O Automatismo da Lei

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Quando falamos que a Lei reage contra o rebelde, só usamos uma imagem antropomórfica que facilita a compreensão do homem, que concebe em função do seu instinto de luta para dominar.

A Lei não é um “eu” livre e pessoal que queira dominar sobre alguém, mas é uma vontade determinística e impessoal que automaticamente exige a realização dos princípios que a constituem. Por isso não há lugar para a ideia de que exista na Lei uma específica vontade inimiga, de vingança contra o ser, porque ele errou, de ofensa e reação punitiva no sentido humano. Tal ideia é fruto da forma mental do homem que concebe tudo à sua imagem e semelhança.

A Lei não odeia e não pune, mas só restabelece equilíbrios quando eles são violados. A Lei é somente um absoluto e universal princípio de ordem, que tem de se realizar, regendo o funcionamento de todo fenômeno.

Dada essa estrutura da Lei, há efeitos necessários, já marcados com antecedência, que têm de se verificar como consequência de cada movimento, conforme sua natureza. Não se pode negar o fato de que vemos a Lei de ordem reagir e aparecer a dor quando violamos a ordem. Mas se olharmos melhor, veremos que quem gera a fricção, que é sofrimento, quem com a sua ação errada movimenta a reação da Lei e estabelece a forma e medida dessa reação, é o ser com a sua revolta.

A reação da Lei é apenas uma resposta automática, determinística, que se pode calcular com antecedência, como estamos fazendo neste volume: uma resposta que, apesar de bem ativa em sentido contrário, parece passiva, porque ela obedece ao impulso do ser e nada, por si mesma, inicia ou provoca. A Lei quer somente permanecer em sua ordem, reconstruindo os equilíbrios violados. Fora disso ela existe para permanecer imóvel em sua perfeição e nada mais exige, até que a vontade livre do ser gere impulsos contrários que querem deslocar os seus equilíbrios.

Quando do isto acontece, a Lei simplesmente os reconstrói. Se isto implica dor, esta pertence ao ser que quis deslocar os equilíbrios. O seu trabalho e a função da dor é que ele aprenda a não deslocá-los mais.

A Lei é um perfeito organismo de ordem que ninguém pode violar. Ela é toda positiva, afirmativa. Nela não existe a cisão dualística dos contrários, não há lugar para a negatividade. Se, saindo da ordem, com o erro, geramos um vazio de negatividade, com isso movimentamos os impulsos reequilibradores da Lei, que têm de encher esse vazio, e eles o fazem na única maneira possível, isto é, à nossa custa, tirando de nós e reabsorvendo o que nós furtamos àqueles equilíbrios. Então a positividade tem de ser reconstituída com o nosso esforço e dor, porque se trata de um nosso débito para com a ordem e temos que lhe pagar.

O problema está todo aqui: a Lei é ordem e ninguém pode mudar este fato. O ser quis substituir esta ordem, por outra sua oposta, a do AS, que para a Lei do S é desordem, e continua repetindo esse mesmo motivo toda vez que comete um erro desobedecendo à Lei. Eis como nasce a luta entre os dois princípios opostos, e a encontramos no humano egocêntrico instinto de revolta, onde está a origem da dor. Ela e gerada pelo contraste e atrito entre a vontade da Lei e essa outra vontade de desordem da parte do ser. O que leva ao constrangimento a que ele, da parte da Lei, está submetido, para que à força volte à ordem. Tudo isto é dor porque, se para a Lei do S a revolta foi emborcamento, para o ser rebelde criador do AS a retificação para o S representa a negação da sua afirmação, o emborcamento da ansiada revolta e a destruição da sua construção: o AS.

Eis a íntima técnica do fenômeno erro-dor. O ser no caso maior da queda e em todos os erros menores repetidos por ele, não é ferido pela Lei, mas pela própria vontade de ferir a Lei. Esta nunca age em sentido destrutivo e não faz nada contra o ser: só lhe devolve o seu impulso destruidor, deixando-o ricochetear para trás, em sua direção, ao invés de absorvê-lo como o quereria.

A completa positividade do S constitui uma barreira insuperável para que nela seja possível qualquer penetração de negatividade. Mas é exatamente pela completa positividade do S, que nada de negatividade pode sair da Lei, isso prova que a negatividade recebida como reação da Lei, não provem dela, pois não é senão o que o ser lançou contra ela, isto é, a sua própria negatividade.

No S não há, nem pode sair dele, tudo o que seja mal, agressividade, dor, negatividade, qualidades exclusivas do AS, filhas da revolta. É importante compreender este conceito, porque ele nos mostra como consequência que a causa primeira dos nossos sofrimentos está em nós e em nossa conduta errada, e não está na Lei que nos responde sempre benfazeja, reconstituindo para o nosso bem os equilíbrios violados. Nós inculpamo-la porque ela faz isso à nossa custa, com a nossa dor.

A Lei não pode deixar de ser justa. Exigir o pagamento da parte de quem está culpado, faz parte dos seus invioláveis equilíbrios. Explica-se assim como, no terreno da ética, foi possível chegar à conclusão que quem faz o bem, como quem faz o mal, acaba fazendo-o a si mesmo.

Temos à nossa custa de compreender que, levar a desordem da desobediência para dentro do organismo da ordem da Lei, é o maior absurdo, que só um ser ignorante pode conceber.

Revolta ou não, não há coisa que não fique contida na Lei de Deus. O ser rebelde não construiu para si outra lei, mas somente se colocou em posição emborcada dentro da organização perfeita do S e dos princípios da sua Lei.

Chega-se deste modo a um resultado que pode parecer estranho, em que se conciliam duas posições que parecem inconciliáveis: a Lei permanece perfeitamente justa, enquanto o ser recebe a sua punição. Ele cai na dor sem que possa inculpar senão a si mesmo.

Nada do mal que a revolta produziu pode atingir Deus e a sua Lei, mas fere quem foi a causa desse mal. Triunfa assim a bondade de Deus, que não nos deixa no sofrimento, senão para nos corrigir a fim de atingirmos a felicidade. Triunfa a justiça de Deus que não deixa a dor atingir senão quem a mereceu. Não é necessário que Deus se torne mau para que Sua justiça seja feita; a dor ministra a sua lição, fazendo com que tudo, respeitando-se a liberdade do ser, seja ao mesmo tempo deterministicamente retificado para a salvação.

Quando erramos, Deus não nos pune, lançando-nos no inferno por Ele criado para se vingar das ofensas recebidas. Essa psicologia é do homem, não de Deus. Mas a Lei está construída de tal maneira que, quando erramos, com isso nos punimos a nós mesmos, lançando-nos no inferno que, para nós, a nossa desordem criou na feliz ordem da Lei. É pela nossa ignorância que assim ocorre, o que é justo, porque a ignorância é fruto merecido da revolta que destruiu a sua qualidade aposta, a inteligência, que é característica do S.

Não podemos deixar de ficar admirados perante tanta sabedoria, e é agradável contemplar a perfeição da Lei que, soberana sempre triunfa de tudo.

O único resultado que o ser podia atingir e atingiu, foi a efetivação, somente para si mesmo, do princípio da desordem e da luta que o atormenta. Dada a estrutura da Lei, a revolta, desde o inicio, não podia ser senão uma derrota, e o rebelde senão um vencido. Isto fazia parte da própria lógica do S, em que não pode haver possibilidade que Deus seja vencido. Se houvesse, Deus não seria mais Deus.

Pelo contrário, o que sempre vemos triunfar é a sabedoria Dele. Esta se revela também na revolta, apesar de poder parecer um erro e um defeito do S. A revolta gerou ignorância, luta, sofrimento. Mas eis que por este caminho emborcado a Lei sabe atingir o objetivo oposto, e com seus meios sabe realizar o endireitamento, porque com a experimentação na luta e na dor, desenvolve e reconstrói a inteligência.

Assim a Lei destrói a ignorância, causa de tanto mal, acabando com o sofrimento, porque o rebelde chega a compreender que a causa das suas dores está na desobediência e que não há outro caminho que conduza à felicidade que não seja o da obediência na ordem. É assim que, pela sabedoria da Lei, o caminho da perdição, iniciado pelo ser rebelde, tem automaticamente que se endireitar dentro do caminho da salvação. Seja no caso maior da queda e grande ciclo involutivo-evolutivo, ou, no que já estudamos, erro-dor, a sabedoria da Lei, substituindo ao mal o bem, continua sempre corrigindo e reconstruindo, lá onde o ser errou e destruiu.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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