O Fenômeno Erro-Dor

queda-e-salva_ao-80_

É lógico que o homem procure a sua vantagem. Mas os sentidos que o guiam podem facilmente enganá-lo a respeito da sua vantagem, e dirigi-lo para um bem-estar imediato que representa um prejuízo futuro. O fato é que o homem não sabe qual é a sua verdadeira utilidade, que em geral não é a imediata que ele escolhe porque é mais visível, mas sim uma outra, a longo prazo; nem sabe qual é o caminho para atingi-la. Então é facílimo que ele escolha o caminho errado.

Acontece assim que ele, ao invés de ir ao encontro da Lei para que esta venha ao seu encontro, ele vai de encontro à Lei, de modo que esta reage contra ele. A Lei não permite ser torcida e opõe resistência quem não segue a sua vontade e corrente de forcas. Essa resistência contra o ser que quereria subjugá-las em favor do seu “eu”, é o que chamamos a reação da Lei. Esta é como a corrente dum rio, que representa um impulso para que tudo avance na sua direção. Como tudo o que existe, nós estamos nesse rio – a Lei.

O resultado de tudo isto é que, se o ser seguir os impulsos da Lei acompanhando o seu caminho, esta o envolve em sua corrente e com isso o ajuda. Mas se, pelo contrário, o ser quer seguir somente os seus impulsos, com outra vontade para outro caminho, eis que a Lei com a sua corrente contrária resiste, não o ajuda, mas o arrasta e persegue, porque a vontade dela é que tudo avance para os seus objetivos.

Muitas vezes o sucesso é devido ao peso de uma série de circunstâncias que em concordância obedecem a uma vontade que nos favorece, sem que ela seja a nossa. Isto nos escapa no que chamamos de imponderável. Mas o imponderável é a Lei, e a sua vontade é a sua corrente, que nos ajuda quando seguimo-la. No caso oposto muitas vezes o fracasso é devido ao peso de uma série de circunstâncias que, de acordo umas com as outras, obedecem a uma vontade que está contra nós, até vencer a nossa e todos os nossos esforços. Eis aí o outro imponderável tremendo, que se manifesta como um fardo, dirigido pelas mãos de Deus.

Esse imponderável é sempre a Lei, essa vontade inimiga é a sua corrente, que contra nós se rebela, e recebemos de volta o que semeamos. É essa nossa revolta que automaticamente nos condena ao fracasso. Então o imponderável, isto é, a Lei, ao invés de nos salvar, nos arruína.

Explicam-se assim muitos fracassos de indivíduos, como de acontecimentos históricos, de outro modo inexplicáveis.

Tudo isto se refere ao nosso tema atual, o do fenômeno erro-dor. A tentativa do ser de procurar a sua utilidade contra a corrente da Lei se chama: erro. O impulso da Lei para reconduzir o ser dentro da corrente e com esta levá-lo para a sua salvação, contra a sua vontade que quer o contrário, produz o atrito que se chama: dor, (o peso do imponderável).

A causa é a ação do ser.

A reação da Lei é o efeito.

É lógico que o tamanho do efeito seja proporcionado ao da causa, isto é, que a medida da dor seja estabelecida pelo homem com o seu erro. É lógico que, quanto maior for o erro, isto é, o impulso do ser contra a corrente da Lei, tanto maior será a sua resistência e se manifestará o impulso contrário para arrastar o ser em sua direção. Esta imagem da corrente e, dentro dela, a vontade, contrária do ser, nos oferece uma ideia bastante clara do que significa a reação da Lei.

De tudo isto se segue que, quanto mais formos a favor da corrente da Lei, tanto mais fácil será o nosso caminho, aquela corrente nos ajudará e por isso sairemos fortes; e ao contrário, quanto mais nos rebelarmos à corrente da Lei com as nossas tentativas de desvio, tanto mais difícil será o nosso caminho, porque na corrente contrária encontraremos, não ajuda, mas resistência, o que nos levará não para o sucesso, mas ao fracasso.

Quanto maior for o nosso erro, tanto mais seremos vulneráveis e fracos, e tanto maior será a reação da Lei contra nós e por isso padeceremos o contraste de nossa amargura. A desordem gerada pela vontade do ser é proporcional ao impulso corretor da Lei, para reconduzi-lo à ordem. A esta ele terá de voltar, porque quanto mais se afastar da Lei, maior será o seu esforço para vencer a corrente contrária, com isso gerando atrito e sofrimento.

Assim, por um automático jogo de forças, o ser ficando livre, não pode deixar de voltar à corrente da Lei, renegando e reabsorvendo o seu próprio impulso de rebelde, porque é este impulso o que gera a sua dor, que não acabará de atormentá-lo até que ele tenha tudo pago e voltado à ordem em obediência à Lei.

A conclusão é que, pela própria lógica de todo o processo, a dor é destino dos rebeldes, enquanto é a própria Lei que com a sua corrente leva os que a seguem para o sucesso final. Então o segredo do sucesso está em conhecer a Lei e em lhe obedecer. Mas como pode fazer isso o homem que, por ser ignorante, não conhece a Lei, e por ser filho da revolta, é levado à desobediência?

Este mundo para ele é um mundo de forças desconhecidas, que ele chama de imponderável, como se fosse alguma coisa de irreal, que lhe escapasse, fora da vida, enquanto é o imponderável a causa primeira do que depois, na sua fase de efeito, se torna bem ponderável. Eis como o mundo vai amontoando erros em cima de erros, e tudo tende para o fracasso. É assim que, tudo funcionando contra a corrente da Lei, às avessas, não se pode recolher a não ser desilusões e sofrimentos.

Trata-se de forças sutis, contra as quais a prepotência do homem não tem poder algum. Elas trabalham no íntimo das coisas, de dentro para fora e não de fora para dentro, como acontece no mundo. Elas agem lentas e constantes, despercebidas na superfície, escapando aos nossos sentidos, tudo construindo e aumentando em nosso favor, da profundeza para cima, coma nossas amigas, porque navegamos obedientes à corrente da Lei; ou tudo roendo e consumindo em nossa perda, elas operam como nossas inimigas, porque navegamos rebeldes, contra a corrente da Lei.

Os nossos olhos não percebem o movimento do sol. Mas vemos que ao por-se, ele deu a volta a todo o céu. Assim em nossa vida os acontecimentos amadurecem por pequenos deslocamentos imperceptíveis que, quando movidos por um impulso constante numa dada direção acabam traduzindo os efeitos gigantescos de uma avalanche.

A vida se constrói com a soma de instantes com que se fazem minutos, com que se fazem horas, com horas dias, com dias meses e anos, com anos vidas inteiras, séculos e milênios etc. No tempo vigora o mesmo princípio das unidades coletivas que vigora no espaço, princípio pelo qual partículas elementares se juntam para construir o átomo, átomos para formar a molécula, moléculas para formar células, e depois órgãos, organismos, famílias de seres, cidades, nações, humanidades; da mesma forma que as moléculas da matéria constroem jazidas geológicas, planetas, sistemas solares, galáxias e sistemas galácticos etc.

Assim em todos os campos cada elemento menor, associando-se com outros iguais, constrói uma unidade coletiva maior, que por sua vez, jungindo-se a outras iguais, forma outra unidade coletiva ainda maior, e assim por diante.

Assim cada unidade resulta constituída pela junção de tantas menores partículas elementares e, seja no espaço como no tempo, se organiza conforme o mesmo modelo de agrupamento de elementos por ritmo de ciclos, em que a confederação as unidades menores edifica a unidade maior. É, deste modo que como no espaço se organizam os planetas, os sistemas planetários, solares e galácticos, e no terreno da vida os grupos humanos, até a humanidades e sistemas de humanidades, assim o desenvolvimento dos nossos destinos se realiza pelos deslocamentos mínimos de cada minuto, que juntando-se produzem deslocamentos de horas, dias, anos, séculos, sempre maiores, tudo ordenadamente segundo um ritmo de ciclos menores incluídos em ciclos maiores, estes em outros ainda maiores, até se cumprir o destino maior do ser, que é o da queda e salvação.

Criados pela corrente da Lei, cada deslocamento mínimo vai se somando ate produzir um deslocamento maior que, somando-se a outros maiores, gera outro ainda maior etc.

Transcorre assim uma quantidade de ciclos miúdos, que constituem os maiores e que, pela sua pequenez, passam despercebidos. Mas não há instante de nossa vida em que um destes deslocamentos não se realize amadurecendo alguma coisa. Assim por sucessivos movimentos imperceptíveis, do nascimento chegamos à velhice e a morte. Mas no momento nada vemos, tudo parece ser imóvel, como o sol no céu. Porém no fim vemos que tudo mudou, o mundo se transformou, muitos desapareceram e não conhecemos a nova geração, porque nós mesmos nos tornamos diferentes. Uma mudança profunda se realizou, amontoando tantas transformações pequenas mas constantes, dirigidas no mesmo sentido.

Os nossos olhos míopes, a nossa forma mental feita para ver as coisas miúdas da vida, percebem só as linhas deste desenho menor e lhes escapam as do maior, o desenho geral.

Ficamos fechados no ritmo pequeno de nossa vida de cada dia, sem nos apercebermos do ciclo maior do qual ela faz parte. Conhecemos bem a volta quotidiana do trabalho, refeições, repouso, do dia e da noite, mas não sabemos para onde tudo isto avança, Vivemos a realização de princípios gerais que nos escapam, efetuamos amadurecimentos que, nos levam para bem longe, atravessando transformações profundas, estamos desenvolvendo o nosso destino, e de tudo isto não vemos senão uma sucessão de pormenores miúdos e episódios desconexos, cujo desenho geral, que constitui a nossa verdadeira vida, nos escapa. Só os evoluídos, que aprenderam a olhar nas profundezas, vivem conscientemente em função dos grandes ciclos da vida, onde mais evidente se revela a presença desses vastos impulsos da corrente da Lei, os que aqui estamos estudando.

Quanto mais o indivíduo é involuído, tanto mais é apertado o círculo dos seus horizontes, é estreita a vista que ele domina e menor é o ciclo de sua vida, que ele conhece e regula. Para  os momentos sucessivos ficam separados, colocados um após o outro, sem fio condutor que deles faça uma unidade maior, que os organize dirigindo-os para um objetivo único, os explique e justifique quais elementos de um plano geral que confere outro sentido à vida.

É para atingir esse  outro modo, mais profundo de concebê-la, que aqui vamos estudando o funcionamento da Lei e as consequências de nossos erros a seu respeito. Se nos acostumarmos a ver os acontecimentos de nossa vida não divididos como momentos isolados, cada um separado do outro, mas todos unidos ao longo de um fio condutor que os liga num desenvolvimento lógico comum, nos aparecerá em  uma outra vida a longo prazo, em que se torna visível, além dos pormenores do momento, as grandes linhas de nosso destino.

Veremos então o que escapa ao homem comum, imerso nas particularidades de sua vida: veremos a presença da Lei e o funcionamento do imponderável, realizando os princípios que aqui sustentamos.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

Faça seu comentário e participe de nosso grupo de estudos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s