Viver o Evangelho

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Assim, nosso protagonista decidiu a grande experimentação. Qualquer que viesse a ser o resultado dela, ele teria procurado utilizar a vida para finalidades mais elevadas que não as baixamente estúpidas de tantos outros. Pô-la a serviço de instintos animais, guiando-se por estes e não pela inteligência, era método impróprio ao seu biótipo.

Sua natureza era diversa e o levava a uma espécie de inconciliabilidade com os métodos dominantes. Procurava adaptar-se com um sentido de respeito aos sistemas do próximo, mas deste seu respeito o próximo se aproveitava para impor-se a ele. Enquanto ele procurava colaborar, os outros avizinhavam-se para dominar. Sacrificara-se para coadjuvar e encontrava quem só queria explora-lo.

O que, afinal, queriam dele? Era possível que, para viver naquele plano, fosse necessária a revolta e que fosse esta a resposta exigida por ser a única que os outros podiam compreender?

Assim foi que aquele homem estranho começou a viver o Evangelho. A experimentação, pelos perigos implícitos e por suas consequências, assim como pelas conclusões a que conduzia, devia ser efetuada com seriedade e precisão, como uma pesquisa de laboratório, observando exatamente todas as condições e reações.

Como se desenvolveria uma vida guiada por tão estranhas diretrizes?

Era necessário conduzir a experimentação com inteligência para não errar nas conclusões. Assim foi que se desenvolveu a grande aventura. A prova realizou-se observando todas as regras da arte, foi controlada racionalmente, estudada positivamente para dela tirar conclusões certas.

Desenvolveu-se desse modo a vida do nosso protagonista.

O caminho foi longo e duro. Por um grande período o Evangelho foi vivido na sua parte negativa: renúncia, aceitação, dor. Assim a ele tinha sido devido adaptar-se a sofrer em solidão e silêncio. Vida triste, redobrada toda para o interior, para onde aquela alma era rechaçada pelo contínuo desferrar dos golpes de todos quantos, como lobos cheirando a cordeiro, encetavam os primeiros passos para o banquete. Mas enquanto para estes se tratava apenas da banal manifestação de instintos, nele a inteligência afinava-se na amargura e a introspecção aprofundava-se cada vez mais.

Era duro e difícil, mas havia nisto um grato sabor de poder naquele Evangelho que lhe exigia saber viver como cordeiro entre os lobos, largando todas as armas, tendo presente a alegria dos lobos antegozando o banquete daquele que, havendo-se feito cordeiro, podia ser devorado impunemente. Que convite agradável para eles. Para ele, apenas, o martírio da maceração e do amadurecimento.

A forma de evolução com que se realizava a redenção Evangélica teria, então, que se realizar por via da crucificação?

É esta, então, a primeira fase da técnica da ascensão para o involuído, isto é a destruição da animalidade?

Assim perdurou por diversos anos. A opinião pública, considerando-o um vencido, estava contra ele e o definia: o imbecil. E ele começava a resignar-se a morrer, aceitando a segunda das duas soluções, isto é, a de que o Evangelho, ainda que teoricamente justo, não era, na pratica, aplicável na terra.

Qualquer outro, em seu lugar, chegando a este ponto, teria abandonado a experimentação, seguindo o caminho mais seguro, o do mundo, em que os efeitos são imediatos. Mas o nosso era um homem estranho que não aceitava aquele caminho e aquele tipo de vida. Não lhe restava outra escolha senão a de ir até o fim, tanto mais que uma experimentação conduzida até a metade não o autorizava a tirar qualquer conclusão. De outro modo sua seria a culpa se a prova não tivesse êxito e, a sua morte, ele não teria nenhum direito de afirmar ter sido destruído por ter crido no Evangelho, que o teria induzido a engano.

Decidiu, pois, continuar até o fim e deixar-se matar, mas somente por Cristo e unicamente por haver querido sempre seguir o Evangelho.

Entretanto ele havia compreendido uma coisa. Se o mundo afirma que o Evangelho não é praticável na terra, isto podia ter sua razão exatamente neste cansaço prematuro, da parada no meio do desenvolvimento do fenômeno, cujo decurso havia de ser bem mais longo. É preciso ir cautelosamente no julgar e não ter tanta pressa em liquidar assim leviana e superficialmente um fenômeno de tal monta como o evangélico, em torno do qual gira a humanidade.

Uma das razões que induziram o nosso experimentador a continuar em suas indagações a todo custo, foi precisamente a de que devia haver alguma outra causa pela qual o Evangelho continuava a apresentar-se nesta sua forma invertida que induz a maioria a abandona-lo. Devia haver uma espécie de barreira do som a ser ultrapassada para que tudo, depois, mudasse radicalmente. O problema estava em possuir a resistência necessária a superar aquele limite.

A maioria para as primeiras tentativas, que, naturalmente dão resultado negativo, e com isto tira conclusões. Feita uma primeira experimentação e pelo fato de não terem obtido um sucesso decisivo e imediato, sentem-se autorizados a sustentar que o Evangelho não é aplicável. Dizem: “Experimentem. Sistema impossível. Se não tivesse reagido, defendendo-me por mim mesmo, ter-me-ia perdido”. Coloca-se, por isto, o Evangelho de lado, entre as muitas mentiras convencionais de que é repleta a nossa sociedade uma vez que se julga ter o direito de concluir, com a prova na mão, que o Evangelho não pode ser vivido.

Tudo isto é explicável.

Ultrapassar a barreira do som, neste caso, significa chegar a pôr em funcionamento no plano do involuído as leis próprias do evolvido. Do mesmo modo como, superado um dado limite de velocidade, modificam-se as leis do movimento que então deve ser conduzido com princípios  diversos, assim, passando do plano de vida do involuído ao do evolvido mudam-se as leis de vida e os métodos para defendê-la.

Viver, então, de acordo com a estratégia evangélica da não resistência, significa transferir em própria defesa as formas de movimento que se adotam nas velocidades ultra-sônicas para o terreno humano onde se anda a pé, ou pouco mais. Eis porque aqueles sistemas, na terra, para o viandante inexperto, não funcionam e, por isto, este os acha inaplicáveis ou, melhor, perigosos. Mas isto não quer dizer que para o viandante esperto que saiba utiliza-los, que conheça a técnica deles, aqueles sistemas de movimento em velocidade ultra-sônica, não possam representar uma indiscutível superioridade sobre quem sabe apenas andar a pé ou pouco mais.

Esta é a posição do homem evangélico consciente das mais elevadas e poderosas leis do seu plano em face do homem comum que as desconhece e permanece em poder das leis de próprio nível, menos poderosas, por serem menos evoluídas. Poder-se-ia objetar: mas, porque, então, se o mundo é feito, a este respeito, de analfabetos, exigir atitudes de graduado em nível universitário? Mas isto não tolhe que todos procurem superar os cursos inferiores para chegar a universidade, por saberem das vantagens que disto decorrem.

Desenvolver, vivendo-o, o tema evangélico é trabalho ainda demasiado difícil para muitos alunos terrestres. Para esses acontece o que se daria com um selvagem a quem se entregasse um aparelho radiofônico; depois de observa-lo por todos os lados, julgando-o com o seu cérebro, o desprezaria por imprestável. Usar o Evangelho significa pôr em movimento leis complexas e forças profundas, de grande potência, de efeitos a longo prazo, e não fenômenos de superfície, de resultados diminutos e que, por imediatos, são os que o homem comum melhor percebe e mais aprecia. Assim é que, enquanto os outros efeitos escapam-lhe, ele só aceita estes.

Assim é que, enquanto a maioria para na metade, chegando a conclusões erradas, o nosso protagonista quis continuar a experimentar o Evangelho, como deve fazer quem quer estudar um fenômeno seriamente. Tratando-se de leis complexas e forças profundas, era lógico que este estudo reclamasse tempo e perseverança e, com isto muita fé, de que sempre deve estar munido o cientista que quer escancarar as portas do mistério, fé que, no fundo constitui aquele merecimento sobre o qual se baseia o nosso direito de colher o fruto de nossos esforços. Era preciso continuar, custasse o que custasse. O que se diria do cientista que quisesse tirar conclusões das experimentações de seu laboratório apenas depois de algumas primeiras provas malogradas? Perguntar-se-ia: a experimentação foi completa? Foi conduzida com todas as cautelas e inteligência devidas?

Assim o nosso personagem continuou a pesquisa. Entretanto ele possuía um dado de fato, embora pequeno, mas positivo; por haver seguido o Evangelho, ainda não havia sido aniquilado. Naquelas condições bem difíceis, do cordeiro entre lobos, ter sido, até então, pisado mas não devorado, o que representava algo de incomum.

Havia, entretanto, na mente do experimentador, uma dúvida. Este fenômeno da salvação, que já parecia milagroso, continuaria e verificar-se no amanhã? Que elementos faltavam para condicionar plenamente o desenvolvimento do fenômeno? Era talvez parte da lógica do seu desenvolvimento, este retardamento da demonstração plena da potencialidade do Evangelho. Tratava-se, certamente, de pôr em movimento forças titânicas. Talvez fosse preciso um esforço proporcional, aquele em face do qual todos param, para depois rejeitar o Evangelho como inaplicável. Talvez fosse indispensável uma prova absoluta de fé e fidelidade, daquela coragem de quem salta com o paraquedas, a coragem dos navegadores dos mares inexplorados ou das audazes pioneiros nos territórios desconhecidos.

E quais as terras mais desconhecidas que as do espírito? Seria esta uma indispensável condição do fenômeno? E, se o era, como exclui-la “a priori” e não aceitá-la? Todo fenômeno tem suas leis e suas condições. Também neste caso era preciso aceitá-las.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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