Estratificação Progressiva

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Observemos ainda, irmãos, que, na escalada do desenvolvimento, feita de retornos periódicos, o ser promove uma paulatina estratificação de valores evolutivos, em forma de camadas que se sedimentam em torno do núcleo do eu. Camadas que o fazem dilatar-se rumo a uma expansão interior e não exterior, como vimos.

Compreendamos melhor esse extraordinário fato. Comparemos os estratos interiores que se depositam em nosso imo como um edifício de inumeráveis andares. Erigido em puro tecido espiritual, esse arcabouço evolutivo é um admirável constructo da consciência que se projeta dentro de cada um de nós, sob a orientação da Engenharia divina. Sua base é a matéria densa e seu cimo é a imponderabilidade do Absoluto. Notemos, destarte, que essa construção, em decorrência da inversão promovida pela queda, ergue-se em posição oposta às nossas habituais referências. Seus andares inferiores desfraldam-se na superfície de nossa consciência, e os superiores projetam-se na profundidade de nós mesmos, ocultos nas brumas do futuro. Como já dissemos, o mundo das formas é nosso limite exterior, a nossa base. Nosso real crescimento ocorre então em direção ao interior, onde se esconde o Divino e para onde se dá nossa verdadeira expansão. Dessa forma, enxergamos o edifício evolutivo emborcado, em relação aos nossos comuns referenciais.

Na evolução percorremos os andares desse edifício, estagiando por demorados milênios em cada um deles, onde adquirimos habilidades e atributos necessários para se seguir adiante, até ganharmos suas rarefeitas altitudes. Ascendemos passo a passo, subindo de cada vez alguns poucos degraus, no entanto, a evolução cíclica, que já vimos, obriga-nos a descer por eles periodicamente, para tornar a subir, a fim de sedimentar como convém suas lições. Como já consideramos, todo passado precisa ser revivido, até que suas lições estabeleçam-se no espírito em forma de conhecimento intuitivo e automático. Isso porque, no grande edifício da evolução, só se avança por recapitulações. Assim, o ser recorda o que já viveu, revive e resume para firmar ensinamentos e depois continuar sua jornada. É a exigência impreterível do progresso rumo à angelização.

Em cada andar há uma lição importante a ser aprendida, sem a qual não se pode avançar. Fato que exige do caminhante do devenir demorar-se por incontáveis séculos em cada etapa, até que todos os seus ensinamentos convertam-se em conhecimentos instintivos, passíveis de realizar-se sem esforços, e devidamente acondicionados nos painéis de sua consciência eterna.

Analisemos ainda mais de perto o pavilhão do progresso. O ser pode perceber, em cada andar que estagia, mesmo que de forma imprecisa, os dois patamares que lhe são adjacentes: o superior, a ser alcançado no passo seguinte; e o imediatamente inferior, que acabou de ser percorrido. O primeiro representa seu futuro próximo; o segundo, o resumo de todo o seu pretérito. Portanto, o espírito, em sua ascensão pelo edifício da evolução, sobe, tendo a todo instante a percepção de três de seus andares: aquele em que ele está presente, o qual é seu consciente, ativo, onde se operam suas elaborações atuais; o andar de baixo, representando o resumo de todo o seu passado, chamado subconsciente; e o de cima, conhecido por superconsciente, que lhe acena permanentemente com as conquistas de seu futuro próximo e longínquo. Esses são os famosos três andares da casa mental que todos portamos nos painéis psíquicos, entretecidos em puro tecido consciencial.

Notemos ainda melhor, irmãos. A edificação evolutiva não é uma construção retangular, como poderia nos parecer à primeira impressão. Ele tem a forma de um funil que se abre rumo ao infinito, sendo propriamente um vórtice, como vorticoso é nosso universo e espiralada nossa caminhada, como já vimos. Ascendemos por esse funil em volutas de subidas e descidas, rumo ao infinito interior que nos banha a alma, como já consideramos.

Portanto, irmãos, o edifício evolutivo está desenhado segundo a trajetória universal dos movimentos fenomênicos, que já estudamos. No entanto, ele não se desenha na dimensão espaço-tempo como nossa parca razão nos determina, mas, sim, no substrato ainda incompreensível da consciência.

— O vértice emborcado dessa estrutura, como dissemos, toca a matéria densa, e sua abertura superior termina no Absoluto, onde nos aguarda o Divino. Eis o caminho que já está traçado no imo de cada um de nós e que vai da “Terra” ao “Céu”. Em cada alça em que nos demoramos, conseguimos visualizar a voluta imediatamente superior e percebemos as emanações da vizinha curva inferior, representando o super e o subconsciente, respectivamente. Ascendemos, portanto, sob o império de dois domínios de impulsos antagônicos, o superior, que nos convida às realizações do porvir; e o inferior, que nos vindica as vivências do passado. Essa disparidade de estímulos contraditórios excita-nos a uma luta constante contra os hábitos do passado, que evocam nossos velhos prazeres, renitentes em desaparecer; e o futuro, que nos estimula à aquisição de novas habilidades e renovadas alegrias. O pretérito nós já conhecemos, por havê-lo vivido intensamente; já do porvir, desconfiamos e hesitamos em atirar-nos em sua conquista. Gera-se assim o drama do crescimento, próprio de todo ser em evolução. Para subir, a lei evolutiva cobra-nos, portanto, a indispensável renúncia ao passado e a ousadia de atirar-nos ao desconhecido, a fim de conceder-nos os relicários do futuro.

O devenir está feito de virtudes e qualidades a ser alcançadas. Todo ser o experimenta aos poucos, com desconfiança, temeroso de perder as bases do provisório presente no qual se assenta. Uma vez, no entanto, que o espírito assimila em totalidade as novas virtudes do andar superior, fixando-as como habilidades adquiridas, ele termina por ascender a esse patamar, passando a vivenciá-lo como seu ambiente natural. Nesse momento, o que lhe era superconsciente torna-se então seu novo consciente. Assim o futuro se faz presente. O que lhe era antes o consciente transforma-se em bagagem, depositada em forma de instinto no subconsciente. No entanto, um novo superconsciente vai acenar-lhe imediatamente à frente, apresentando-lhe novas habilidades e virtudes a serem conquistadas. Assim o ser caminha através do edifício evolutivo, percorrendo pacientemente seus inumeráveis andares até atingir seu pináculo, a resolução final, onde tem marcado seu reencontro com o Divino.

Essa interessante técnica ascensional assemelha-se aos sedimentos geológicos superpostos pelo tempo na evolução da Terra, e por isso a denominamos estratificação por camadas. Seu resultado último será a paulatina dilatação de nossa consciência até que ela coincida com a Consciência divina, fundindo-nos em seu bojo.

— Algemada ao passado e aspirada pelo futuro, a alma em evolução viverá permanentemente o conflito entre o velho que não quer morrer e o novo que hesita em nascer. Esse entrechoque evolutivo que todos vivenciamos na laboriosa alçada do progresso, a princípio poderá parecer-nos injusto, uma vez que nos submete ao constante esforço de renunciar às conquistas já sedimentadas e o temor de aventurar-nos rumo a futuro incerto. Todavia, para o espírito que caiu, esse é o caminho natural possível, porquanto as lições do pretérito não se devem a uma errônea pedagogia de crescimento imposta pela inteligência divina, mas ao próprio anseio da alma que almejou distanciar-se do Criador e viver intensamente os equívocos do ego inferior. Essas construções do passado são suas, não de Deus, por isso compete-lhe, sim, abdicar-se de seus falsos valores. Logo, elucida-se que a evolução é, em última instância, um processo que colima não só a reconstrução dos bens perdidos, mas igualmente o laborioso desmantelamento dos transatos equívocos pretendidos, frutos nada mais que da revolta primária. E assim compreenderemos melhor todos os aparentes contrassensos facilmente identificáveis nos ínsitos mecanismos da evolução.

Essa é a única forma, irmãos, de aceitarmos a aparente injustiça existente no processo ascensional. Sem o corolário fundamental da queda, não teríamos como explicar, mais uma vez, exatamente por que o progresso exige tamanha diligência e esforço na aquisição de atributos superiores e empenho ainda maior no desfazimento do pretérito. Seria um imenso paradoxo do ponto de vista da didática divina. Logo, aclara-se-nos que as virtudes elevadas que o espírito negou necessitam agora ser pacientemente refeitas na linha do tempo, em laboriosos tentames, para que voltem a integrar-lhe o patrimônio individual. Já o passado, eivado de males e erros livremente desejados, requer pertinaz renúncia para ser definitivamente desfeito.

A evolução faz-se, portanto, laborioso trabalho de reaquisição de habilidades, mediante esforço próprio, merecidamente exigido para um ser que negou o primado do amor e a ordem que a complacência divina ofertou-lhe ao nascer. É faina individual e exaustiva que requer do espírito o emprego de todas as suas forças, não só para ascender, mas para desapegar-se de seus transatos equívocos. Todavia, por graça do Senhor, faz-se um labor orientado pela Sua sabedoria, cuidado pela Sua providência e amparado pela Sua misericórdia.

Observemos ainda que, embora individual, a lide evolutiva não pode ser levada a efeito isoladamente pelo espírito. Quis o Senhor que caminhássemos em agrupamentos afins, unidos por ideais comuns, de forma a amparar-nos uns aos outros. Por isso, ninguém ascende aos Céus desacompanhado. Devemos marchar juntos.

Os mais hábeis vão à frente e assumem o comando da vilegiatura, mas todos precisam zelar pelos que se demoram na retaguarda. Aquele que quiser chegar primeiro será o último, pois somente impulsionado pelo verdadeiro amor é que se vai realmente adiante na evolução.

— No superconsciente encontraremos então o fim de nossa jornada. Ele está vivo e palpitante em nosso imo e convoca-nos a todo o momento a conquistar seus atributos superiores. É nosso guia permanente incansável que nos orienta a cada passo na longa excursão redentora que empreendemos. O segredo da mais rápida ascese pelos degraus do edifício evolutivo consiste então em saber ouvir e obedecer à voz oculta desse eu superior, o qual nos acena com as realizações do porvir, sem dar ouvidos aos destoantes ecos do passado.

Ressaltemos, a fim de que o tema se nos torne claro, que a superconsciência está adaptada a cada estágio em que o ser se demora. Do contrário ela se faria um ideal sempre inatingível. Nossa bagagem de possibilidades superiores acena-nos com as aquisições suscetíveis de ser angariadas no passo imediato ao estágio em que nos encontramos, e jamais nos oferta valores e virtudes que estão absolutamente fora de nosso alcance. Desse modo, o superconsciente do mineral é o vegetal, estágio superior que o convida à vivência da organicidade. Para o vegetal é o mundo animal, onde o ser experimentará a liberdade de movimento e a aquisição dos instintos. Do animal, será o reino hominal, estágio que lhe permitirá viver a inteligência e experienciar os ricos ensaios da razão. Já na consciência superior do homem mora a santidade, que o evoca à evangelização de suas condutas, preparando-o para a decisiva angelização. E a angelitude aspira pela divinização absoluta, quando o ser, enfim, termina por reintegrar-se ao Pai.

Assim, por extensão, o subconsciente do vegetal é o reino elementar; do animal, é o metabolismo vegetal; do homem, é a instintividade animal. E quando o espírito conquistar a santidade, a inteligência que na atualidade o serve ser-lhe-á um reflexo automático. Exercitando-se na prática da bondade, chegará o dia em que o amor, o  maior de todos os atributos, ocupará seu subconsciente, fazendo-se instintivo em seus hábitos. Então ele terá alcançado o reino angelical e habitará o Paraíso.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s