido pelo seu próprio engano. Então, cada movimento para a conquista acabara minando as próprias posições. Isto pela lei geral, porque, no fim, o mal só pode trabalhar contra si mesmo.

A consequência de tudo isso foi que a estratégia dos homens do mundo resultou invertida, de modo que tudo o que procuraram fazer para lucro próprio e em prejuízo do instrumento da missão, resolveu-se em pratica em prejuízo deles e em lucro deste. Quanto mais procuravam torcer a missão aos próprios fins, mais esta lhes escapava das mãos, e certamente não por vontade do instrumento, mas como que espontaneamente. Para eles, cada assalto se voltava contra eles mesmos, cada ato se tornava contraproducente, cada movimento prejudicial. Quem pôde observar de perto o fenômeno, conseguiu com isso uma prova experimental de que as forças do mal trabalham sempre para perda, com prejuízo próprio e em vantagem das forças do bem, a serviço destas e para seu triunfo.

Confrontemos as duas estratégias: a da astúcia e a da sinceridade. A primeira vista, parece que a primeira dê frutos maiores. Eles são mais visíveis porque imediatos e, para quem ignora o futuro, o imediato tem grande valor como prova de êxito. Mas trata-se de frutos aleatórios. A sinceridade, ao contrário, se constrói mais lento, constrói mais sólido, aí mesmo onde o engano constrói rápido mas sobre areia. Parece um atalho, e no entanto é uma estrada mais longa. Por isso muitos são a ela atraídos, mas depois ficam desiludidos. As aparências enganam. A estratégia da sinceridade, justamente porque mais simples e retilínea, é mais própria a vencer; a da astúcia facilmente se perde pelas estradas tortas da mentira.

Para manter a primeira mentira, é preciso logo escorá-la com uma segunda, depois a segunda com uma terceira, e assim por diante. No fim, não se constrói um edifício, mas apenas uma desordenada floresta de escoras e, se falta uma delas, tudo rui. Se um resultado imediato é obtido com o primeiro engano, logo é preciso justificá-lo com outro, depois este com outro, até que se fica preso em sua rede. Constrói-se assim um sistema todo errado, dentro do qual se fica preso. A mentira é a areia mole do pensamento, na qual, nem mesmo quem a diz, sabe onde apoia o pé e por isso mesmo acaba afundando. Quando se pretende construir nesse terreno, quanto mais alguém se move para sair, mais nele afunda. Acontece como no tempo de guerra, em que todos semeiam minas, que depois explodem para todos, aonde quer que se vá. A vida do astuto enganador acaba então transformando-se em campo minado, no qual ele mesmo, em primeiro lugar terá de caminhar, com o perigo de que uma das minas que ele mesmo colocou, possa explodir a cada momento.

Então, entre as duas estratégias, a do mundo e a do homem evangélico, demonstra-se a primeira, na prova dos fatos, decididamente inferior. O primeiro método é confuso, complicado, tolhido em seus movimentos pela própria multiplicidade de suas faces, que podem esconder, mas também podem trair.

Quem o utiliza, sente intimamente que não está certo; sente que esta, por trás de todas as aparências, intimamente estragado e não sustentado por nenhuma força interior. Tudo isto o torna ansioso, desconfiado, necessitado de assegurar-se, agarrando-se ao que lhe parece concreto em seu mundo, onde tudo lhe escapa no engano. Tomado pelo afã de uma preocupação contínua, ele então se agita e corre, sem jamais chegar a tempo. Assim a astúcia do mundo constrói um grande castelo que, como vimos na prática, acaba muitas vezes caindo-lhe nas costas e sepultando-o nos escombros.

Diferente é o método do homem evangélico. Simplicidade e sinceridade representam material de primeira qualidade, bem sólido para construir. Não há mistérios a esconder, mentiras a recobrir, mascaras para arrastar atrás de si, não se fica sobrecarregado pelo trabalho de ter que aparecer sem ser, pelo esforço de ter que representar a comédia do fingimento. Quantos cálculos a menos a fazer, quanto menos erros possíveis para corrigir depois, quanto trabalho a menos para realizar! O homem evangélico tem uma só face e sempre a mesma. Ele sabe o que está certo, conhece o seu direito, e faz o que deve.

Esta sua posição retilínea constitui seu maior poder de penetração e resistência. Não tem pressa de chegar porque sabe que, se Deus não paga no sábado, certamente pagara e na melhor época. Ele conhece a Lei e confia nela. E isto lhe da calma pelo que, sem a ânsia de correr, chega a tempo. A calma e a segurança são as qualidades que fazem reconhecer as coisas do bem e de Deus. A pressa ansiosa e a incerteza são as qualidades que fazem reconhecer as coisas do mal. O evoluído sabe que constrói estavelmente na rocha um edifício feito para ficar em pé.

Na natureza oposta dos dois sistemas reside sua fraqueza ou sua força, a razão de sua queda ou de seu êxito. O método do involuído, sendo de natureza separatista, é destrutivo, pois é filho do poder negativo do Anti-Sistema, e só pode levar a resultados da mesma natureza, ou seja, negativos. O método do evoluído, sendo de natureza unitária, é construtivo, pois como filho do poder positivo do Sistema só pode levar a resultados da mesma natureza, isto é, positivos. Eis por que, colocados os dois biótipos, um diante do outro, a vitória cabe ao evoluído.

Nenhuma força ou astúcia humana poderá mudar esta lei, que disciplina e dirige a luta entre as duas maiores forças do universo, o bem e o mal. Quem usa as forças negativas, não pode deixar de ficar, no fim, demolido. É sua própria negatividade que as torna destrutivas, porque tendem ao desmoronamento, revoltando-se em primeiro lugar contra quem as usou.

Baseiam-se as duas estratégias em princípios completamente diversos, e é deles que depende a força ou a fraqueza de cada uma das partes da luta. Trata-se de duas psicologias opostas, mas de amplitude diversa, pela qual a superior compreende a inferior, mas esta não compreende a superior, que não agride, não guerreia, e, perdoando, não retribui os golpes que recebe. Deixa apenas que os golpes que lhe são dados, recaiam automaticamente sobre quem os desferiu, que assim trabalha para a própria perda, indo contra si mesmo. Enquanto o evoluído é naturalmente transportado pelos mesmos impulsos da Lei dentro da qual se colocou o involuído, tendo-se colocado como rebelde fora da lei, e tendo-se isolado em seu egocentrismo individual, só pode contar com sua limitada reserva de seus recursos pessoais.

Esgota-se também a complicação de seu jogo. Não só, como dissemos, cada mentira requer outra para justificar-se, e esta, outra, e assim por diante, mas cada vitória injustamente arrancada ao vizinho aumenta o próprio débito para o equilíbrio natural da Lei e o crédito do ofendido em relação ao ofensor; aumenta o peso específico deste e portanto a dificuldade para ele de realizar o esforço necessário para manter-se a tona. Acumulam-se desta forma cada vez mais os débitos que o vencedor tem que pagar ao vencido. A grande ilusão de quem vive no plano da força, é que não exista justiça, e que esta pode ser subjugada, porque tudo é questão de força. Mergulha ele assim num sistema em que, quanto mais se vence, mais se precisa da imposição da força para defender a própria vitória. Isto porque esta se baseia na extorsão, pela qual a balança pende de um lado, pela imposição da força de uma das partes, e o equilíbrio vem a faltar logo que esta se retira. Num estado de justiça, ao contrario, por causa do equilíbrio espontâneo entre os dois impulsos opostos das duas partes, ambas permanecem naturalmente satisfeitas, num estado de paz. O primeiro e o método do Anti-Sistema, feito de caos, em que emerge, na desordem, só o eu separado. O segundo é o método do Sistema, feito de equilíbrios, em que emerge, na ordem, a fusão orgânica de todos os eus, reunidos num bloco.

Nosso mundo comete e continuamente paga o erro de não viver esses princípios de equilíbrio, que nenhuma imposição de força conseguirá impedir que funcione. A isto alude o Evangelho quando diz: os primeiros serão os últimos, e quem se humilha será exaltado, ou ai dos que gozam e felizes os que choram etc. O mundo não compreende que, acreditando poder impor-se com a força ou a astúcia a essas leis, ele cava a própria ruína; não vence, mas perde. A vitória pode ser alcançada por caminhos totalmente diferentes dos comumente usados, que são julgados os melhores. É pois evidente que o mundo nada compreendeu a esse respeito. Prova-o o fato de estar continuamente pagando. É absurdo crer que tanta dor caia do céu injustificadamente, sem uma causa. E na lógica do mecanismo universal é precisamente a inconsciência humana e a conduta louca que daí deriva, a única explicação dos efeitos que temos sob os olhos.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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