A Luta

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Integrando o cortejo das dores evolutivas encontraremos ainda a luta e a seleção natural, igualmente primordiais excitantes extrínsecos do progresso. Como vimos, a expansão ególatra estabelece entre os seres primitivos, interessados unicamente na satisfação das próprias necessidades, marcante regime de competições e disputas que fazem da vida primeva uma arena de permanentes embates de morte.

Os postulados da queda dão-nos agora a certeza de que o interesse egoico que move as almas primitivas nada mais é que a realização da primeira e inadequada aspiração dos filhos da revolta, amotinados contra o primado do amor. Essa imprópria expansão não pôde ser empreendida no Reino divino. O Criador, no entanto, permitiu que fosse satisfeita no provisório mundo das formas, onde o indeclinável regime de destruição desencadeado pelo atrito de egoísmos antagônicos não pode perturbar a perfeita ordem que impera no Absoluto.

Essa livre liberação do ego inferior encontra limite na insuficiência dos veículos de manifestação do espírito falido e no atrito que o crescimento do outro impõe à dilatação de cada ego em particular. Se a Lei de Deus não tivesse providenciado para o ser rebelde tais necessárias barreiras, cada ser caído expandir-se-ia ao infinito, fazendo gravitar ao seu redor o próprio universo, repetindo exatamente a intenção primária que o fez retirar-se do plano divino.

A marca de conquistador rebelde, sempre pronto a derrogar a lei e a ordem, sinalizará então a condição de espírito falido, como seu caráter dominante, fazendo dos proscênios relativistas triste campo de batalhas. Eis o motivo pelo qual a escola da vida, inclemente em seus primórdios, desconhece a complacência e ignora o que seja a bondade. Naturalmente que, como já afirmamos, encontramo-nos em um ambiente em tudo distanciado dos alicerces estabelecidos pelas Leis de Deus, cujo fundamento principal é o legítimo amor entre todos os filhos da Criação.

Conquistar territórios, angariar parceiros e o direito de procriar, sobreviver, ainda que às expensas da morte alheia, faz-se o regime natural da vida inferior. O homem atual olha com horror para esse hediondo e selvagem passado que ainda palpita estuante em sua memória. No entanto, permanece reconhecendo-o como um processo natural e chega, em sua ignorância, a considerá-lo genuíno mecanismo estabelecido pela inteligência do Criador como norma de desenvolvimento para todos os Seus filhos. Um absurdo conceitual do ponto de vista de uma Teologia superior que se recusa a imputar a Deus o mal que grassa no universo em que vivemos.

Ora, não podemos deixar de reconhecer que na vivência do egoísmo animal encontram-se os germes do ódio e da crueldade próprios do homem involuído. Sobreviver a expensas da morte do outro é a semente da barbárie que autoriza o guerreiro a tirar a vida do seu próximo, colimando nada mais que vantagens próprias e imediatas. O hábito do assalto e do roubo, próprio da experiência animal, faz-se a legitimação da pilhagem nas sociedades humanas primitivas. A cupidez por distinção é a fonte da inestancável ânsia humana por brilho pessoal. Portanto, nos indevidos sentimentos alimentados pelo espírito nos baixos regimes da animalidade encontraremos o móbil da cobiça e o manancial do egoísmo, viveiros de todos os males que ainda sobrevivem nas injunções sociais de nossos dias. Imputemo-los às impróprias escolhas dos filhos da revolta e não a uma estranha didática que nosso Pai teria estabelecido unicamente para fazer-nos crescer e aconchegar-nos a Seu amor.

Como já afirmamos, destarte, não é somente a necessidade de sobrevivência que atiça todos os filhos da queda à luta, mas igualmente a expressão do simples anseio por hegemonia que caracteriza o espírito falido.

O desejo de impor-se e fazer-se mais importante e distinto entre todos acompanha o espírito que caiu ao longo de seu desenvolvimento, desde seus primeiros passos no Relativo e não propriamente no reino humano inferior, como somos levados a pressupor. Por isso, competem os espíritos em evolução pelo alimento, pelo território de atuação, por fêmeas e pelo direito de reprodução, mas também pela posição de destaque e comando dos demais, fazendo da agressão o móvel de todas as suas conquistas. Assim, inevitavelmente a liça de competições de valores faz parte da vida no universo desmoronado, onde todos almejam impor-se a todos, em atenção nada mais que ao desmedido crescimento do próprio ego.

Lembremo-nos, irmãos, a grande aventura da evolução é um prélio de egolatrias que não conhecem mais o que seja o amor e aspiram, cada qual, a fazer-se o centro da vida. Natural, assim, que a existência nos mundos inferiores tenha se estabelecido como uma liça impiedosa e cruenta, nas quais o mais forte adquire direitos de sobrepor-se e mesmo devorar o mais fraco. Desenha-se assim a pirâmide alimentar, com base na lei do mais poderoso. Essa é a dura ética da vida nos mundos inferiores, onde, com tintas de sangue e dor, os espíritos em evolução estampam ao derredor dos passos as mais tristes paisagens, a reproduzir em seus limites o próprio inferno do ser.

Garras e músculos, mandíbulas e dentes, armas, artimanhas e táticas de ataque e defesa são elaborados pelos seres vivos, em admiráveis e exóticas construções, preparando-se todos para a grande batalha da vida, onde verdadeiros gladiadores estão sempre prontos a assaltar e a devorar o próximo. Apenas à prole respeita-se o direito à vida, pois até o semelhante, considerado um concorrente, será rechaçado ou mesmo eliminado sem piedade. Sua presença será admitida somente naqueles casos em que o ser, por força de circunstâncias, aprende que viver em bando torna-se fator vantajoso à sobrevivência individual.

Abalados ante tão horrendo espetáculo, perguntamo-nos, irmãos, se foi o Todo-Poderoso quem criou essas despropositadas bestas e as dotou de tão terríveis armas de assalto, capazes de estraçalharem os corpos de seus irmãos com tamanha eficácia. Na Terra, considera-se que tais poderosas máquinas naturais de guerra, dotadas de tão admiráveis arsenais de combate, assim como outras que ainda existem, foram produzidas unicamente pelo acaso da evolução. Nós, entretanto, que conhecemos a sábia e decisiva interferência da Inteligência divina, em ação no mundo físico, não acreditamos no acaso. Justo então que o espírito de fé se espante ante tais gigantescos espetáculos de carnificina, julgando-os nada mais que expressão da sabedoria divina. Não obstante, agora estamos certos, esse desbaratado enfrentamento dos seres não é fruto da pedagogia divina, que é somente amor, mas dos próprios espíritos bestializados pelo motim de origem.

Compreendamos que atuam na arena da vida duas preponderantes forças: a interferência divina e a atuação de inteligências também poderosas, os filhos da revolta, que negaram o primado do amor. A primeira produz ordem, cria defesas para a vida, qualquer que seja ela, gera colaboração e simbiose. A segunda, todavia, fabrica armas de ataque, trabalha em regime de intensa competição, gera táticas de guerra e promove a destruição e a morte. À medida que o progresso ascende, a primeira paulatinamente passa a dominar a segunda, modificando-lhe os propósitos, alterando assim os panoramas da vida, que se transformam de verdadeiros infernos de ódios em genuínos paraísos de concórdia. Exatamente por isso a evolução promove não só a progressiva supremacia da ordem sobre a desordem, mas também o crescente predomínio da bondade sobre toda crueldade, da felicidade sobre a dor, da paz sobre a guerra, da vida sobre a morte. E assim, irmãos, vemos que a evolução é o caminho para o amor e a via de realização do Reino de Deus no universo desmoronado. Portanto, a evolução vai nitidamente do Inferno para o Céu.

Em seus baixos níveis, ignorando os preceitos divinos, a vida segue impiedosa e viperina expondo todos os seus delicados seres à constante ação da luta e da destruição. A sabedoria da Lei, destarte, cuida para que, através de pacientes reconstruções, regenerações e renascimentos sem conta, todos atinjam os altos fins da existência.

Então se elucida melhor para nossos intelectos amadurecidos exatamente por que a vida biológica estabeleceu-se como um severo regime de competições, em todas as suas instâncias. Impulsionado por esses errôneos e arquetípicos anelos, os seres inferiores lutam e sofrem, a fim de sobrepor-se aos irmãos de jornada, fazendo do instinto de superação o propulsor da própria vida.

O anelo pela expansão ególatra, como já afirmamos, caracteriza o espírito que caiu, e não os filhos originais de Deus. Na equivocada busca pela felicidade, e agora contraído pela queda, ele almeja nada mais que a dilatação do próprio ego, impondo a seu próximo a contenção e a morte. E assim, o amor que deveria imperar sobre todos os seus interesses, torna-se conquista tardia, sedimentada na substância de seu ser à custa de ingentes sofrimentos e onerosas renúncias. A expansão que realmente importa à Lei e aos propósitos divinos e que deveremos adotar na grande oficina da vida é a dilatação altruísta, a que já nos referimos. Somente esta nos fará verdadeiramente grandes, permitindo-nos o crescimento no rumo adequado da evolução e a consequente liberação das incomensuráveis potências espirituais que portamos, contidos nos recessos da alma.

A expansão ególatra usa como ferramenta capital para atingir seus impróprios intentos a força bruta, impondo-se um crescimento desmedido a partir da contenção e sujeição do outro. A ética do mais forte faz-se o regime de vida dominante nesse nível, autorizando a brutalidade e a agressão como normas naturais de conduta, estabelecendo-se o reino da barbárie nos mundos primitivos. E assim a existência no plano das formas não se caracteriza, em absoluto, como uma escola de anjos, como chegamos a pensar em uma época, mas verdadeiro reformatório imposto a almas que optaram por viver intensamente o egoísmo como alicerce de suas felicidades.

É inútil relutar contra essa conclusão. A vida primitiva em recanto algum deste nosso universo edifica-se como berços aconchegantes, acalentados pelo amor divino, como esperávamos que fosse. Inevitavelmente o mal, que jamais advém de Deus, está estabelecido nas raízes da existência física, desde seus primórdios. Fato que gerará mais tarde para o espírito em evolução a necessidade da onerosa renúncia a esses propulsores animais, que ainda subsistem nos hábitos humanos, como condição essencial para que ele conquiste os patamares superiores da vida. Desse modo compreendemos que a técnica evolutiva, obediente à didática divina, trabalha exatamente para agastar esses inadequados impulsores que o espírito impôs a si próprio, por escolha, desde sua insurreição de origem.

A despeito da barbárie, a vida, sempre generosa sob os auspícios divinos, propicia condições para que todos os primitivos seres perdurem em suas paragens e desenvolvam-se como convém. Se existe a morte, a Lei permite a reciclagem do renascimento, reconduzindo todos amorosamente ao palco da existência, de modo a propiciar-lhes incontáveis oportunidades para que cresçam e progridam. E a cada nova incursão na carne, a sabedoria do Pai auxilia a despertar em cada um novas habilidades para que todos sejam vitoriosos na luta pela sobrevivência. Portanto, se as intenções ególatras levam os predadores ao desenvolvimento de surpreendentes armas de ataque, a complacência divina favorece igualmente às presas a arte da fuga, possibilitando-lhes a defesa.

E assim segue a vida, pródiga de valores e de formas, de arsenais de combate e mecanismos de proteção, carreando todos os seus seres para o reencontro com o Criador. Ela sabe para onde e como conduzir cada um de seus filhos, dotando-os do preciso conhecimento necessário ao desenvolvimento individual, ainda que do mais ínfimo de seus rebentos. Não os surpreende, irmãos, como o menor dos insetos, em meio à vastidão da natureza, sabe tão bem suprir todas as suas carências e tem assegurada a orientação de sua frágil vida?

Um objetivo maior, ínsito nas leis biológicas, guia todos a um inexorável fim: a vivência plena do amor.

Essa é a certeza maior que nos consola, conferindo-nos a convicção de que a Criação é produto não só de uma sabedoria superior, mas do mesmo modo, resultado de uma inigualável bondade. Essa verdade garante-nos que o mal e a severa competição existentes nos pleitos inferiores da vida estão fadados à completa extinção no futuro, não sendo nada mais que provisórios hábitos pertinentes a seres rebeldes, distanciados dos fundamentos da Lei divina. Somente o amor vencerá e subsistirá como ética primordial da existência, idealizada por Deus para todos os filhos do Seu amor, no glorioso futuro que a todos aguarda.

O regime de permanentes confrontos estabelecido nos reinos primevos e suas dores evolutivas impõem ainda outra importante ferramenta evolutiva, a impulsionar os seres na longa esteira do progresso: a seleção natural.

Motivada pela intensa disputa ante a exiguidade dos meios de sobrevivência nos planos inferiores, e pela competição por destaque pessoal, nas sociedades um pouco mais avançadas, a seleção natural nasce na verdade do espontâneo embate entre seres que elegeram o egocentrismo por inato e impróprio regime de conduta, sentimento típico de todos os seres caídos. A expansão ególatra torna-se, assim, o agente estimulante da seleção natural, que comparece como inadequada porém necessária ferramenta evolutiva para almas que não obedecem outra determinação senão à da vantagem imediata e o temor do próprio prejuízo na vida de relações. Não digamos, portanto, que a natureza, em obediência à sabedoria divina, desconhece a compaixão e impõe a todos os seus filhos os hediondos entrechoques da seleção natural, pronta a eliminar os mais fracos e inaptos para a vida. Como repetidas vezes já o afirmamos, trata-se de uma infeliz escolha permitida pelo Criador a seres criados sob o signo da autonomia e que agora é aproveitada pela Lei evolutiva para fazê-los progredir no rumo que convém.

É inegável, portanto, como os estudiosos da evolução já identificaram na Terra, a presença de uma técnica seletiva em permanente ação na mecânica do progresso. Aqui a denominamos princípio de seleção ou lei seletiva. Segundo esse fundamento, os filhos da queda não caminham em idênticos ritmos ascensionais e periodicamente precisam então passar pela peneira dessa lei seletiva, que deixa seguir adiante apenas aqueles que conquistaram, por esforço próprio, os atributos determinados pela Inteligência divina como indispensáveis a cada uma das etapas do desejável avanço. Assim, no estágio biológico inferior, vão à frente os mais fortes, autorizados pela selvagem ética da força, a sobrepujar e mesmo a devorar os mais fracos. Logo que se passa ao reino da razão, os mais inteligentes são os eleitos pela ética da astúcia que impera no reino humano primitivo. E logo mais, a seleção natural estará preparada para eleger somente aqueles que aprenderem verdadeiramente a praticar a ética da bondade, para continuar a escalada rumo às esferas superiores.

Jesus falou-nos da lei seletiva ao considerar que na seara da evolução muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos. E, como naturalmente sabem, discorreu ainda o Mestre, no Sermão profético, sobre a derradeira seleção natural que decidirá a entrada no Reino do Absoluto, simbolizada na separação do joio do trigo, ou dos cabritos das ovelhas. Conforme o relato evangélico, aqueles que angariarem os valores do verdadeiro amor ganharão a Ressurreição eterna, enquanto os demais que permanecerem recalcitrantes no mal tornarão ao buril da matéria, onde há “choro e ranger de dentes”, favorecendo-lhes com novas oportunidades que lhes permitam a Redenção definitiva.

Ainda que a misericórdia da Lei conceda ensejos iguais para todos, através do princípio seletivo o ser vivo é exposto, nos primórdios da evolução, ao franco regime de competições, em todas as instâncias de sua existência. Como um egoísmo basilar move a todos, natural que mereçam viver e expor-se às dores e atritos que esse permanente jogo de disputas, quase sempre de vida e morte, acarreta para a felicidade do ser. E compreendemos então que o Criador aproveita o indevido instinto de rivalidade adotado pelo espírito que caiu como um sábio processo de eleição dos mais capazes, para acelerar o necessário avanço de todos.

Fundamentado nesse raciocínio, saberemos que a lei de seleção, ao permitir a eliminação dos menos aptos do palco da vida, na verdade nunca os retira de fato do páreo evolutivo. Através do renascimento na carne, infindas oportunidades lhes são facultadas para que adquiram, afinal, os valores exigidos pelo progresso, a fim de seguirem adiante rumo à almejada perfeição.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s