O Legislador

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O legislador é um ser superior que aparece excepcionalmente e que, depois, desaparece. Ao seu impulso heroico sucede então o trabalho da ordinária administração, confiado aos tipos comuns que, com maior ou menor diligência, procurarão executar as normas regulamentares. Desaparecido o iniciador, permanecem os discípulos, seguidores e ministros que dirigem em seu nome, os executores que manejam a lei, submergidos no próprio plano até a garganta.

A competição geral tende a nivelar todos à altura evolutiva da lei de seu plano biológico, que não é o do iniciador. Assim o seu trabalho é submetido a um processo de degradação, que porém, é condição da assimilação alheia, processo que exige, em certo momento, que desça outro iniciador para reconstruir um edifício novo no lugar do outro, envelhecido e ameaçando ruína, e assim seguindo, quando também este se tiver tornado velho e ameaçar ruir.

Neste processo, os administradores cumprem a função de avizinhar o ideal ao homem, humanizando um alimento que de outra forma não seria digerido, trazendo a lei de um plano mais elevado para um plano mais baixo. Cumprem eles, também, a função de defender e conservar. Mas toda medalha tem o seu reverso. Isto quer dizer, também cristalizar, significa adaptar e transformar os princípios conforme os próprios instintos e as necessidades do próprio plano biológico.

Os ministros são homens da mesma natureza dos outros, algumas vezes impelidos pelo mesmo desejo de evasão. Isto tende á fazer prevalecer no fim do desejo dominante de toda a massa dos dirigentes e dirigidos, desejo instintivo e inconsciente, de se porem de acordo nas acomodações que, aliviando o peso dos ideais, constituem o supracitado processo de degradação, que, depois, torna necessária a intervenção direta de outro iniciador para injetar nas veias da humanidade nova dose de ideais, fornecendo, assim, ao mundo, um novo impulso de superação ao longo do caminho da evolução.

Há duas maneiras de responder ao apelo do ideal: o de aceitá-lo, submetendo-se aos respectivos sacrifícios que ele impõe, ou o de aguçar as defesas da animalidade para evadir-se das suas limitações e sobreviver.

No primeiro caso o ser usa suas energias num investimento a longo prazo e, no seu cálculo utilitário, de ampla previsão, põe-se a cumprir o esforço fatigante evolver, sacrificando, para esse fim, a sua animalidade. No segundo caso, o ser usa suas energias para reduzir a virulência do assalto dos ideais contra a sua vida feita de animalidade, para defender-se das limitações que a disciplina impõe.

Este segundo fim pode ser alcançado por duas vias: ou com a força ou com a astúcia. Poucos são os que dispõem da força, por tratar-se de possuir a inteligência suficiente para construir-se uma moral própria que tenha o valor e o poder de pôr-se contra a corrente geral, desafiando-a e vencendo-a. É preciso, pois, ter também a coragem de cumprir esse desafio e a força para alcançar esta vitória contra todos. É por isso, mais fácil recorrer aos meios oblíquos da mentira, meios de menos fatigante atuação por estarem lubrificados na superfície e que, por isto, não produzem aquela reação imediata e inevitável como quando se transmite um choque.

Eis-nos no terreno das acomodações. Este é o método mais difundido de evasão, por ser aquele que está situado na linha do mínimo esforço, que e mesmo uma das leis da vida, a qual escolhe a via da menor resistência.

Olhemos corajosamente de frente os problemas. É melhor sermos duros e sinceros do que doces e não verdadeiros. Em teoria, na mente de quem os concebe, os ideais estão repletos de nobres e santas intenções, tudo para o bem dos homens. Mas é preciso ver o que acontece depois, quando estes ideais descem na terra, onde domina bem outra psicologia. Na terra, a luta, que impera sobre todos, impõe desde logo um dissídio entre o legislador e a natureza humana que não aceita a rédea. No dissídio o mais forte vence. Mas, dado que o legislador é um forte de exceção, e a maioria é fraca, esta não o enfrenta constituindo-se uma outra moral, de que não possui a coragem, porque seria a da animalidade, mas procura enganar o legislador dando-se ao trabalho da evasão por vias oblíquas.

Esta é uma das ocupações das massas que não possuem a força nem a coragem de rebelar-se para conseguir libertar-se da disciplina.

Esta é a maneira de interpretar os ideais que descem na terra, quando estes são vistos com o olhar bem diverso da animalidade. Isto pode chegar ao ponto de excitar uma espécie de ciúme contra os mais astutos, que melhor conseguiram evadir e que disto gozam as vantagens, ciúme que os menos astutos, que permaneceram atrás, renunciadores forçados, procuram expandir contra quem pratique qualquer mínima contravenção à lei, pondo em evidência qualquer seu defeito, para amarrar todos àquela disciplina que pesa tanto que, por isto, trará satisfação quando todos a suportem.

Quantas vezes a justiça humana de caráter público não é posta em movimento somente por finalidades particulares, sem o que não se movimentaria? Santifica-se assim, o instinto da agressividade, tão natural no plano do involuído, onde reina o regime de luta. Esta é o instinto que não explica as guerras santas, a santa inquisição, e outros casos em que se procura santificar o que nada mais é senão a comum luta pela vida. Fazer a própria luta, que todos deveriam fazer a descoberto, fazê-la protegida pelos ideais, pela justiça, em nome de Deus, representa uma defesa e um apoio.

Por que a vida, no plano animal, onde não existe senão um rudimento de moral, haveria de renunciar a uma própria vantagem?

A vida é utilitária, e utiliza-se de tudo para alcançar o seu primeiro objetivo, que é viver. Por isto, quando a incomodam, rebela-se contra os ideais, desafoga-se contra os evasores que escapam aos seus pesos, irrita-se contra os zelosos que quereriam impor-lhe, com o seu exemplo, o esforço da imitação, permanece indiferente para com os virtuosos que tomam sobre si o peso sem incomodá-la na sua animalidade e, quando se encontra com um ser superior, o toma por bandeira do seu próprio grupo, o exalta nos altares e monumentos, porque, também com isto, a vida pode tirar a sua utilidade.

Uma ética biológica completa deveria ter em conta todos esses jogos de ilusões psicológicas. A difícil escada dos ideais pode ser galgada solidamente, tão só se tivermos conta da estrutura e dos justos direitos da vida. Somente assim poder-se-á abolir, neste terreno mais eleito, a triste necessidade da luta e da mentira.

O mundo tem necessidade de uma moral mais ampla e iluminada, mais lógica e sincera, que, por ser demonstrada racionalmente, possui o direito de ser tomada totalmente a sério. É necessário respeitar os direitos da vida em todo seu plano, porque o imperativo de evolver, nunca poderá violá-los, sem, com isto, dificultar o próprio conseguimento daquilo que é o seu fim principal: subir.

É preciso compreender a significação de todas as forças que agem na vida, para chegar a uma moral sem ilusões, aderente à realidade, honestamente utilitária e por isso não redutível à mentira. É necessário alcançar uma moral biológica, racional, científica, que não possa ser invertida, que tenha base não em sanções penais, mas na compreensão e convicção, que não asfixie, mas que, em vez de obrigá-la a rebelar-se, encoraje a vida a subir.

É necessária uma moral que seja de todos e não somente para os vencedores e a sua vantagem, uma moral que não renegue a vida para os vencidos, deixando-a somente aos que tiverem a força de rebelar-se. Uma moral boa, que ajude, oriente, explique e guie com inteligência e não por meio de condenações, uma moral amiga que não constitua uma forma de luta, mas faça-as superar todas e para sempre. Esta será a moral do porvir.

 

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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