O Bom Ladrão

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

A afirmativa do Cristo dirigida ao bom ladrão, do alto da cruz, afirmando-lhe que naquele mesmo dia estaria com Ele no Paraíso. Como compreender essa assertiva ante os ensinamentos que hoje nos iluminam o espírito?

Essa anotação do Evangelho de Lucas tem sido utilizada pelos estudiosos da Palavra Sagrada, ao longo da história humana, como um álibi para se justificar a salvação exclusiva pela fé. O bom ladrão, embora tivesse cometido atrocidades e jamais se esforçado por praticar os ensinos do divino Mestre, teria encontrado naquela hora extrema sua completa redenção, pelo simples fato de haver reconhecido em Jesus o seu Salvador, alimentando então sincero arrependimento pelos seus atos. Esta fala, se tomada ao pé da letra, produz um contrassenso do ponto de vista da evolução do espírito.

É certo que se pode interpretar o “Paraíso”, simplesmente como um estado de alma, solvendo-se o ilogismo da questão, uma vez que a condição interior de paz se conquista a qualquer momento e lugar. Todavia, se entendermos por “Paraíso” o Absoluto divino, como ressaltam nossos estudos, tal afirmação contradiz frontalmente a lógica que na atualidade nos assiste e o que temos aprendido e observado no campo da realidade.

Ninguém vai aos Céus sem percorrer o paulatino e necessário progresso moral e intelectual ao longo de muitos séculos e incontáveis encarnações. Portanto, o bom ladrão não poderia ter ingressado ex abrupto no Mundo divino, saltando todas as etapas do crescimento espiritual que nos apartam do Absoluto. Sequer o poder do Cristo, que não veio derrogar a Lei, poderia carreá-lo consigo, ferindo gravemente os fundamentos do progresso.

O conhecimento que detemos da fenomenologia da alma e da evolução humana impede-nos de aceitar o preceito evangélico literalmente, obrigando-nos a buscar por outros esclarecimentos que melhor se conformem aos pressupostos que no presente nos servem.

Outra contradição seria a injustiça que o Cristo estaria cometendo com os próprios e amados discípulos.

Como anotado em João 7:34, o Mestre afirmara que, para onde Ele dirigia-se, ninguém poderia até então acompanhá-lo. E ainda, como expresso em João, 14:1-3, o meigo Rabi garantiu que era bom que partisse, pois dessa forma iria preparar um lugar para Seus seguidores, e mais tarde voltaria para buscá-los, tomando-os para Si. E justifica: “Para que onde Eu estiver, estejais vós também comigo.” Conclui-se assim, que Jesus não poderia transportar para a dimensão divina, que logo o absorveria, seus amados apóstolos, os quais deveriam permanecer na Terra, seguindo os passos da evolução, a aguardar os eventos de um futuro ainda muito distante. Logo, deduzimos que Sua promessa teria sido rompida caso levasse consigo o bom ladrão.

Tudo isso estava claro, evidenciando que devíamos buscar outra compreensão para a famosa frase do Cristo proferida no madeiro infame, a fim de atender nossa amadurecida razão atual e resgatar a coerência do Evangelho.

Não precisamos de grandes elucubrações para esclarecer a questão. Reza a tradição espiritual à qual estamos filiados que houve nesse caso uma ligeira modificação do real sentido das palavras proferidas pelo Salvador. Anotadas apenas por Lucas, elas foram-lhe transmitidas por Paulo, que, por sua vez, ouviu-as de Maria, quem estava presente entre as poucas pessoas que as testemunharam no momento extremo da cruz. Em que pesem os cuidados que o mundo espiritual tomou para que as anotações dos evangelistas permanecessem o mais fiel possível ao discurso original do Mestre, as cópias que se lhe seguiram e suas diversas traduções acabaram por impor-lhe pequenas alterações semânticas, como é o caso dessa passagem que observamos.

Sabe-se, assim, que a expressão “em verdade te digo hoje”, exarada no texto inicial de Lucas, era fruto de uma locução idiomática que no antigo aramaico significava nada mais que um reforço a uma afirmativa a ser dita no momento, que poderia ser mais bem traduzido por: “é verdade o que te digo agora.” Sua transcrição para o grego a fez incorporar a partícula “que”, antes de “hoje”, terminando por produzir o anacronismo: “em verdade te digo que hoje.” A primeira versão latina levada a efeito no século II, a partir do grego, copiou o deslize, transmitindo-o à versão seguinte, chamada vulgata, corrigida por São Jerônimo no século IV e adotada pelo concílio de Trento como o texto oficial da Sé romana. Assim o pequeno equívoco chegou aos nossos dias.

Portanto, acreditamos que a real afirmativa do Messias, próxima de nossa compreensão atual, teria sido: “Em verdade hoje te digo, estarás comigo no Paraíso.” Confirma-nos a conclusão o fato de que o bom ladrão não desencarnou naquele mesmo dia, junto com Jesus. Comumente, os crucificados, ao contrário do Messias, não morriam de imediato, e tardavam seguidos dias para sucumbir em um lento suplício. Portanto, não se efetivara a pretensa promessa do Cristo, pois “naquele mesmo dia”, o bom ladrão não abandonara o corpo físico. E como é passível de verificação nos anais do mundo espiritual, após seu desenlace, sabidamente, ele não se retirou de imediato para os rincões celestiais. Seguiu, sim, como era de se esperar, embora profundamente modificado pela ímpar experiência, no plano comum aos homens, participando de subsequentes reencarnações em nosso planeta, conhecidas de muitos.

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