Os Mártires da Evolução

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As leis que observamos são as que marcam o caminho da existência dos vários tipos biológicos conforme sua natureza. Isto é o que forma o destino próprio de cada um, mas acima de tudo do evolvido.

Destino! Pode este constituir o drama de uma vida, drama tanto maior, quanto mais for titânico aquele destino. Há destinos simples, cinzentos, insípidos, que se arrastam terra a terra, presos a pequenas coisas. Mas há, também, destinos tremendos, apocalípticos, feitos de dores, alegrias e conquistas poderosas de dimensões gigantescas, destinos em que se embatem o céu e a terra, numa luta que arrasta e esmaga o indivíduo numa tempestade cósmica.

Há destinos constituídos de poucas ideias, de realizações elementares, que não vão além das dores e das conquistas suportáveis por um menino. Mas há, outrossim, destinos em que se agitam os maiores problemas do universo, em quem através de grandes paixões devem realizar-se as maiores conquistas, e no meio das maiores dores é preciso saber dar escalada ao céu. Destinos feitos de tormenta criativa para os titãs do coração e do pensamento. Destinos de tormento proporcionado àquela potência, em que a dor bate duramente sobre a bigorna daquelas almas, para fazer emergir aquela potencialidade em centelhas que iluminem o mundo.

Assim conquista-se o porvir por obra dos pioneiros do progresso, os mártires da evolução. Executam eles o grande esforço, acima de tudo, para os outros, sua maior paixão é fazer subir o homem para seu próprio bem. O mundo responde, muitas vezes, com a inveja e perseguição em vida, com a crucificação em morte, e com a exploração depois da morte.

Destino, enigma de toda alma! Inexoravelmente acorrentada, a alma o vai desenvolvendo em sua vida, cada alma o tem como carne de sua carne e o não conhece; indaga, buscando a revelação do seu mistério. Tudo entretanto, está escrito no livro do destino, mas a alma não sabe ler. E cada um permanece com o seu. Mil destinos encontram-se na vida, tocam-se, influem reciprocamente, mas não é possível nem permutá-los, nem destruí-los. São como tantos trilhos traçados, sobre os quais tudo tende a correr pela vida toda.

Por que? Quem construiu este trilho?

Por que são tão diversos de homem para homem?

Conhecemos a lei que nos diz ser consequência de nosso passado, continuar o trilho que havemos construído nas vidas precedentes, vivendo conforme quisemos viver. Mas, como de fato isto aconteceu, as formas, as particularidades, a realidade como foi por nós vivida, tudo nos escapa e aprofunda-se nas trevas insondáveis do mistério. Problema não de um só, mas de todos, porque, não obstante os particulares sejam multíplices e diversos para cada um, todos vivemos e não podemos deixar de mover-nos senão dentro do âmbito da mesma lei comum a todos.

O destino é este trilho que quer nos levar numa determinada direção. Ser-nos-á possível corrigi-la, mas sempre na base daquele impulso precedente, que foi nosso, livre, e que, continua nosso, fatalmente. Assim, por este seu passado, grande parte de nossa vida já está traçada. O impulso fundamental, o colorido geral, o tipo de trabalho a realizar e de experimentações a desenvolver, já estão prefixados, dados pelo modo conforme o qual quisemos construir nossos instintos e qualidades, constituindo exatamente o trilho sobre o qual não podemos deixar de continuar a ir por diante. No passado semeamos os germes, que agora hão de se desenvolver, dos reclamos nossos para as forças boas ou más, os germes das nossas atrações e reações, de que dependerão nossos encontros e nossa conduta.

Até agora, apenas iniciamos a história de nosso protagonista e dela nos distanciamos para analisar mais amplos problemas surgidos de suas particularidades. Volvamos à narrativa para segui-la mais de perto. Também aquele protagonista estava jungido ao seu destino particular. Definido para ele desde a sua meninice, continuou a arrastá-lo na mesma direção para fazer passar a sua vida através de determinados pontos fundamentais. É um destes pontos que constitui o episódio que queremos expor, por representar  um exemplo confirmador da tese sobre o Evangelho sustentada neste volume.

A sua vida havia sido um desenvolvimento lógico de que os fatos vividos constituíam as sucessivas proposições. Dores e alegrias, condições de ambiente e dificuldades a superar, tendências e realizações alcançadas, tudo convergia para o fato central, que constituía a maior realização daquela vida.

Tal realização, conteúdo fundamental daquele destino, consistia no cumprimento de uma missão de progresso espiritual.

Para esse fim os acontecimentos daquela existência haviam-se desenvolvido todos mirando a um mesmo objetivo. Ambiente, educação, qualidades, dificuldades, eventos, dores, tudo tinha tido uma função principal, a de preparar aquele homem para o cumprimento da sua missão. Em seu devido tempo haviam-se-lhe tirado todas as satisfações materiais que podiam induzi-lo a permanecer ligado à vida terrena, e a fim de incitá-lo a aprofundar-se introspectivamente, dentro de si, mais do que distrair-se projetando-se para fora na vida comum de superfície. Havia-se, assim, podido realizar em silêncio a concentração, o amadurecimento daquela alma para torná-la apta ao cumprimento do seu destino.

Aconteceu então, no seu desenvolvimento, que depois de tanta preparação íntima, soou a hora em que ele devia dar o seu fruto exterior e em que aquele homem devia sair da solidão e do silêncio, fase apenas preparatória, para entrar na fase das realizações, trabalhando no mundo, sem o que a missão não se poderia cumprir. Assim foi quando ele estava bem amadurecido e chegara a hora; o destino o tomou pelos cabelos e o lançou na pre-escolhida terra longínqua, mais adaptada para nela poder-se cumprir a missão.

Aqui começa a história que interessa à nossa tese evangélica. Por isto procuramos, agora, focalizar aquele período significativo daquela vida. Nós o contaremos, observando-o em profundidade como foi vivido. Não aparecem pessoas, mas as causas de seus movimentos, representados pelas forças que as fizeram agir, muitas vezes sem sabê-lo, como cegos instrumentos. As pessoas não interessam, sim, e apenas, o funcionamento da lei, que se oculta atrás delas e explica os seus atos. Além da forma, interessa a substância; mostraremos por isso, a realidade que move as aparências, permanecendo aderentes mais às causas do que aos efeitos. Poderemos, desse modo, estudar a técnica conforme a qual desenvolve-se uma missão, ver como se dá o fenômeno da descida das forças do Alto, oferecer, enfim, uma prova experimental das verdades do Evangelho, que parecem as mais irrealizáveis. Procuraremos no caso particular, o que tem valor universal, o que pode interessar a qualquer um que venha a encontrar-se em iguais ou semelhantes condições de vida. Nossa finalidade e, tornar compreensível o valor moral da narrativa, fazendo ressaltar os ensinamentos benéficos que dela possam ser deduzidos.

Eis que em certo dia aquele destino estava maduro, para que, depois de uma longa e dolorosa preparação interior, saísse para o mundo e alcançasse a sua realização. O sujeito havia sido experimentado como fidelidade ao ideal, preparado como sensibilização, purificado o mais possível dos piores instintos da animalidade, como o orgulho, o egoísmo, o instinto de domínio. A adaptação é uma das fundamentais leis biológicas, necessárias para garantir a sobrevivência. E a vida do sujeito, no plano físico, havia-se adaptado, ganhando assim qualidades para os trabalhos espirituais, mas por nada aptas a vencer no plano humano no qual, entretanto, sua missão deveria exercer-se. Eis, pois, surgir, no desenvolvimento da lógica daquele destino, a necessidade de que, um indivíduo especializado em direção espiritual, inepto, por isso, a lutar como se usa na vida prática, recebesse, para realizar a sua missão, as ajudas de que precisava.

O desenvolvimento de uma missão representa um trabalho complexo, em que devem concorrer muitos elementos, combinando-se no momento e na medida justa. Para produzi-los, são precisas tantas qualidades diversas, inclusive opostas, que um homem sozinho não pode possuir. S. Francisco lançou espiritualmente a sua obra, mas, depois, teve de ceder a outros, dotados de qualidades bem diversas, a direção e disciplina da sua Ordem. Como então, reunir o tão diverso material humano e espiritual necessário para poder completar a obra até o final? Deve, para isto, intervir ostensivamente a inteligência superior que dirige todo o procedimento, sem o que este não poderia realizar-se. As causas são, sem dúvida, espirituais, mas devem, neste caso, descer para agir, fixando-se na terra com efeitos concretos. Momento interessantíssimo, porque é nele que aquele mundo espiritual, quase sempre escondido no mistério, vem a manifestar-se em nosso plano de vida, de modo que podemos vê-lo aparecer e funcionar, permitindo-nos, assim, dirigir a nossa observação também para esse mundo de mistério.

Mundo este das causas, escondido na profundeza impenetrável ao nosso olhar, mas que, neste momento, é obrigado a tomar forma exterior, tornando-se perceptível.

Eis, então, que nossa narrativa começa a tomar corpo na hora da madureza do destino que estamos observando, porque as forças que o dirigem encontram-se na necessidade de sair do mistério e pôr-se a agir de modo manifesto, descendo a colaborar com as forças que agem em nosso plano, a fim de que aquele destino se cumpra como elas exigem. O chamado de um destino para cumprir uma missão não é a costumeira invocação verbal de nossas preces Os fins a alcançar são de caráter universal e interessam à vida no seu maior trabalho que é o da evolução Ademais as forças do alto, havendo preparado e conduzido tudo até este ponto, assumiram uma velocidade própria e um empenho de continuação do desenvolvimento lógico daquele destino, na direção já iniciada. Tudo isto constitui uma necessidade de intervenção uma inevitabilidade na descida das ajudas do Alto. Esses destinos planejados pelas forças espirituais não podem prescindir de sua direção e assistência contínuas, a qual os deve acompanhar na sua transformação, providenciando as diversas necessidades de todo momento, uma vez que o cumprimento de uma missão representa a construção de um edifício complexo em que entram materiais de forma e natureza diversas. E cada coisa deve estar em seu lugar, executar seu trabalho no momento preciso, utilizando as capacidades específicas de tipos diversos, chamados cada um a seu turno para efetuar, conforme suas qualidades, funções diversas. Trata-se muitas vezes de vontades humanas ignaras de tudo isto e rebeldes, encerradas no seu egoísmo. É preciso, pois, induzi-las à ação necessária, fazendo-as mover por meio de fios aos quais elas sabem obedecer, isto é, seus instintos e miragens, sem o que o seu concurso não poderia ser obtido. Não há outro modo para induzir a trabalhar para o ideal, quando o seu concurso é necessário, seres habituados a mover-se apenas para o próprio interesse. Começamos, assim, a perceber como é complexa a arquitetura do trabalho necessário a levar a bom termo o cumprimento de uma missão. Disto faz parte a direta intervenção das forças do Alto, e em determinado momento, a necessidade absoluta desta intervenção.

No desenvolvimento de nossa narrativa chegamos agora a um estado de amadurecimento, pelo qual aquela intervenção do Alto torna-se indispensável eis que, de outro modo, ficaria comprometido o fruto de toda a preparação anterior. Antes de escrever estas páginas procuramos estudar, com o método da observação, a estratégia e a técnica  desta intervenção do Alto ou descida das forças espirituais, e isto é quanto agora veremos. O fenômeno da realização de uma missão nunca pára, anda sempre impelido pelo seu dinamismo. Antes deve amadurecer aquele que a deve cumprir. As forças do Alto ocupam-se antes de mais nada dele e não lhe deixam descanso. Por vezes golpeiam com o chicote da dor para excitar suas reações; por outras isolam-no no silêncio a fim de que se concentre e, introspectivamente, olhando para o profundo, compreenda; por vezes impõem provas de absoluta fidelidade e de obediência cega e por outras o circundam de luz para aprender a ver e, depois, ensinar aos outros a ver. Depois quando aquela alma estiver bem moldada para os fins desejados, aquelas forças do Alto lançam-na no mundo ambiente totalmente diverso onde imperam outras lutas e psicologias.

Este é o momento crítico do fenômeno, em que se cumpre o aferimento em contato com a realidade de nosso mundo Neste ponto convergem todos os impulsos do passado, como tantos raios luminosos focalizados no mesmo ponto para acender o estopim que deve gerar o incêndio. Superou ele todas as fases da preparação. O Alto está interessado neste amadurecimento preparado por ele, cujos efeitos fazem parte do desenvolvimento de seus planos. O momento é crítico e resolutivo. Então aquelas forças do Alto tomam posse daquele homem que com elas havia livremente aceito de conjugar-se, o fundem com a missão e lançam-no agora para o seu fatal cumprimento.

Chegados a este ponto, esta mecânica de forças dá ao desenvolvimento da missão uma característica de fatalidade. Agora, o homem que a aceitou está lançado e não se pode mais retrair. Não é que não seja livre, mas é a própria velocidade que quis tomar e de que ora vive, que não lhe permite mais parar e, muito menos, retroceder. As forças que o guiaram até aqui o sabiam, tanto que podem agora confiar nele Eis, então, um homem arrastado por sua própria velocidade, amarrado por fim a um impulso que já é mais forte do que ele, impulso fatal também por estar empenhado com um determinismo implícito no desenvolvimento de todo o fenômeno em que se comprometeram as forças do Alto que, há tempo, tudo estavam preparando para o êxito certo. O resultado positivo da ação de todas estas forças está em que tudo finalmente deve cumprir-se até o fim, não havendo poder humano que possa fazer parar o seu desenvolvimento.

Tal estado de fato resulta bem claro para nós porque, olhando até o fundo, podemos ver a natureza e o movimento das forças que estão em campo, como, também, o seu lógico desenvolvimento até este momento decisivo. Podemos, pois, dar-nos conta racionalmente desta característica de irresistibilidade no cumprimento da missão. Natural é, porém, que o mundo, vivendo com outra psicologia e, por isso, não tomando em conta essas coisas, haja cometido um grande erro em face de tal missão: erro de não haver compreendido a existência de uma missão, e, ainda quando a admitia, de haver acreditado possível dobrá-la adaptando-a a fins particulares, enquanto tudo já estava situado além de todo poder humano. Desta fundamental incompreensão nasceu e desenvolveu-se, na realidade vivida, aquele embate que observamos entre evolvido e involuído, isto é, entre as forças do Alto focalizadas na missão e nos indivíduos que deviam executá-la, de um lado, e o mundo que, sem nada compreender, resistia-lhes para rejeitá-las.

Aqui se reproduz, em proporções humanas, em forma mais próxima de nós, mais particular, mais viva, a batalha que, nas suas grandes linhas vimos no encontro entre diversos planos de vida. É para melhor compreender esta história que aqui contamos, que antecipamos aquele estudo acerca do encontro de biótipos e de níveis evolutivos. Já ingressamos no culminar da batalha; as premissas expostas farão com que melhor a possamos compreender. Estudaremos sua estratégia e técnica, mas dado o mecanismo de todo o fenômeno e os elementos de que ele resulta composto, é fácil prever, ainda antes do início da batalha, qual deverá ser a sua conclusão; dada a necessidade do cumprimento da missão, e a resistência naturalmente imposta por incompreensão, todos os obstáculos, também as maiores potencialidades que se levantaram contra, despedaçaram-se como era lógico, e, em vez de vencer, como acreditaram firmemente, por não haver compreendido nada, foram vencidas.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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