Relação entre Evoluído e Involuído (2)

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A substância do método atualmente vigorante em nossa sociedade é a da defesa. Mas aqui o mal-entendido reaparece quando, com tal método, essa sociedade pretende tratar e curar a doença da criminalidade. Perante esta, que deveria ser a suprema finalidade do poder judiciário, na atual conjuntura social, é uma falência.

Mas para que isto não aconteça seria necessário usar a forma mental e a ética de um outro plano, onde a tarefa de quem domina não é a de defender contra todos a sua posição de domínio, mas a de levantar os inferiores, de educar e remir os criminosos, eliminando a semeadura de tanto mal, a qual diariamente se está realizando em nosso mundo na mais completa inconsciência das consequências. O atual método repressivo corresponde ao do cirurgião que procura curar cortando o tumor do câncer. Assim, com todas as providências da justiça humana, teoricamente perfeita, a doença da criminalidade, atravessando os séculos, ficou sempre de pé.

Infelizmente a realidade é que possuem todos a mesma forma mental, usam todos o mesmo método de luta, quem julga não está situado acima e fora da raça humana para que lhe seja possível julgar. Seguem todos o mesmo caminho, pelo qual à ordem não se pode chegar a não ser constrangido os rebeldes à obediência, porque o ponto de partida é o caos; não se pode chegar ao direito senão ordenando a força, e à justiça senão disciplinando a injustiça. E, seguindo este mesmo caminho, os diferentes grupos vencedores se alternam no palco da história, obedecendo aos mesmos instintos, os do seu nível biológico, usando as mesmas armas, para atingir as mesmas finalidades. Também na livre escolha democrática do pleito eleitoral, é sempre o poder da posição, da inteligência, dos recursos, o que permite que alguém vença os seus antagonistas políticos.

Eis qual é a luta entre o biótipo A2 e o A3, e ao contrário. Ambos querem e têm o direito de viver. Mas o segundo não quer reconhecer esse direito ao primeiro, que então tem de conquistá-lo com a força. Para o tipo A2 não há lugar no castelo dos vencedores Por isso ele tem de ficar fora como rebelde. Claro que se os revoltosos encontrassem um abrigo dentro do castelo, eles acabariam tornando-se homens da ordem.

Para acabar com os homens da desordem, seria necessário colocá-los dentro da organização da ordem, porque, se então se tornassem inimigos dela, se tornariam inimigos de si próprios. Que eles se tornem defensores da ordem é o que de fato acontece, logo que um deles enriquece e consegue ocupar posições elevadas na sociedade.

O mundo atual deveria compreender que é seu interesse que não haja expulsos, que é absurdo um banquete a sós, sem que aqueles que estão olhando não acabem furtando alguma coisa. A nossa sociedade não chega a compreender isso, porque não possui mais do que a forma mental do seu nível biológico, com a qual não sabe conceber tudo senão em função do eu particular e sua vantagem imediata. É assim que a coletividade fica continuamente repleta de rebeldes criminosos. Por este caminho o problema não se resolve, até que sejam suprimidas as causas primeiras que estão dentro do próprio corpo social dos vencedores, que assim continua sempre levando consigo a sua doença crônica.

Eis então o que acontece em nosso mundo. Justificando-se com um castelo teórico de princípios e leis, a classe dirigente que tem em mãos o poder, com a sua forma mental, estabelece uma ética, cujos conceitos abstratos de bem e mal na realidade significam só o bem ou o mal daquela classe. Na substancia se trata só de justificar em nome de princípios superiores a necessidade de constranger à obediência os rebeldes. O restante é problema longínquo, que fica na sombra.

Este constrangimento se baseia no princípio da satisfação ou do sofrimento, e atua por meio do prêmio ou da pena. Assim aparece nas religiões a ideia de paraíso e inferno que corresponde à das leis civis, das honras ou da cadeia. Mas isto não educa, não melhora, somente estimula à luta egoísta para ganhar a própria vantagem ou evitar o próprio dano. Mas é lógico que a ética do egocentrismo não possa gerar a não ser frutos da mesma natureza. Acontece assim que o biótipo A3 não levanta o A2 para um mais alto nível evolutivo, mas fica abraçado com ele no mesmo pântano.

Se o criminoso furta ou mata, faz isso porque a experiência que adquiriu no ambiente em que nasceu e cresceu lhe ensinou que era mais provável conseguir vencer na vida pelos atalhos da desordem e revolta, do que pelo caminho direto e longo do trabalho e da ordem. E de fato a vitória no caminho da delinquência depende da inteligência, poder e recursos, como deles tudo depende na Terra. E o criminoso funciona conforme a ética vigorante. De fato quem cai na rede das leis é o delinquente simplório, desarmado, isolado, sem recursos e inteligência  ou mentalmente doente. A rede em geral pega só os peixes fracos e pequenos. Os grandes tubarões me escapam. O lema é: “A lei é igual para todos”, ao qual alguns acrescentam: “os simplórios”.

E o que acontece, depois, com esse criminoso que a lei consegue agarrar? Com uma pública e solene demonstração de justiça nos tribunais, isolam-se esses sujeitos, por um período de tempo arbitrário nas cadeias. Que faz o preso? Ele continua reagindo ainda mais contra a sociedade que, depois de haver gerado os ambientes onde tudo isto pôde nascer, agora pune o fruto deles com a prisão. Ele vai morar num ambiente saturado de criminalidade, onde quem nunca houvesse sido delinquente seria levado a tornar-se tal. Escola às avessas. E, quando ele terminar esse curso de mau exemplo e de revolta interior, a sociedade o considera curado e o aceita de novo, em seu seio, aquele indivíduo que se tornou pior, porque a pena atormenta, não convence, mas gera nova revolta. Isto, do ponto de vista educativo, revela uma grande ignorância. Explica-se, porém, enquanto é fruto do passado, quando os segredos da  psicologia humana eram desconhecidos, e vigorava aquela ética, descontrolado fruto do  subconsciente instintivo.

O resultado lógico de tudo isto é que a delinquência continua como câncer social permanente, o que revela a impotência dos métodos atuais para a solução do problema. Quando uma doença não se cura, em geral isto se atribui à ignorância do médico. Medicina repressiva – Mas a doença é uma fera a domar com a força, é antes um processo lógico que se penetra com a inteligência. A substância da penalogia é constituída por uma luta armada entre ações e reações da mesma natureza. Não é que defendemos o criminoso. Queremos só reconhecer que, enquanto esse método vigorar, nunca poderá acabar a luta entre o biótipo A3 e o A2, e ao contrário. Seria necessário antes de tudo educar os educadores.

O método da luta não pode gerar senão luta, da guerra só pode nascer guerra. Seria necessário acabar com esse método, procurando compreender e ajudar, em vez de condenar e reprimir, reconhecendo que não se pode eliminar o direito à vida, sem que esta ressurja torcida em outra forma. Em vez de se ocuparem a cobrir a realidade com um manto de hipocrisia falando de justiça, quando a realidade é apenas a da defesa própria na luta, seria necessário que mais honestamente se enfrentasse o problema, usando de sinceridade para resolvê-lo, eliminando os ambientes onde nasce o mal, cuidando dos criminosos através da educação, fazendo desaparecer assim as causas do fenômeno.

Dado o seu nível biológico, toda a nossa vida social se baseia não na compreensão e colaboração, mas na rivalidade e na luta. Todavia o problema das relações sociais não se pode resolver com tais métodos. O criminoso luta contra as leis, que são as armas dos seus naturais inimigos, com uma estratégia mais ou menos perfeita e poderosa, como qualquer guerreiro lutaria contra outros guerreiros. Assim se desenvolve a inteligência, mas no sentido das astúcias e enganos, por caminhos oblíquos.

Explica-se assim a função biológica da mentira, até dessa hipocrisia de que agora falávamos, como meio de defesa da vida. Quem não desenvolveu esse ínfimo grau de inteligência, ou a desenvolveu demais para que lhe seja possível retrogradar até esse nível, será sempre julgado um deficiente que, por isso, merece e deve ser condenado.

A vida nos seus níveis mais evoluídos se baseia sobre princípios diferentes. Para quem vive neste plano não há gente fora do castelo dos vencedores, porque todos se ajudam fraternalmente e sabem que são elementos da mesma unidade orgânica. Só quando, superando o método atual de desconfiança, chegarmos à compreensão fraternal, os problemas que hoje nos atormentam poderão ser resolvidos.

O sistema vigorante da luta é contraproducente. A severidade das penas demonstra a fraqueza dos dominantes, fruto do temor para que os rebeldes não permaneçam contra o poder. Até há poucos anos a justiça dava, como exemplo educador, público espetáculo, punindo ou matando os criminosos. E o povo corria para ver.

Mas o que passava como um exemplo educador, na realidade era um escândalo, e por isso gostoso e procurado. E, quanto mais feroz o espetáculo, tanto mais gente corria para gozar de tão saboreado petisco. Claro que assim se realizava uma educação às avessas, porque o povo aprendia a arte do crime, acrescentando a lição que ele se torna legítimo quando o comete quem tem o poder nas mãos.

Todos ficam satisfeitos: 1) os chefes, porque acreditavam dar um exemplo de sua força, confirmando o seu domínio; 2) os juízes, porque, agradando ao seu senhor e mostrando o seu poder, fortaleciam a sua posição, ao mesmo tempo que a pública encenação da justiça tranquilizava a sua consciência, porque tudo se havia realizado com o consentimento de todos, endosso universal que, deixando as condenações dentro dos limites da lei e da ética, as legitimava; 3) o povo ficava satisfeito porque podia estudar a arte de matar e vingar-se do próximo, e ao mesmo tempo com tão gostoso espetáculo de ferocidade, seguindo a sua ética de luta, satisfazer o seu instinto de agressividade e destruição, que é qualidade do involuído.

Deste modo, chefes, juízes e povo todos ficavam satisfeitos porque, cada um verificando a sua utilidade particular, todos juntos podiam, assim unidos, libertar-se de um inimigo comum e isso sem perigo, porque se tratava de um fraco vencido.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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