As Forças do Alto

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Procuremos compreender melhor a técnica usada neste caso pelas forças do Alto para descer no ambiente humano. O que mais impressiona é a observação da organicidade do método na execução do plano. Tantas pessoas de temperamento, posição social, e recursos materiais diversos contribuíam, perseguindo cada qual fins diferentes, muitas vezes desconhecendo-se uma a outra!

Todas estas pessoas, no entanto, funcionam alinhadas em perfeita colaboração, seguindo sem saber e sem querer, as diretrizes de um plano orgânico que não conheciam e ao qual, se o tivessem conhecido, ter-se-iam rebelado por ser contrário a suas finalidades. Estas pessoas apareciam em cena no momento certo, para executar o trabalho particular para elas designado e desaparecer logo depois, logo que sua presença se tornava inútil aos fins do plano geral.

A observação destes fatos não podia conduzir senão a conclusão de que, como causa de um desenvolvimento tão ordeiro do fenômeno, não se poderia aceitar o acaso, nem a vontade dos elementos que nele trabalhavam. O plano era vasto e complexo, desconhecido por ser diverso daquele em que os executantes acreditavam desconhecido até pelo seu principal ator, o nosso protagonista que nada programava e só corria, como por eles arrastado, atrás dos acontecimentos.

Quem, pois, dirigia tudo? Quem encontra diante de si um efeito, deve presumir que este derive de uma causa e que esta seja da mesma natureza e qualidade do efeito. Neste caso ela devia ser inteligente e, dado que não era encontrável na terra, era preciso procurá-la alhures. Ora, em outro lugar, uma causa de tal natureza, inteligente, não podia ser encontrada senão no mundo espiritual. E, como já demonstramos antes, estava na lógica de todo um sistema de forças que, neste momento, fossem as dos mundos superiores as que deveriam manifestar-se tornando-se ativas no plano da vida humana.

Assim tudo se torna claro. Tudo acontecia conforme a lógica das teorias desenvolvidas acima, que nos fatos encontram plena confirmação. Para os céticos irredutíveis poderemos dizer: os fatos são estes aqui expostos. Se não existe outra hipótese, senão esta, que é a única que os explica, teremos que aceitá-la, a não ser que renunciemos a compreensão. Pode ser que outros consigam descobri-la, mas nós não conseguimos encontrar outra hipótese aceitável. Que tão diversos elementos, naturalmente tendentes a elidirem-se, antes que a colaborar, por serem eles rivais, levados pela própria natureza do seu plano biológico, antes de mais nada, a lutar para vencer um ao outro, que esses elementos antagônicos hajam funcionado organicamente conforme um único plano por eles ignorado, tudo isto não pode ser explicado senão com a presença de uma força diretora que se lhes sobrepôs para coordenar seus movimentos. E não sendo encontrável esta força na terra, havemos de procurá-la em outros ambientes, como vimos.

Há, entretanto, um outro fato de que é preciso tomar conta. Tratando-se de descida na terra de forças espirituais de mundos superiores, havia de verificar-se inevitavelmente o choque entre formas mentais e métodos de vida diversos, como estudamos anteriormente. O que confirma a hipótese acima é o fato de que este choque se verificou efetivamente. As forças espirituais dirigiam do Alto, mas sua atuação dava-se no terreno do mundo. O fenômeno desenvolvia-se entre dois planos de vida que se elidiam um ao outro. O nosso protagonista achava-se no meio, devia suportar o choque. Avizinhando-se aos próprios semelhantes, de braços abertos, com o método evangélico, devia encontrar-se com o método do mundo, egocêntrico separatista, de inimizades e lutas.

Para ele a grande modificação se havia dado em idade avançada, não podendo chegar senão como conclusão de uma longa experimentação evangélica. O seu passado havia sido longo e doloroso.

Sofrer e resistir é trabalho pesado e o estava cansando; acreditava, pois, que a sua fadiga estivesse ultimada. De certo o Alto havia-se movido! Mas que longa e profunda maceração! Ele tinha querido, verdadeiramente, com fatos e não com palavras, viver o Evangelho. Ele tinha ido, armado apenas de bondade, ao encontro do próximo, contra o qual se presume que se tivesse armado para o ataque e a defesa.

Presunção tácita, escondida mas sempre presente em qualquer povo, religião, regime político, classe social, como substancia da realidade da vida. Dado isto, no terreno humano, ele não podia ser senão derrotado.

Em nossa sociedade não é licita a antropofagia. Mas se isto fosse possível, e se o achasse comestível e saboroso, ela devoraria o homem evangélico. Entretanto o faz de outra maneira: tira-lhe tudo o que pode ser de alguma utilidade, deixando-o com a pecha de inepto pobre e nu, despido de tudo. Neste mundo este é o final lógico do homem evangélico.

Nesse mundo fala-se de caridade e de beneficência. Mas, em tal ambiente, qual significação real poderão assumir em muitos casos estas palavras?

Beneficência! Grande virtude e, como todas as virtudes, nobre sacrifício que, por isto, é melhor reservar aos outros para que eles deem a nós, e assim possamos cumprir o santo trabalho de empurrar os outros, para seu bem, ao sacrifício deles em lugar do nosso. Nasce desse modo a nobre porfia de exigir tão gloriosa virtude antes do próximo do que de si mesmos. E quando se pratica a beneficência, toma-se uma boa parte da respectiva glória na terra e um bom merecimento no céu.

E os beneficiados? Bem, no fim, hão de existir também os beneficiados, uma vez que é em nome deles que tudo é feito; e tudo se justifica. Se assim não fora a substância das coisas, não se explicaria como em tantos países do mundo se tenha difundido a beneficência. Ela é proclamada em altas brados, pedindo a generosidade dos outros que são compensados com a glória de havê-la praticado. O esforço da colheita é sempre feito com o máximo desinteresse, sacrificando-se para o ideal.

Organização científica da caridade, que, desse modo, pode também chegar ao seu destino e ajudar os pobres. Mas, de fato, na lógica do mundo, o que representam eles, senão os vencidos da vida? E o que podem eles exigir de um mundo onde impera a lei da luta e a vida pertence somente ao mais forte? Numa sociedade onde domina a forma mental do egocentrismo, como se poderá pretender que aquela lei se transforme sempre naquela do altruísmo, que é lei de outros planos de vida?

Quando num ambiente dessa natureza aparece o homem evangélico que aspire a destacar-se das riquezas, ele, para alcançar o seu ideal, não precisa realizar nenhum ato heroico. Não há nenhuma necessidade de atos clamorosos aptos a encenação da grande virtude da pobreza. Para o homem evangélico, não é necessário que se espolie. Basta distrair-se um momento na luta da defesa, deixar um pouco a porta aberta, e o próximo entra e, não encontrando as comuns barreiras defensivas, pensa imediatamente em tornar efetiva a espoliação. Desse modo, para alcançar a pobreza evangélica, não ha’ necessidade da clássica doação, do grande gesto visível, circuito de méritos gloriosos, com os quais o sacrifício é pago em grande parte. Maiores espoliações podem dar-se na sombra, na luta universal para tudo agarrar, sem glórias nem merecimentos, antes e melhor com a condenação de incapacidade.

Esta é a história do nosso homem. Não havia tido necessidade de cumprir qualquer gesto de doação para achar-se evangelicamente pobre. Para isto, o seu próximo, que devia amar como a si mesmo, havia provido e o havia empobrecido. Fora rico, mas havia sido subjugado no trabalho conceptual, inerente a sua missão, que lhe tomava a maior parte do seu tempo e de suas energias. Não lhe sobrava, o que mais é necessário, nem tempo nem força, para levar a efeito o primeiro trabalho deste mundo, que é o de lutar e defender-se. E parece que na terra (pelo menos assim foi no seu caso) não e possível a quem confiar o próprio, sem, com isto, acabar perdendo tudo. Assim, por não se ter podido defender, ele tudo havia perdido, sem a glória do mundo que observa e sem a gratidão dos beneficiados que recebem. Cristo, no Evangelho disse a um rico: se quiser ser perfeito, vai e vende tudo. Mas, em nosso mundo, não há necessidade de vender e doar. Nunca falta quem, quando sejam abandonadas as defesas, pensa logo em tornar-nos pobres, perfeitos como quer o Evangelho, sem necessidades de nos despirmos de nada.

Que coisa estranha um homem evangélico em nosso mundo! Como? Tratar-se-á de um doente mental? Assim era julgado o nosso personagem e, no melhor caso, com um sentido de compaixão. Mas um tolo que nem sabe defender-se, merece, conforme a lei do plano biológico humano, antes que compaixão, condenação e castigo. Esta é a justiça da terra: que o débil seja eliminado por se ter deixado vencer.

Esta a triste história que aqui estamos narrando. Tinha sido longa e penosa e, com a atual modificação, o seu protagonista, cansado demais de tudo, acreditava que ela tivesse terminado. Distanciando-se do seu velho mundo para ingressar no novo, acreditara que tudo mudaria, que encontraria sinceridade e homens diversos dos que encontrara até então. Viu, entretanto, que tudo queria continuar na mesma. O nosso sujeito saíra sangrando de uma espoliação feroz e havia sido esfolado bastante para poder suportar ainda igual sofrimento. Desta vez, se o jogo continuasse, o homem evangélico seria aniquilado.

A experimentação havia chegado a um ponto crítico, além do qual não podia prolongar-se, sem que o êxito viesse a ser comprometido, com as consequências de princípio de que já falamos. Não era mais possível esperar. As forças superiores não podiam mais retardar sua intervenção: uma ulterior dilatação significaria sua derrota e a vitória do mundo. Havia chegado, mais uma vez, a hora em que o Alto devia manifestar-se em forma concreta de ação no plano da matéria, porque ficaria vencido e o Evangelho cairia em erro, se o Alto com a sua intervenção não tivesse salvo o indefeso dos lobos ferozes. Se aquele homem tivesse morrido, por haver querido viver o Evangelho, este ter-se-ia demonstrado um engano, porque demonstrar-se-iam inverídicas suas palavras: “Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais ser-vos-á acrescentado”.

Assim os novos lobos, desconhecedores dos resultados a que conduziam suas ações, foram, sem querê-lo, também instrumentos de milagrosa revolução do experimento em sentido positivo, em favor do Evangelho, já que o seu ataque foi o que obrigou as forças do Alto a descerem e agir, porque eles o haviam, agora, tornado indispensável.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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