Autorredenção

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Denominemos a salvação pelo nosso esforço próprio de autorredenção, para melhor caracterizá-la. A autorredenção está então na alçada de nossas escolhas. É proporcional ao nosso intento em abandonar os interesses do ego inferior e atender aos anelos do homem novo.

Sujeita-se diretamente à nossa capacidade de superação dos hábitos animalizados que automatizamos por imposição da própria egolatria. Aguarda nosso empenho no aprendizado e prática do amor ao semelhante. E, enfim, induzindo-nos a desautorizar o antigo egocentrismo, espera pela nossa entrega à vontade maior de Deus.

Autorredenção pressupõe, então, fazer morrer efetivamente o personalismo doentio com o qual ainda nos vestimos. Exige a entrega das armas de defesa que confeccionamos na estrada dos séculos, e dos prazeres inferiores aos quais ainda nos apegamos, por serem completamente inadequados aos editos superiores do amor.

E, contando com nossa disposição ao sacrifício, a autorredenção pressupõe alçar com bom ânimo o calvário da nossa evolução pessoal, abraçando com boa vontade as dores que nos restauram as luzes divinas.

Identificamos na autorredenção três momentos decisivos:

Primeiro a renúncia ao passado, para abandonar velhos hábitos e prazeres próprios da animalidade. A sincera prática das virtudes franciscanas, como nos recomendou irmão Francisco, é-nos para isso o caminho seguro. Através da obediência, aprendemos a coibir a prepotência e a seguir como convém a Lei de Deus. Pela castidade moral, atingiremos a santificação das sagradas forças criadoras que nos servem ao ser eterno. E na abstinência aos irrisórios bens do mundo exterior, encontraremos a orientação segura para dirigir nossos anseios à conquista dos valores que realmente nos deve interessar: os tesouros do Céu.

O segundo momento da autorredenção representa nosso esforço em fixar as lições que a vida no momento nos oferta. Para isso é preciso experienciar com boa vontade e cuidadosa atenção nossas dores corretivas, aproveitando-as para sanar a ignorância que ainda nos assiste no delineamento das condutas.

O terceiro momento consiste em zelar pelo que semeamos nos campos da vida, tratando de espargir germes de bondades e alegrias, para que nossa colheita no futuro se torne farta de benesses e equilíbrios, favoráveis ao nosso progresso no rumo que nos convém. Desse modo a autorredenção implica em trabalharmos simultaneamente os três andares da consciência através dos quais ascendemos pela escada da evolução: o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Resumindo, representa a renúncia à bagagem do primeiro, o passado; a fixação das lições do segundo, o presente; e o preparo cuidadoso do canteiro que nos aguarda no terceiro, o futuro.

Entender que participamos, no exercício da vida, de um trabalho de resgate e não de um processo primário de edificação de nosso ser, facilita-nos sobremodo aceitar por que a Lei de Deus, depois de tão bem educar-nos na batalha pela sobrevivência, dotando-nos de vitoriosos artifícios e táticas de ataque e defesa, pede-nos, na fase consciente de evolução que ora percorremos, critérios completamente opostos aos que nos adestraram na esteira dos milênios. Ao contrário do que a evolução biológica até aqui nos treinou, devemos agora aprender a doar nossa vida em favor do semelhante e não a roubar em benefício próprio. E aclara-se exatamente por que o Evangelho de Jesus colima educar-nos em uma nova ética essencialmente antibiológica, portanto, contrária à natureza. Ou seja, suas lições alertam-nos para o fato de que se faz fundamental para nosso ingresso nos planos superiores o total empenho ao amor a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Esse é o máximo recurso que a vida agora nos pede a fim de brindar-nos com a integral fusão com o amor divino, que nos criou unicamente para amar e ser feliz, jamais para a luta, a dor e a morte.

Os velhos fundamentos biológicos da seleção natural que tão bem aprendemos no instituto da evolução devem ser definitivamente esquecidos. Somente o corolário da queda pode abonar-nos tal paradoxo das leis da vida. Do contrário não compreenderemos por que nosso Pai teria nos educado na escola dos milênios com ensinamentos tão valiosos a seu tempo, para nos pedir agora seu completo abandono. Vejo que o conceito da queda do espírito, apesar de permanecer tão rejeitado pelos estudiosos do espírito, é a mais extraordinária luz capaz de iluminar sobremodo nosso entendimento dos mecanismos que a vida nos subordina e suas intrigantes contradições.

E quando nos remetemos ao Evangelho de Jesus, constatamos como o conceito da queda se faz indispensável para melhor entendê-lo. Se não nos vemos como seres degredados e presos nas algemas da matéria, como aceitar que Cristo veio ao mundo para nos salvar?

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