A Salvação

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Cientes de que a Lei de evolução trabalha permanentemente para nos resgatar do universo desmoronado em que vivemos, como entender agora a salvação que Jesus nos trouxe?

Precisamos de melhores esclarecimentos, pois o conceito de salvação defendido veementemente pelo antigo cristianismo tem sido objeto de muitas controvérsias, sobretudo no âmbito espírita. Vemos que a exclusiva visão evolucionista adotada pelas escolas espiritualistas em geral, como se fosse a única maneira de se compreender a vida e o universo, entra em formal contradição com a noção de salvação veiculada pelo fundamentalismo cristão.

Será possível conciliar esses dois entendimentos aparentemente antagônicos?

Alicerçada na tradição judaica e especialmente nas lições de Jesus, corroboradas pelos Seus discípulos diretos, a teologia cristã entendeu de fato a salvação como o movimento de recondução do homem ao Reino de Deus, o qual perdera, em razão do pecado cometido pelos seus primeiros pais, Adão e Eva. Tal conceito se responsabiliza inclusive pela própria definição de religião, palavra que se origina do latim re-ligare, ou seja, “religação”, trazendo, desse modo, o significado de restauração de uma pretensa “ligação perdida” com o Criador. Assim o homem, pelo fato de descender do primeiro casal, passou a ver-se como um ser distanciado de Deus, um réprobo, nascido sob o signo do pecado. Portanto, da mesma forma que seus pais originais, fazia-se também um pecador. Logo, justificar-se-ia sua necessidade de ser socorrido e resgatado de um mundo que deixou de ser o Paraíso em decorrência da primeira falta.

A despeito do grave desvio empreendido por nossos primeiros pais, cujas consequências todos haveríamos herdado, Deus teria deixado a promessa de que enviaria Seu Filho dileto para redimir-nos e levar-nos de volta ao Lar perdido. Com o advento do Messias, o salvador prometido, os cristãos convenceram-se de que essa salvação estava enfim efetivada, bastando dar ouvidos às palavras do enviado especial de Deus. Tal conceito nutre até os dias de hoje o cristianismo, em todas as suas vertentes, subsistindo como a crença fundamental da doutrina de Jesus.

A salvação como obra de fé agradou sobremodo o seguidor do Cristo, ainda involuído, que assim se viu desobrigado de maiores esforços ou sofrimentos para libertar-se de seus erros na Terra. E passou ele a guardar a certeza de que a morte de seu corpo o devolveria prontamente ao Aprisco divino. Evidentemente que encontramos nessa simplória crença grave equívoco, uma vez que o túmulo surpreendeu-nos a todos com uma realidade muito distinta daquela que o crente sincero aguardava. Trata-se, porém, de um erro de interpretação e não de fundamento, como veremos a seguir. A salvação pela fé não pode ser negada, com o risco de adulterarmos as próprias palavras do Pastor excelso, nas quais se alicerçaram os princípios de Sua doutrina.

Todo o Novo Testamento está referto de afirmações nesse sentindo, como sabem.

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras para que ninguém se vanglorie”, afirmou-nos o apóstolo Paulo, em sua carta aos efésios.

A doutrina espírita, não obstante, compreende o homem como um ser que segue uma trajetória evolutiva rumo à perfeição relativa, por meio de muitos nascimentos e muitas mortes, depois de ter sido criado simples e ignorante. Essa visão parece entrar em contradição com os tradicionais corolários cristãos. Não se reconhece, nessa posição, a necessidade propriamente de uma salvação para o homem, uma vez que ele não requer ser resgatado de nada, senão ser estimulado a progredir no rumo certo.

Desse modo, o conceito de salvação passou a ser compreendido simplesmente como evolução, a nossa escalada em direção aos patamares superiores da vida. A inferioridade em que nos demoramos seria mera condição da alma que ainda ensaia seus primeiros passos na escola da vida, integrando o normal roteiro de criação progressiva dos espíritos.

Precisaríamos nada mais que acelerar nossa caminhada rumo aos patamares superiores da existência, a fim de libertar-nos da natural inferioridade de nosso roteiro evolucional. Assim vinha aprendendo, e creio que na prática não haveria distinção alguma entre a crença espírita e as cristãs tradicionais, pois o exercício do bem é tudo o que nos interessa no momento, e os resultados atingidos parecem exatamente iguais.

Segundo a chamada criação progressiva, a salvação do Cristo objetivaria apenas que acelerar nossos passos pela trilha do devenir, cuidando especialmente de nosso necessário desenvolvimento moral. Quem não se empenha em “salvar-se”, ou seja, aquele que permanece arraigado aos interesses inferiores da vida, unicamente tardaria mais tempo em atingir os objetivos finais da evolução. Já quem se predispõe a seguir os preceitos éticos assinalados por Jesus, mais depressa alcançaria as esferas elevadas da vida, eximindo-se das muitas dores necessárias à correção daqueles que se demoram na instintividade animal.

Desse ponto de vista não se justifica a salvação, do mesmo modo como não precisamos socorrer criança alguma por se achar na escola primária. Ela não requer ser resgatada de seu educandário, apenas auxiliada a percorrer da maneira mais rápida e amena possível as imprescindíveis lições que necessita galgar para atingir a maturidade. Inclusive, considerando-se indefectível o avanço, não precisaríamos nos apoquentar, pois a sabedoria plena e a ventura infinda seriam conquistas naturais de todo filho de Deus, na trajetória dos milênios. E, com efeito, perante a moderna visão evolutiva do mundo, a salvação torna-se um conceito dispensável, ou mesmo errôneo, comprometendo-se desse modo as peremptórias afirmações de Jesus, tão bem anotadas pelos evangelistas.

Ao abolir o vocábulo “salvação” de seu discurso, o novo estudioso do espírito não se deu conta de que, dessa forma, fez a doutrina do Cristo perder seu sentido original. O pecado, palavra também abandonada pela dialética espírita, tornou-se simplesmente o erro inevitável, cometido por todo espírito que nasce ignorante, justificado pelo seu natural desconhecimento da Lei de Deus. Jesus deixou de ser um enviado especial de Deus, para transformar-se em um educador de almas, que veio ao mundo para impulsionar-nos aos planos superiores da vida.

O título de “Salvador”, de “Messias prometido”, que Ele mesmo se dera e a crença cristã corroborara, passou a ser-Lhe formalmente negado. O fenômeno da Ressurreição, tão veementemente apregoado pelo meigo Rabi como um prodígio supranatural, converteu-se em reencarnação, portanto fato banal e comum a todo ser vivo, desprovido de qualquer sentido especial. A evolução transformou-se em uma caminhada eterna, pois se postulou que estaríamos predestinados à perfeição relativa, jamais à absoluta, pertinente apenas a Deus. O Inferno foi considerado nada mais que panorama íntimo da alma, atormentada pelo necessário processo de corrigenda dos equívocos cometidos. E o Céu, ou Paraíso, tornou-se mera condição de felicidade vivida pelo espírito que já atingiu estágio superior de vida, sem necessariamente guardar qualquer relação com o Absoluto.

Dessa forma, o entendimento humano da doutrina dos Espíritos construiu uma nova teologia fundamentada na criação progressiva, na eternidade da evolução como obra do tempo e na perenidade do espaço, da energia e da matéria. Os conceitos, anunciados pelo Cristo, que demonstravam certa contradição com a criação progressiva foram dispensados, fixando-se os espíritas unicamente nos aspectos morais do Evangelho, os quais não podiam ser negados. A oposição entre a nova escola espírita e a tradicional visão cristã tornou-se inevitável. E o crente sincero deveria agora fazer opção entre uma ou outra forma de se ver a vida e seu funcionamento, do ponto de vista religioso.

E como a evolução é a palavra de ordem do nosso século, a visão apresentada pelo espiritismo parece-nos muito mais lógica, em detrimento dos ensinos estritamente evangélicos, os quais jazem amofinados nos templos de pedra, como conhecimentos obsoletos. Negando-se inclusive o retrocesso da alma, o avanço de todos se faria inexorável na linha natural do progresso. Pelas quedas morais, comuns à nossa ignorância, poderíamos retardar os passos, repetir lições, mas jamais deixaríamos de ir adiante.

Portanto, entendemos que Kardec, ao afirmar que “fora da caridade não há salvação”, pretendia exatamente dizer que sem o esforço em realizar obras no bem não há possibilidade de o homem acelerar sua caminhada na jornada ascensional.

Estacionado nos interesses ególatras inferiores, apenas atrasaria sua marcha, fazendo multiplicar suas dores evolutivas e expiatórias, sem contudo levá-lo a experimentar outras consequências.

Não estamos negando esses preceitos. Em absoluto. Eles estão corretos, atendem à nossa lógica e estão perfeitamente aderidos ao que na atualidade sabemos sobre a evolução espiritual. Todavia, podemos, com a ajuda dos novos conhecimentos da queda que agora nos nutrem o psiquismo, lançar um olhar mais abrangente sobre o conceito cristão de salvação, compreendendo outros de seus aspectos, de forma a ampliar um pouco mais nosso entendimento. E ainda, mediante esse esforço de síntese, poderemos conciliar perfeitamente a doutrina kardequiana com as antigas revelações cristãs, sanando velhos antagonismos religiosos que trazemos da carne.

Afinal, não nos convém negar ou mesmo distorcer conceitos que foram exarados pelo Cristo, para que simplesmente se conformem à nossa particular interpretação da vida. E não podemos ter a pretensão de que a Criação amolde-se à crença que adotamos para entendê-la. Nossa sincera obrigação é estudar e observar o comportamento fenomênico universal para dele extrair as lições de que necessitamos para compreender a obra de Deus.

Basta abdicar de nossas arraigadas posições dogmáticas para que divisemos o inquestionável funcionamento da vida, e então poderemos efetuar uma síntese mais abrangente capaz de unir as duas doutrinas, aparentemente antagônicas. O cristão fundamentalista deve deixar seu cômodo apego à letra dos Textos Sagrados e, absorvendo os avanços do pensamento humano, aceitar a evolução tanto biológica quanto espiritual. E o espírita, sem abandonar sua dialética evolucionista, requer absorver os conceitos da queda. Então encontraremos o ponto de união entre as duas importantes doutrinas. Não obstante identificamos igualmente nessa atitude as dificuldades, pois o primeiro, negando a razão, radicaliza-se em interpretações literais, apegando-se unicamente aos quesitos da fé. Já o segundo não dispensa sua contumaz racionalidade, por vezes impassível, preferindo rejeitar as afirmações da fé que aparentam contradizer sua razão. Então ambos não logram percorrer o pequeno trecho que os separa de uma surpreendente síntese, que nada nega, mas apenas abraça a todos, compreendendo-os como posições diametralmente opostas de uma mesma realidade. Quem não está disposto a abdicar de sua crença, e sente-se confortável em seu patamar de compreensão, não está preparado para seguir adiante. Ninguém poderá convencê-lo do que quer que seja e devemos aguardar que a vida o convoque à instabilidade do conhecimento para que progrida. A revelação da queda, infelizmente, ainda se restringe ao campo fideísta, por se achar até então incompleta, requerendo peculiar predisposição íntima para ser devidamente aceita. Por isso não nos convém a orgulhosa posição de donos da verdade.

Todavia, deixemos essas digressões e cuidemos de debulhar, sem demora, o conceito de salvação, a fim de conciliar, mais uma vez, informes que nos parecem tão antagônicos, ainda que reiteremos conceitos já vistos. Uma vez que o espírito experimentou a grande queda, detendo-se na trama de caos e destruição do mundo físico, somente uma força íntima, em ação na própria substância, poderia soerguê-lo da hecatombe em que se prendeu. Essa força é a evolução, vista agora como o movimento de redenção da alma, cativa nas malhas do Relativismo. Surge assim um novo conceito de salvação que até então não havíamos alcançado.

Exatamente por isso,  a evolução representa atrito e dor, pois lhe compete o ingente trabalho de agastar os inadequados envoltórios em que o espírito envolveu-se e de desfazer os impróprios hábitos do egoísmo a que se entregou. De outra forma,  não se entende por que Deus teria criado seres vestidos de pedra e necessitados de percorrer um laborioso progresso, caracterizado por lutas, dores e expiações, em permanente regime de purificação, como a própria doutrina kardequiana nos demonstra. Agora entendemos, como aferido pela antiga tradição cristã, estampada na alegoria dos anjos caídos e da queda adâmica, que a evolução somente se justifica para seres que optaram pela revolta contra o primado do amor. A evolução então é genuíno movimento de resgate.

É caminho de volta à plenitude perdida, nada mais que um roteiro de recomposição dos atributos divinos que se constrangeram em nossa intimidade.

Se compreendemos que a evolução é operada por forças divinas e poderosas, as quais lutam para a superação das graves consequências de nosso fundamental declínio, então ela representa, sim, a salvação de Deus.

A salvação, desse modo, pode ser compreendida como o dinamismo reconstrutor do universo desmoronado, fadado ao sucesso e movido por Deus que, por amor, caiu junto com a criatura para resgatá-la do báratro de desordens em que se precipitou. É exatamente a essa salvação, produto da graça divina, que se referem os Textos Sagrados, concebidos por elevada inspiração mediúnica de seus autores, como sabemos. Em luta contra a dor, a morte e o mal em todas as suas expressões, consequências diretas da primeira queda, esse impetuoso impulso salvacionista, recriador e reorganizador, soergue com êxito o espírito, retido nas cinzas de si mesmo, ajudando-o a refazer sua perfeição perdida. E o faz por meio da longa e paciente elaboração progressiva, na grande planície do tempo, em seus quase intermináveis ciclos de vidas e renascimentos.

O dinamismo evolutivo é um trabalho de “reconstrução” e não de primeira “construção”. Assim deslindamos o tremendo paradoxo de admitir que Deus teria gerado antes um universo em desordem, para somente depois o ordenar na lenta e laboriosa ação do tempo. E se admitimos que Deus cria na dimensão espaço-tempo, teríamos ainda de conferir transitoriedade e perenidade à Sua obra, o que é incompatível com Sua ínsita natureza.

Como Deus está fora das dimensões do Relativo, Sua obra deve ser eterna e imperecível. Portanto, não poderia conter-se nos limites do nosso universo. Logo, presumir uma criação no âmbito do tempo e do espaço obriga-nos a negar o critério de perfeição ao trabalho divino. Ainda que aceitemos que Sua obra se aperfeiçoe mediante a impreterível ação da evolução, o Todo-Poderoso continuaria eternamente criando sob a chancela da imperfeição e da desordem, o que nos é inadmissível.

Somente a queda, portanto, explica-nos as incoerências de uma criação progressiva.

Vencido esses óbices que a razão impõe-nos, aclara-se que a evolução é a força salvadora que nos soergueu do lodo da matéria bruta para a vida orgânica. Orientou-nos, pelos caminhos dos evos, na laboriosa luta pela sobrevivência. Conferiu-nos todas as oportunidades possíveis para evoluir e fazer desabrochar a consciência que em nós dormitava, desde que “morremos” nos abismos improlíferos da matéria bruta.

Essa inextinguível força libertadora resgatou-nos do caos que geramos após a hecatombe da queda e devolveu-nos parcialmente o dom da vida que havíamos perdido. Sem sua ação socorrista estaríamos para sempre detidos na inconsciência dos túmulos físicos. Portanto, conferindo inteira validade aos Textos Sagrados, facilmente aceitamos agora que “a salvação é dom gratuito de Deus, que o Pai confere-nos por amor e graça, a fim de reconduzir-nos a Seu aprisco”, como nos aferiu Paulo de Tarso em sua carta aos efésios.

Detido na visão unilateral da criação progressiva, a Terceira Revelação deixou perder esse fabuloso conceito de salvação. Já o fundamentalismo cristão reteve-o em sua essência, mas o diluiu igualmente na fatuidade de uma interpretação literal, incapaz de resistir à razão amadurecida do homem atual. Por isso suas explicações nos fazem enorme bem.

Favorecem-nos resgatar verdades eternas registradas nas Sagradas Escrituras, aferindo-as segundo os preceitos modernos que nos assistem. E apazigua-nos sobremodo o intelecto ao aplacar-nos o conflito fideísta em que nos debatíamos. Além disso, essas lições despejam inigualável luz sobre os ensinos do Cristo, atualizando-os sob o beneplácito de nossa hodierna dialética evolucionista, que não precisamos abandonar.

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