Ação Divina e Ação Maligna

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Uma das mais importantes chaves para se aclarar como age a mecânica evolucional é saber que nela atuam duas forças básicas: a ação proveniente diretamente do Criador e aquela representada pelo conjunto de espíritos falidos. Chamamos a primeira de ação divina e a segunda de ação maligna, pois, em seus primórdios, esta age nitidamente em oposição aos fundamentos do amor, almejados pelo Pai para todos os seus Filhos. Essa força faz-se assim essencialmente agressiva e destrutiva da vida, porquanto interessa a cada um de seus protagonistas não apenas a sobrevivência, mas o próprio domínio sobre os demais.

Ambas as forças são eminentemente inteligentes, uma vez que os espíritos falidos são filhos do Divino, feitos de igual substância e dotados de mesmo poder criador. A despeito de acharem-se reduzidas pela contração da queda, as admiráveis potencialidades do espírito que caiu mantiveram-se ativas e operantes na vida, e podemos facilmente vê-las em ação. São forças cegas e imprecisas, pois com a queda, o espírito obnubilou-se e teve sua inteligência obscurecida pela matéria. Por isso as potências malignas trabalham com imprecisão, estão sujeitas ao fracasso, são passíveis de produzir aberrações, como se pode facilmente constatar na natureza em que participam ativamente, junto com as forças divinas.

As plantas, por exemplo, padecem de tumores cancerígenos, os animais, ainda que inferiores, apresentam malformações importantes, frutos de verdadeiros acidentes genéticos. Astros chocam-se em espetaculares desastres cósmicos. E sabemos que existem até mesmo galáxias que neste momento engalfinham-se em fenomenal colisão, fazendo destruir em ciclópicas fornalhas milhões de mundos e sóis. Mas não precisamos ir tão longe para constatar a presença de forças destrutivas na natureza. As erupções vulcânicas tudo consomem em seu caminho. Terremotos e tempestades fenomenais podem devastar em minutos as mais bucólicas belezas do mundo.

No palco da vida, as potências malignas constroem dentes, garras e músculos, prontos para o ataque, produzindo verdadeiras máquinas vivas de guerra. Parasitas diversos habilitam-se em intricadas artimanhas, a fim de explorar recursos vitais de seus aparentemente inocentes hospedeiros. Todos os tipos de venenos são inteligentemente elaborados pela natureza, desde os reinos microscópicos das bactérias às plantas e animais superiores, adestrando-se cada qual na arte de fazer sucumbir o próximo. Muitos seres confeccionam para si formas que em tudo se distanciam da estética que julgamos da autoria do grande Artista da vida.

Animais horripilantes, insetos asquerosos, peixes horrendos, construídos nada mais que em função de medonhas bocarras e ávidos estômagos, aves de rapina, feitas para o assalto e a morte, compõem, todos, verdadeiro exército de entes malignos, prontos para depredar e estraçalhar os que encontram pelo caminho, nos báratros sombrios da vida. São fatos pelos quais não podemos responsabilizar o Criador. Logo, com justa razão, o estudioso sincero facilmente constata que nosso mundo, em suas legítimas bases, está longe de ser o aprazível reduto de bondade que julgamos pertinente ao Pai amoroso que a todos criou para a felicidade e a concórdia.

Fechar os olhos para essa realidade é alimentar perigosa ilusão, pois ao deparar-nos com a inevitável ação do mal na natureza corremos o risco de cair no descrédito da existência de Deus e de Sua providência. Costumamos exaltar a natureza como a mãe bondosa e providente que zela amorosamente pelos seus filhos, mas se nos fizermos vítima de seus assaltos, desistiremos logo de aclamar seus prodígios. Amamos uma existência bucólica, servida pelos recursos naturais. Em sã consciência, porém, ninguém gostaria de abandonar as comodidades da vida humana para viver exclusivamente sob seus cuidados.

Assim, não podemos contestar o pensamento científico ao afirmar a presença de forças aleatórias na vida, como também a revelação religiosa, que quer nos convencer da eficaz e preponderante interferência divina na criação. São duas correntes condutoras da humanidade a digladiarem-se inutilmente nos palcos conceituais da atualidade, porquanto agora sabemos que ambas detêm a razão.

A ciência da queda consola-nos, porém, com a certeza de que a vontade divina está inexoravelmente presente na vida. Ela respeita as ações malignas, permitindo-lhes, por amor, agir nos domínios da provisória realidade física, onde podem atuar sem perturbar a perfeita harmonia dos Céus. No entanto, a sabedoria do Altíssimo paulatinamente preponderará sobre as potências malfazejas, através da evolução, convencendo-as das desvantagens de suas ações e dos impreteríveis benefícios do bem. E assim terminará por reconduzi-las, todas, às benesses do amor.

Poderemos nos perguntar por que Deus permite que essas forças impróprias atuem livremente no seio da natureza inferior; e responderemos que o Senhor faculta liberdade ao mal para que este possa convencer-se a si próprio de sua improcedência e de seus danos, pois o amor a ninguém coage e jamais se impõe por obrigação. Além do mais é preciso considerar que a Inteligência divina assegura que a perversidade tenha livre expressão somente onde se faz útil e necessária à própria coerção.

Assim é que assistimos às forças satânicas em livre ação nos baixos níveis do Relativismo, habitados por aqueles também afeitos aos interesses igualmente satanizados, por estigma de origem. No entanto, as potências malignas não podem superar os planos divinos que objetivam tudo reconduzir ao bem e à ordem.

Ainda que essas forças diabólicas imperem na natureza inferior, produzindo lutas, destruições e mortes, os poderes dos Céus continuam ativos e presentes e acorrem a promover renascimentos e renovadas oportunidades para aqueles que sucumbem à imposição da maldade. Se as primeiras trabalham às cegas e levam a fracassos e mesmo a inevitáveis desastres, as segundas corrigem as imperfeições e reorganizam o caos gerado, conduzindo tudo sempre ao sucesso.

Se as forças perversas induzem o espírito ao cativeiro da carne, as divinas trabalham para desmaterializá-lo, induzindo-o a retornar ao estado da essência pura. Se as maléficas são cegas, as celestiais conhecem muito bem o caminho a seguir. Portanto, essas duas faces antagônicas da natureza são verdadeiras e estão sempre presentes, embora a primeira, a imperfeita, encontre-se em franca decadência e a segunda, a perfeita, em paulatino crescimento.

Exatamente por isso a evolução é a caminhada do estado físico de imperfeição, o nosso Inferno, ao estado de pureza e perfeição, o Céu que nos aguarda. E assim, se a natureza mostra-se insensível, destrutiva e mesmo malévola por um lado, por outro é, de fato, ao mesmo tempo previdente, acolhedora e benfazeja. A queda é a razão última dessa indiscutível e estranha dubiedade existente no seio da vida que nos serve. Guardemos a certeza, tal ambiguidade, característica da criação desmoronada, não advém de Deus. O Criador jamais agiria em oposição a si mesmo.

Está certa a visão científica que viu na evolução a presença de desordens, sob a ação da inclemência, que terminam por produzir degenerações, destruições, dores e mortes, como se as forças naturais estivessem entregues a injustificável despropósito. Mas, conferimos também inteira validade à interpretação religiosa que não abre mão da interferência divina, originando organização, inteligência, criatividade e máxima perfeição possível a todos os produtos da criação progressiva.

São posições diametralmente opostas no julgamento da realidade que não podem ser desmentidas, pois ambas estão corretas. Soluciona-se, assim o terrível antagonismo do pensamento moderno, dividido entre fé e razão, religião e ciência. São teses e antíteses que agora se fundem em legítima síntese, compreendendo que as verdades realmente válidas são aquelas capazes de absorver suas oposições, sem negá-las.

Se estamos cativos da matéria, podemos ter a certeza de que a Lei de Deus jamais sancionou-nos a prisão do espírito. Se sofremos a imposição da dor, da morte e do mal, estamos certos de que o amor divino nunca endossou a destruição e a atroz luta pela subsistência, em uma arena de embates onde cada um deve se impor aos demais para não sucumbir. Se tais pressupostos são uma realidade da natureza que nos serve, devemos imputá-los a nós mesmos, a nossa queda, e não a um regime proposto por Deus para fazer-nos crescer e evoluir.

A ciência humana, fixada nas justas observações de Darwin, encontrou na seleção natural, produto da inclemente batalha pela sobrevivência, e nas mutações genéticas, resultantes de deformidades casuais, as genuínas bases do processo evolutivo, que se trata de um conhecimento não errôneo, porém incompleto. A evolução é muito mais a resultante de uma ínsita inteligência fenomênica que da casualidade das forças que a conduzem. E ainda, se não houvesse a colaboração natural, sobrepondo-se à dura disputa pelo próprio sustento, não existiriam organismos aptos para viver e lutar.

Não há dúvidas, a vida se apoia, sobretudo, em simbioses. Ao observarmos o profícuo trabalho celular, vemos que todas as células empenham-se ativamente em produzir benefícios para o organismo a que pertencem, abdicando-se de si mesmas. E não apenas as células, pois quantidade incalculável de micro-organismos atua em prol da comunidade orgânica, ao produzir vitaminas e substâncias essenciais à vida e criar paliçadas protetoras contra o assédio de ofensores. No intestino, uma multidão de bactérias auxilia o processo de digestão. Na pele, na boca e no canal vaginal, por exemplo, são elas que se responsabilizam pela proteção. E no interior da própria célula, sabemos que a mitocôndria, a organela produtora de energia, é nada mais que uma bactéria consorciada à unidade celular, à qual dedica inteiramente sua vida. Se o abuso do parasitismo é incoerente e estranho fato da natureza, vemos as potências divinas acorrerem a criar eficazes mecanismos de defesa para suas vítimas.

Portanto, se não agisse a inteligência do Criador, a todo instante, dotando todos os seres de eficientes mecanismos de organização, orientação, proteção e coordenação de trabalhos, a vida, entregue às forças caóticas e destrutivas oriundas da queda, seria completamente impossível. Se forças regeneradoras não recompusessem o ferido; se táticas de sobrevivência não superassem a morte; se o renascimento não se impusesse sobre a falência orgânica; e, enfim, se não houvesse para o perdedor, a arte da fuga e da defesa, o predador também sucumbiria ao longo do tempo, pois sua presa não subsistiria para fazer perpetuar a existência de ambos.

Estamos convencidos de que a ação divina, dotada de indubitável inteligência, zela com esmero pela organização e equilíbrio da vida, em todas as suas instâncias, para que todos sobrevivam e caminhem rumo à perfeição. É ela que leva de volta à carne aquele que sucumbe aos danos naturais, conferindo-lhe oportunidades incontáveis para que termine por superar seus desafios. É ela que faz renascer aos milhares aqueles que também falecem aos milhares; e cuida com apuro do rebento único de uma espécie. É ela que estabelece a sabedoria dos instintos que sabe guiar cada ser na solução de suas necessidades.

Logo, estejamos certos, sem amor e colaboração, antes que luta e seleção natural, a vida não seria possível na Terra ou em recanto algum do universo, meus amigos. Aplaudimos, assim, a sabedoria de nosso Pai que sabe domar com complacência e tolerância as potências malignas em ação no cosmo derrocado, transmudando-as em forças de colaboração e amor, em prol da felicidade de todos.

O edifício da evolução já está pronto e não se acha, na verdade, em construção ao longo do tempo. Estamos, todos, apenas percorrendo seus andares, já erguidos na armadura do tempo, que vai do universo desmoronado ao Absoluto. Vemos então que a queda nada desfez, somente contraiu um ser completo que, no entanto, permaneceu íntegro em sua essência.

A Criação, por ser realmente divina, não poderia, na verdade, desfazer-se com a queda. A derrocada primária apenas desencadeou uma contração dimensional no seio da Eternidade, por onde o espírito se precipitou. O edifício original continuou intacto, permanecendo como um arcabouço natural, a unir a criatura caída ao Criador. Encontramo-nos aqui com a famosa escada de Jacó, retratada no Velho Testamento. Através dela, segundo nos informa o texto sagrado, descem e sobem os anjos do Senhor. É a perfeita alegoria da evolução, a reunir em admirável síntese todos os seus fundamentos, demonstrando-nos que por ela os anjos rebeldes desceram aos abismos da matéria, mas é através dessa mesma estrutura que eles retornam à posição que ocupavam antes da queda, escalando pacientemente seus degraus, no desenrolar dos evos.

O anseio por escalar os cimos do edifício evolutivo é a aspiração comum a todo espírito que caiu e por isso o anelo por crescimento torna-se poderosa alavanca da evolução. No entanto nos contidos ambientes do universo desfeito, como todos pretendem o próprio desenvolvimento em detrimento do crescimento alheio, esse basilar impulsor faz-se também a causa de acirradas disputas, motivando a seleção natural. Impor livre dilatação ao ego.

Não se pode considerar um erro o inato desejo por ampliação de potencialidades que embala todo espírito na escada do devenir. Crescer é genuína aspiração de todo filho do Divino, contraído na matéria. Portanto, é movimento desejado pela Lei para que todos reconstituam a grandeza perdida. O equívoco está na forma como ele realiza esse anseio fundamental em seus primeiros passos.

Amotinado contra o primado do amor, o ser intenta crescer reduzindo ou mesmo destruindo seu próximo, terminando por se impor os mesmos males que causa aos demais. Ainda assim, a orientação divina, servindo-se das dores e sofrimentos colhidos, leva o espírito inelutavelmente a crescer no rumo desejado. Pacientemente ele será conduzido à expansão que realmente interessa à Lei: a altruísta ou dativa, aquela capaz de remeter-nos à unção divina. Desse modo, a expansão dativa paulatinamente passa a predominar sobre a ególatra, que ainda nos caracteriza, promovendo a dilatação do amor e o desabrochar das potências sagradas da alma, não exatamente as do ego. A expansão ególatra é força de caráter provisório em franca extinção no reino humano, para que o espírito reencontre sua real grandeza nos atributos do eu superior.

“Aquele que doar a sua vida, ganhá-la-á, mas aquele que quiser, na vida, defender unicamente seu doentio ego, perdê-lo-á”. Eis que o Evangelho vem-nos à baila como a mais fabulosa lição para orientar a caminhada humana no rumo que convém ao espírito, cuidando assim de inibir a inadequada inflação do eu inferior, produto da queda. Concluímos então que expandir em florações de verdadeiro amor é a única rota possível para se ingressar no Reino divino.

 

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