Nasce a Morte Orgânica

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Construindo para si um novo veículo de manifestação extremamente maleável, movido por rápido e dinâmico metabolismo, a alma passou a vivenciar, não obstante, um novo fenômeno até então não experimentado: a morte súbita.

Habituada, no abismo dos evos, à aparente estabilidade da matéria e sua lentíssima degradação na linha do tempo, ela agora sofrerá o choque da desencarnação abrupta, assistindo no próprio campo de manifestação tanto a rápida formação quanto a repentina destruição de seu volátil organismo físico.

Desde então o espírito incorporou em si o fluxo de mortes e renascimentos como novo e inevitável ciclo de expressão na esteira da evolução. A partir daí, ele passou a desencarnar e a reencarnar, uma vez que antes se demorava estagnado em seus túmulos de pedras. A reciclagem da evolução inicia então seu frenético decurso palingênico, propiciando um mais ativo desenvolvimento da alma em evolução.

A vida parece agora brincar com a morte, expondo seus delicados seres à peremptória destruição de seus organismos, duramente conquistados nas plagas físicas e construídos com tamanho esmero.

Fato inexplicável diante da sabedoria divina se não soubéssemos que a força da vida consiste justamente em sua capacidade de se refazer agilmente através do fenômeno reencarnatório.

A frágil resistência dos organismos vivos à morte é prova cabal de que o completo desfazimento de seu traje carnal lhe é fato temporário e reversível, jamais permanente.

A morte então passa a ser condição de nova existência, tornando-se um fator essencial da evolução, pois sem a periódica destruição de suas provisórias roupagens de carne, o espírito jamais reedificaria sua perfeição original. Eis então que o principal atributo do universo desmoronado, a morte e seus males, nas amorosas e sábias mãos do Divino, tornou-se veículo de transformação, útil agora à progressão do espírito que caiu.

Embora, para os seres conscientes, isso signifique dor e angústia, perda e frustração, o desfazimento corpóreo irá dinamizar o desenvolvimento do ser. Assim, a morte fez-se uma importante ferramenta da evolução, a contragosto do indivíduo que gostaria de estabelecer-se eterno na matéria. Sendo ele filho da Eternidade, natural que jamais se conforme e sofra cada vez que a inevitável morte o obriga a retirar-se do palco físico.

Facilmente compreendemos agora que o espírito não nasceu para a morte, portanto jamais estará de acordo com ela, uma vez que seu dom natural, por graça de seu Pai, é a vida. No entanto, perdemo-la com a queda, passando a incorporar em nossa natureza falida a periódica e completa degradação de nossos veículos de manifestação, a cada decurso de existência na carne.

Desde então não conhecemos mais a estabilidade plena da verdadeira existência. Passamos a deter, como seres oscilantes entre a vida e a morte, nada mais que fragmentos da Eternidade. O Cristo, todavia veio devolver-nos a perenidade que perdemos com a queda. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”, asseverou o Mestre.

Entendemos também, agora, exatamente por que não podemos conhecer a estabilidade plena no mundo das formas em que respiramos, uma vez que não fomos criados para viver em tal provisório ambiente. Somente no reino das essências puras ser-nos-á possível conhecer a real Existência.

Sequer na dimensão espiritual em que ora nos expressamos somos eternos. O natural desgaste de nosso perispírito, como todos já se deram conta, impor-nos-á inevitável derrocada semelhante à que experimentamos na ribalta carnal, e outra vez morreremos, para ressurgir no plano denso, na reciclagem de mortes e renascimentos a que, pela queda, estamos todos sujeitos.

Portanto, nas plagas do Relativismo, a alma não conhece a Eternidade e está fadada a morrer para renascer e progredir sempre, como muito bem determinou Allan Kardec. Somente com Jesus fartar-nos-emos com a Vida eterna, o que ainda nos é uma aquisição distante na ascese evolutiva.

Todavia, para que essa verdade se nos fixe nos painéis psíquicos, ressaltemos que a morte não é um mecanismo natural, originário da pedagogia divina apenas para nos fazer crescer. Significando sempre imensa dor tanto para aquele que a atravessa, como para aquele que a assiste, a morte fez-se sofrimento próprio de todo espírito que sofreu a contração dimensional da queda. Com ela cumpre-se a promessa divina aferida na alegoria mosaica, alertando-nos de que no dia em que provássemos da árvore do conhecimento do bem e do mal morreríamos.

Estamos certos, portanto, de que no Reino da perfeição a morte não existe. Jesus garantia-nos essa verdade, exarando-nos que a “seiva da Vida eterna” será novamente concedida a todo espírito que se libertar das algemas da egolatria, pela prática do amor verdadeiro.

Por isso, com o progresso, a morte também evolui, abrandando-se com o tempo, deixando sua face traumática, eivada de padecimentos, temores e mistérios, para se transformar em mera e suave transferência de plano. Tarefa que hoje a doutrina espírita cumpre com maestria na Terra, para consolo do viageiro da carne. Mas a morte continuará assolando a alma em evolução até o dia que supere por completo os estigmas de sua queda, fazendo estacionar seu dinamismo vital na plenitude máxima da verdadeira Eternidade.

Uma vez que o espírito se vestiu de matéria orgânica e passou a experimentar o fenômeno desencarnatório, uma nova dimensão, até então inexpressiva, surgiu no palco do Relativismo: o mundo espiritual. Desencarnando em grande profusão, os seres desprovidos momentaneamente de corpos físicos começaram a ocupar as regiões dinâmicas vizinhas da crosta planetária, recolhendo suas consciências parcialmente expandidas num diferenciado campo de energias, ainda provisório, que chamamos limbo ou intermúndio.

Nesse breve interregno entre duas existências carnais, eles permaneciam em estado inativo, adormecidos em formações císticas perispirituais, aguardando novo retorno ao plano denso. Ainda vazio de atividades plenamente conscientes, esse primitivo campo espiritual, o limbo, evoluirá, na longa caminhada dos evos, para tornar-se o rico mundo dos espíritos.

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