Evolução da Luta

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Uma vez vencidos os elementos naturais e resolvidos os problemas básicos da subsistência, a luta humana estava preparada para modificar-se substancialmente. Desenvolvendo novas habilidades no campo do psiquismo, o homem abandona paulatinamente o uso prioritário da força em seus sangrentos enfrentamentos, deixando a guerra de músculos para assumir agora uma batalha de nervos, em disputas de espertezas e entrechoques de inteligências. A luta evolui, torna-se nervosa e psíquica, sob a ética da astúcia e não mais da força bruta. O novo vitorioso na arena humana será então não exatamente o mais forte, porém o mais hábil na arte do engodo.

Continuando a desconhecer o funcionamento da Lei de Deus, ele julga infantilmente poder ludibriá-la sobrepondo seu egoísmo aos sagrados imperativos da consciência. Seu inimigo não será mais retalhado ao fio da espada, porém subjugado e explorado com as armas da insídia e da persuasão. Procurando obter vantagens sempre, suas ações agora serão demarcadas pelo embuste e pela mentira. Esse é o homem dos nossos dias que ainda habita nossas entranhas e almeja obter, em toda ocasião, proventos e regalias em detrimento do bem alheio. Evidente que terminamos por colher os mesmos prejuízos que imputamos aos nossos irmãos, continuando a imprimir agruras e amofinações em nossa jornada no reino da razão.

Contorcem-se as sociedades terrenas sob o peso das competições em que se transformaram os enfrentamentos humanos, regados agora pela disputa de brilho pessoal e o afã por vantagens imediatas, na grande batalha de superação do homem pelo homem.

A despeito da infelicidade geral, o espírito evolui no entrechoque de interesses egoicos e, deixando o reino da barbárie animal, penetra, enfim, nos caminhos da ciência. Sua inteligência atinge os patamares da genialidade e um novo capítulo da evolução entreabre-se à sua caminhada: empregando análises cada vez mais refinadas e aparelhos sempre mais precisos, ele penetra nos grandes mistérios do universo e da vida. Não tem ele ainda, no entanto, a necessária visão de síntese para decifrar os segredos da divina inteligência que rege o universo, permanecendo, insistindo no uso exclusivo da razão, na superfície da realidade fenomênica.

Acumulando dados sobre dados, e sendo até então incapaz de compreender a essência de tudo o que existe, ele descobre nada mais que relações entre fenômenos, os quais, em última instância, permanecem sem explicações.

Sua intenção continua sendo, nesse nível evolutivo, conhecer para sujeitar, na vã esperança de impor sobre o funcionamento universal seu doentio e rebelde anseio por domínio. Repetindo a motivação básica de sua queda, se fosse possível, cada homem far-se-ia imperador do cosmo, subjugando à sua vontade o próprio Criador.

Encontramo-nos assim com o homem contemporâneo que insiste em fazer-se o centro da vida, vivendo sob os auspícios da astúcia e da inteligência, como se a razão lhe fosse tudo de que necessita para decifrar os enigmas da Criação. Ele ainda desconhece o amor ao semelhante e faz da vida planetária um campo de infindas aflições. Natural que a felicidade não pertença a seu mundo e sua alma permaneça mergulhada na ignorância e sedenta de paz.

Apesar disso, os ganhos evolutivos são evidentes. O homem vence os primeiros obstáculos materiais do mundo denso. Constrói máquinas surpreendentes, conquista tecnologias, transforma a face do planeta e nomeia a ciência a norteadora de sua vida na carne.

Se é certo que o homem deixou a espada e não mais ataca seu próximo sem um motivo que o justifique, vigora ainda nas paisagens da evolução humana a hipertrofia da razão sobre os valores da bondade e do amor.

O homem se empenha muito mais na aquisição de bens irrisórios que na felicidade alheia. Um ato de bravura física é mais valorizado que uma ação altruísta e aspira-se muito mais ao academicismo que à filantropia.

Natural assim que sombras e dores permaneçam frequentando a vida na Terra, tornando a existência do homem um poço de lamentos e lágrimas.

A despeito da persistência da luta, sob o gládio da acirrada disputa de hegemonia, a comiseração nascente segue conduzindo os mais habilitados na arte dos sentimentos à elaboração de comportamentos mais apurados. Com estes nasce a justiça social, estabelecendo o Direito nas legislações humanas, pronto a aprimorar o equilíbrio da vida em comunidade. A criminalidade é severamente reprimida mediante sanções articuladas pelos institutos jurídicos. A honestidade passa a ser valorizada como qualidade desejável à vida de relações e à troca de valores humanos.

O homem, porém, ignorando a ordem do amor, insiste em viver em torno dos próprios interesses, dificultando o despertar dos poderes divinos nos refolhos de sua alma. Persiste encerrado no castelo do ego e luta contra as imposições sociais. Indivíduo e comunidade tornam-se inimigos. A comunidade cria leis para dirigir a conduta individual e auferir-lhe bens de direito, mas o indivíduo, no lugar de servir à coletividade que o alberga, estuda suas leis para ludibriá-las a gosto, buscando por vantagens que se lhes sobreponham aos deveres. Colocando-se o sujeito sobre o bem comum, ao qual deveria atender acima de seus interesses particulares, justo assim que a humanidade se contorça em sistemas coercivos, gerando-se infelicidades, danos e limitações para todos.

Persiste, desse modo, na ribalta terrena, a escabrosa batalha da vida, como um eco da primeira e grande revolta que a todos nos demoveu do seio divino. Distanciados dos fundamentos do amor, determinados pelo Pai para a vida de relação de seus filhos, vive-se ainda na Terra a luta de todos contra todos. Transformada agora em embates sociais e econômicos, egoísmos individuais disputam entre si os valores disponíveis na vida humana.

Egoísmos de classes pleiteiam vantagens em detrimento das outras organizações sociais que toma por rivais.

Egoísmos nacionais sentem-se no direito, no exercício da guerra, de explorar ou mesmo destruir povos irmãos.

E todos, empenhados na prática de aviltante hedonismo, atravessam a vilegiatura terrena interessados unicamente na defesa dos próprios direitos em detrimento dos deveres.

Patrões e trabalhadores odeiam-se mutuamente, buscando ambos meios de tolherem-se uns aos outros.

Nas expressões do intelecto, digladiam-se mentes brilhantes, objetivando nada mais que a projeção do próprio personalismo e não o sincero empenho em prol do bem comum. No campo da economia, o capital movimenta recursos a espera de ganhos exorbitantes, olvidando a obrigação de produzir benefícios sociais e riqueza para todos. Nas relações internacionais, cada país vê-se autorizado a oprimir e a assaltar nações mais pobres, em busca de escusas conquistas. Em meio a intensa paixão egoica que a todos nos move, natural que a felicidade no planeta se encontre muito distante de nossos olhares, fazendo-se mera utopia para uma humanidade que ainda não se decidiu a levar a sério as lições do Evangelho.

Tenhamos, não obstante, a certeza de que a sabedoria da Lei haverá de conduzir-nos às impreteríveis primícias do amor, terminando por edificar o Reino de Deus no coração de cada um de nós. Deixemos, entrementes, o estudo do fim último do progresso humano para logo mais, tratando agora de caracterizar as principais fases que identificamos em nossa redentora senda.

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