A Aspiração pelos Bens Divinos

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Conquistando a fase animal superior, as veredas do progresso, fomentadas no espírito, mostrar-se-ão cada vez mais claras aos seus olhos semidespertos. Dotados de apêndices orgânicos sensíveis, conquistados pelos próprios esforços sob os auspícios divinos, os seres viventes experimentarão uma velocidade evolucional até então não conhecida em suas anteriores etapas. Pleno de possibilidades, rico de criações e provas, esse novo período despertar-lhes-á rapidamente a consciência, adormecida em seus recessos, trazendo-lhes à superfície a sensibilidade, as emoções, a inteligência e, mais tarde, no reino humano, a sabedoria, a bondade e o amor, a fim de que se engrandeçam e retornem ao aprisco celeste.

No silêncio sagrado da alma, a evolução ecoará como um inestancável ímpeto por plenitude e pela presença do Divino. A alma quer evolver para reencontrar seu Pai. Depois de seu longo sono na matéria bruta, ela, agora parcialmente desperta, sente as portentosas aspirações que então a movem. Estremecida, ela deseja sorver novamente o hálito divino do qual se recorda e do qual está feita. Ávida pela Luz celeste que um dia anteviu, ela almeja reconquistá-la. Ela quer proferir novamente o Santo nome de seu Pai, admirar-Lhe a face e angariar-Lhe o amplexo de amor. Ela sabe que esteve um dia na presença da glória sem fim e agora desejará reavê-la. Em suas recônditas aspirações, ela anseia nada mais que pelos bens divinos perdidos, mesmo que não os identifique com precisão em sua consciência ainda obnubilada. Subir, elevar-se às alturas do Infinito e refazer suas potências de origem ser-lhe-á então insaciável anelo.

Não temos dúvidas, irmãos, a paixão pelo Infinito é o inexaurível motor da evolução, a mover a alma pelos seus intrincáveis e por vezes penosos caminhos. Não fosse a existência desse anseio básico, a colorir-lhe todos os interesses, o espírito não avançaria no ritmo que lhe é próprio. Abrasado por esse infrene ardor, ele não mais conhecerá o sossego até que se conforme novamente na unção divina.

Despertando para a vida senciente, a alma sentirá ainda com maior intensidade essa perda da Plenitude que um dia deteve. Por isso adotará agora como um de seus apetites fundamentais o desejo de reconquista dos bens divinos perdidos. Não fosse isso, irmãos, o espírito não se ocuparia com tanto afã por escalar a laboriosa trilha da evolução, ávido por readquirir os tesouros de que no imo, como Filho do Divino, sabe ser detentor.

O desejo da alma pelos bens malbaratados faz-se então o próximo móvel da evolução, o combustível que lhe moverá ao longo da estrada dos milênios. Singrando pelos extensos mares do tempo, ela partirá em busca de seu Paraíso perdido. A aspiração pelos atributos divinos, genuína herança paterna do espírito falido, constituir-se-á então no mais vigoroso propulsor de seu progresso. Inundando-o de insuprível insaciabilidade, esse fabuloso impulsor alimentar-lhe-á com a inestancável ânsia pela perfeição, pelo poder, pela beleza, pela paz, pela glória, enfim, por todos os atributos sagrados que ele sabe haver um dia possuído e que perdera na contração da queda.

E não descansará mais enquanto não reavê-los integralmente. Eis por que somos feitos de desejos insolúveis. Eis por que, na estrada da vida, não conhecemos jamais a saciedade e buscamos sempre por mais e mais, em todas as expressões do ser e do existir, exatamente porque almejamos refazer em nós a magnificência que perdemos.

A aspiração pelos bens divinos perdidos aumentará à medida que a consciência obnubilada do espírito desperta, fazendo-o mover-se mais rapidamente na esteira do devenir. Aspiração que se somará aos outros instintos fundamentais que já delineamos e agora compõem sua bagagem evolutiva. Ele compreende, nos recessos de seu ser, que não foi criado para restringir-se às limitações da carne, mas para existir livre nas lhanuras celestiais. Sufocado, preso à carceragem física, ele almejará agora, sobretudo, respirar a brandura da atmosfera divina, livre da dor, da morte, da luta e do oneroso labor evolutivo.

É assim que veremos o homem mais tarde agitar-se no inestancável azáfama por bens que, uma vez alcançados, encher-lhe-ão de tédio, fazendo-o precipitar-se rumo a novas aquisições. Por isso, sempre insatisfeito, ele troca permanentemente de possessões, e até de amores, na esperança de acalmar sua inesgotável paixão pelo Infinito. É que o homem não conhece ainda o verdadeiro móvel de seus anseios, irmãos, e equivocadamente procura preencher o vazio de sua alma com os valores provisórios da carne. Triste alma, ela irá colher sempre decepções, pois os patrimônios que busca para satisfazer os anelos do coração estão entretecidos em formas, são provisórios e instáveis e jamais a saciarão. A incansável onda da vida logo cuida de tragar nas inquietas voragens da morte todas as suas ilusórias conquistas, até que aprenda que sua sede e fome de grandeza serão completamente aplacadas apenas na presença do Divino, na Glória excelsa.

Não chegamos, todos que aqui nos reunimos, paupérrimos dos tesouros eternos? Não obstante, hoje estamos convencidos de que os reais valores que devemos buscar são precisamente os imponderáveis, aqueles que integram o relicário do espírito, pertinentes unicamente ao Reino de Deus. Cristo já havia nos alertado para que não acumulássemos bens terrenos, instáveis e perecíveis, os quais somente nos confeririam decepções. E cuidou de indicar-nos o roteiro seguro para orientar nossa inquieta busca, recomendando-nos empregar todo o esforço na aquisição das divícias do coração, aquelas verdadeiramente imperecedouras, representadas pelos valores imponderáveis e eternos do espírito.

Hoje estamos certos, irmãos, de que somos seres sufocados pelas estreitas amarras físicas que ora nos prendem, ainda que libertos da carne. Como desencarnados, sabemos muito bem que não nascemos para a contenção da matéria, que sentimos como verdadeira prisão para nossas consciências. Nossas almas anseiam pela liberdade que somente o Ilimitado pode proporcionar-nos. Ainda que desvestidos do corpo denso, as cadeias das formas ainda nos prendem, constrangendo-nos a consciência nas estreitas barreiras do tempo e do espaço.

Sufocam-nos as sombras exteriores, nada mais que a projeção das próprias trevas que ainda nos encobrem a essência imaculada herdada do Divino. E a certeza de que estamos muito distantes de nosso verdadeiro Lar impõe-nos uma dor que o homem terreno é ainda incapaz de sentir ou sequer imaginar.

Por graça e misericórdia do Senhor, o espírito que se demora no abafamento da carne, estacionado na superficialidade da consciência, não pode até então perceber com clareza essas profundas dores que a todos nos caracterizam como seres falidos. Assim, a grande maioria dos encarnados trafega pela vida com relativo conforto da alma, sem dar-se conta da verdadeira inópia que nos veste interiormente. Desse modo, aqueles que não experimentaram essas angústias chegam mesmo a negá-las. Incapazes de mergulhar no inconsciente profundo de si mesmos, não estão preparados para viver as intensas emoções que desfiguram nossas paisagens interiores e que falam de nosso declínio espiritual. Justamente por isso, custa-lhes acreditar que vivemos provisória e inadequada vida em um exótico universo de formas, que não corresponde à realidade divina. Todavia, essa fugaz quietude da alma, anestesiada pela carne e suas necessidades imediatas, não durará para sempre. Em breve, chegará para todo espírito em evolução, e para o próprio bem, o dia em que se inteirará da lamentável condição em que vive. Dando-se conta da incomensurável distância que o aparta do plano das essências puras, chorará, lamentando amargamente o triste exílio em que se encontra por escolha própria, e a insustentável inércia em que se demora.

 

 

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