Evangelho: Uma Lei Biológica 

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Eis o conteúdo deste novo tipo de ética, onde é possível  contrapor uma concepção diferente da vida, em que o jogo contra a Lei é um absurdo anti-utilitário, perigoso e contraproducente. Finalmente um lugar onde há justiça, onde é possível ser sincero e honesto sem ter de pagar caro por isso.

Finalmente alguém em que se pode confiar e colaborar com amizade, um amigo que ajuda e não um todo-poderoso que vive só para si, contra o qual teríamos que nos defender. Finalmente um Deus inteligente, não apegado à forma, mas que compreende a substância, que vive ao nosso lado, luta e sofre conosco, que com justiça imparcial é vencedor absoluto dos maus onde quer que eles estejam, sem favorecer grupo algum para condenar todos os demais. Caem assim as barreiras interesseiras humanas: cada um é julgado não pela sua posição terrena, mas segundo o que ele é e merece, e os maus ficam maus e pagam, e os bons ficam bons e recebem, qualquer que seja a sua nação, grupo, partido ou religião.

Deus não é chefe desta ou daquela hierarquia religiosa, por ela monopolizado, armado contra os deuses de todas as outras religiões. Ele é universal, abraça todos, sem preferências e exclusividades; usa a Sua Lei e medida igual para todos e não uma para um grupo e outro para os demais. Sua justiça está acima de todas as injustiças humanas, é universal e não particular; é amiga de todos os justos e não somente dos seguidores de um dado grupo, considerados bons, e inimiga dos seguidores de outros grupos, somente por isso considerados maus. Acabe-se com essa psicologia animal de vencedor e vencido, pela qual tudo o que o primeiro faz está certo, e o que o derrotado faz está errado!

Encontramos nessa ética uma verdade firme, positiva, acima da luta, dos poderes e dos enganados do mundo. Ninguém lhe escapa. Não adianta possuir comando de grande chefe, recursos econômicos, força bélica ou política, nem ser massa de povo que, representando à maioria, faz o que quer. Não há como fugir. As nações têm de pagar como os indivíduos.

Ninguém pode fazer o mal impunemente. A Lei é um torno de ferro que nos prende a todos, nos aperta dentro do canal das consequências das nossas ações, ao longo da linha dos efeitos que têm de amadurecer, sem distância de espaço ou de tempo que os possa parar. Cada um tem de colher o fruto do que semeou. Têm de pagar os grandes e os pequenos homens de todos os partidos ou religiões. É a derrota dos espertalhões do mundo, contra os quais se levanta a lei do merecimento.

O mundo quer outras verdades, em função dos seus interesses. Mas aqui encontramos uma verdade mais profunda que ninguém pode abalar.

Eis a ética por nós sustentada. Ela representa uma revolta à revolta, uma reação contra o AS, para voltar ao S. Isto significa trabalho de retificação para chegar à salvação.

Procuramos aplicar à ética o método positivo da lógica, para convencer os que sabem pensar, oferecendo um produto de razão iluminada e não dos instintos do subconsciente.

Estamos percorrendo o caminho da reconstrução. Com a revolta, o “eu” da criatura (menor), que no S existia em função de Deus (maior), quis realizar o absurdo que Deus (maior) existisse em função do “eu” da criatura (menor). Esse absurdo, isto é, que o maior possa existir em função do menor, constitui o ponto fraco do AS, o que nos garante a vitória final do S.

Essa nova ética não é novo invento, porque, na substância, não é senão a do Evangelho. É, porém, um Evangelho racionalmente demonstrado, compreendido na sua lógica férrea e profunda, e sobretudo tomado a sério para ser vivido e não somente pregado. E é lógico que o Evangelho se encontra na linha que vai para o S. Esta ética não pode então deixar de repeti-lo. Ele, porém, aqui adquire outro sentido e importância. Ele se universaliza, sai dos limites de uma religião e se torna lei biológica, psicológica social, entrando no terreno positivo da ciência, que não poderá mais como até agora, afastar o problema com o seu agnosticismo.

Assim entendida, a doutrina de Cristo não é somente produto histórico, fruto de uma casta sacerdotal, bastando pertencer a outra religião ou ser ateu para não ter mais valor; ela é fruto vivo da vida em evolução, fenômeno sempre presente e atual. O Evangelho expressa uma lei biológica que terá fatalmente que se realizar no futuro. Trata-se de princípios universais, em que neles, acima de tudo, o homem pode acreditar, pensar e realizar-se. São princípios que permanecem independentes de sua aceitação e que ninguém pode alterar ou destruir.

A ética do mundo é relativa e progressiva e, no seu estado atual, representa apenas um nível de vida ou degrau da escada de subida que do AS vai para o S. Assim se deslocam as nossas concepções comuns da ética. Ela se torna um momento do fenômeno do transformismo universal.

É assim que cada plano de vida tem a sua ética diferente. As feras têm a sua ética que não é a do homem. Este tem a sua ética que não é a do super-homem. Dessa forma, desde os mais baixos níveis que se abismam no AS até aos mais altos que se levantam para o S, a ética, concebida no sentido mais vasto, de ordem e regra que dirige a vida do ser, se vai transformando, assumindo qualidades diferentes conforme a sua posição mais atrasada ou adiantada ao longo do caminho da subida, ou regresso do universo decaído para Deus.

Eis então que vemos a ética tornar-se tanto mais determinística e compulsória quanto mais o ser que ela rege se encontra em baixo, perto do AS; e tanto mais livre e convicta, quanto mais o ser que ela rege se encontra no alto, perto do S. Fenômeno que tem a sua lógica e razão profunda.

Não foi Deus quem tirou a liberdade do ser, quando este involuiu pela revolta, mas foi o próprio impulso do ser que tudo emborcou; por ter iniciado um caminho às avessas, não pôde deixar de tudo emborcar, inclusive a sua liberdade na escravidão do determinismo, que é o seu oposto.

 A vontade do ser rebelde era de destruir a Lei para se lhe substituir, mas ela estava acima de toda tentativa de destruição. Aconteceu então que o ser conseguiu só emborcar a sua posição dentro da Lei e relativamente a sua liberdade. Todavia a Lei ficou de pé, mas para o ser não se conservou a forma livre do S, e sim na forma compulsória do AS. Tanto mais o fenômeno ocorreu, quanto mais o ser se aprofundou no AS. Eis a lógica e a razão desse fenômeno.

Tornou-se assim constrangimento á força o que antes era livre aceitação. O ser pôde transformar a ordem em caos no AS, mas além deste a ordem ficou íntegra para lhe impor o regresso do caos à ordem, deterministicamente, impondo ao rebelde louco a sua salvação.

Não se pode admitir o absurdo de um Deus vencido pela Sua criatura, a parte ser mais poderosa do que o todo, uma revolução que pudesse sobrepor-se a Lei e destruir a obra de Deus. Esse fenômeno se explica também como o fato de que com a queda e involução a linha da livre expansão do ser se foi sempre mais curvando sobre si mesma, o seu dinamismo se foi contraindo numa cinética sempre mais apertada em si mesma, até atingir a forma de movimento fechado nas trajetórias do átomo. Os seus elementos não podem sair delas, escravos completos das leis da matéria.

Esta é a ética da queda, obediência forçada no AS, nos antípodas da obediência livre dos espíritos no S. Os cristais têm de orientar as suas moléculas e moldar as suas formas conforme modelos exatamente pré-estabelecidos. No mundo inferior da matéria não se concebe desobediência. Ninguém pode desobedecer à Lei, isto é, a Deus. A obediência se realiza sempre: no AS como no S, mas no AS às avessas, sem liberdade. Assim o resultado automático da revolta foi para o ser ficar aprisionado no determinismo. No homem, que está subindo ao longo do caminho da evolução, há liberdade, mas limitada e logo que cometer erros, serão sempre corrigidos à força pela dor. Permanece a regra geral: perde-se toda a vantagem, logo que se fizer mau uso dela. Quem quer emborcar, acaba emborcando. A violação da Lei gera dor.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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