Inversão de Valores

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Continuemos a observar as qualidades e as atitudes que caracterizam os dois biótipos opostos, o do evolvido e do involuído. O que distingue o primeiro é a sua afirmação unitária, como eu coletivo. O que individualiza o segundo é a sua afirmação separatista; como eu isolado. O evolvido não se interessa pelo próprio eu individual, concebido como isolado do próximo, com este sentindo-se parte no organismo coletivo da humanidade.

Não nutre qualquer ciúme da supremacia alheia, constituindo esta, para ele, a supremacia própria. Contrariamente, um dos efeitos que mais caracteriza o involuído é, exatamente, esta ciumeira de qualquer outro a emergir em seu lugar. Isto porque ele faz do próprio eu o centro do universo, que ele pretende exista em função daquele seu eu.

O instinto do involuído é o de reproduzir o egocentrismo, que é fundamental no sistema, mas em posição emborcada, isto é, não no centro mas na periferia onde ele está situado. O egoísmo manifesta-se, de fato, no involuído a cada passo, em todo seu ato. O Sistema do universo é unitário, enfeixado em torno de um único centro, e o involuído pretende erigir-se em centro autônomo no Anti-Sistema. De fato, o seu valor máximo, é o triunfo pessoal do seu eu, separado de todos os outros, admitidos a coexistir somente em posição de submetidos.

Contrariamente o valor máximo do evolvido é o triunfo coletivo da maior humanidade da qual ele faz parte, e na qual está fundido com todos os outros; coexistentes com ele em posição de colaboradores.

As posições dos dois biótipos constituem a inversão uma da outra. Para o involuído, o que constitui o ideal é o seu triunfo individual, elevado sobre não importa quais ruínas do próximo, a consecução do ápice dos valores sociais, a base da estima, ou, com outras palavras, o sucesso. Em face do vencedor, todos inclinam-se, e a vitória justifica tudo.

Condena-se o ladrão porque representa um perigo, mas quando este, pelos seus furtos, cometidos com bastante astúcia de modo a escapar da lei, tornou-se rico e poderoso, então todos o respeitam.

Condena-se o assassino, por representar uma ameaça, mas, quando, um condutor de exércitos guia-nos para a vitória matando milhões de pessoas pela grandeza de nossa pátria, então ele é um herói. Todos detestam á guerra, mas todos admiram o vencedor.

Agir como o evolvido, em sentido coletivo colaboracionista, procurando não só o triunfo próprio ou do grupo, mas o de todos, significa para o involuído abdicação e autodemolição em favor dos rivais que somente procuram sobrepujá-lo.

O evolvido oferece tudo para o bem alheio, por ser este também o seu próprio bem. O involuído procura agarrar o mais que pode para o bem próprio, uma vez que o bem dos outros serve somente para reforçar os seus inimigos e o perigo que estes representam para ele.

O que acontece, então, quando os dois tipos encontram-se?

Enquanto o evolvido procura dar, o involuído procura tomar. Tudo, então, tende para o empobrecimento e, com isto para a liquidação do evolvido.

Como sobreviverá o evolvido, com que novas armas a vida defenderá este seu produto precioso, cuja criação custou tanto trabalho como salvará o evangélico desarmado? Ele está feito para viver num ambiente de reciprocidade, em que tudo é compensado. Onde falta esta reciprocidade, quem for generoso trabalha em plena perda. Terá, então, de ser liquidado? Mas isto significaria a falência da vida num dos seus pontos de maior valor e significaria também que o Evangelho é mentiroso por aconselhar coisas impraticáveis, que conduzem a destruição.

A Lei da Justiça de Deus não defenderá nesse caso o inerme?

O que acontece quando os dois sistemas opostos encontram-se?

Quando os ideais do evolvido caem na mão do involuído, este os usa para os seus fins. Trata-se de um contínuo trabalho de adaptação a si mesmo de tudo o  que se encontra na vida. Tudo é utilizado conforme a própria psicologia, necessidade e temperamento. Tal como os pássaros servem-se das árvores para seus ninhos, outros animais, para neles subir, esconder-se e defender-se, assim o homem: é levado a procurar nas regras da ética geral aquela norma que aprove, justifique e valorize o seu eu e, então, enaltece esta parte, pondo-a em foco e silenciando sobre todas as outras que, em lugar de sustentá-lo, o poriam em falta.

Desse modo o temperamento dinâmico dirá: Trabalhai.

O preguiçoso procurara esconder a sua preguiça atrás da sua honestidade, se frígido, tornar-se-á propugnador da pureza, mas, se for um sentimental sustentará as virtudes do amor, seja mesmo espiritualmente sublimado, enquanto se do tipo oposto, sustentará a virtude da disciplina e do dever. Isto não ocorre de outra forma para o involuído, se a sua natureza o leva, antes de mais nada, a exaltação do próprio eu.

Paralelamente procurar-se-á silenciar tudo o que pode marcar a própria condenação. Assim, por exemplo, quem possuir, guardar-se-á bem de lembrar as páginas do Evangelho acerca da pobreza, e quem for ávido de riquezas nunca falará do Evangelho da renúncia. A posição do involuído é sempre a mesma: a de situar o próprio eu como centro do universo e de tudo conceber, até Deus, em função de si mesmo.

Assim, cada qual procura interpretar e dobrar todo ato e pensamento alheio a própria maneira e utilidade. Enquanto a lei de Deus quer transformar o involuído a seu modo, este procura transformá-la de modo próprio. Na Terra tudo pode ser alterado e invertido, para fazer-se uso completamente diverso do preestabelecido.

Que coisa mais digna de admiração do que estar carregado de virtudes. Como, pois, impedir que quem for sedento de admiração, para satisfazer o seu orgulho, procure mostrar possuí-las todas, fazendo-se acreditar santo?

Pode então acontecer que, seres desejosos de emergir, escolham este caminho por achá-lo fácil (no entanto bem perigoso) e arrisquem-se desse modo a tomar posições insustentáveis, de renúncia e martírio das quais não avaliaram o peso demasiado grave para o tipo que não nasceu evolvido. Embrenham-se, assim, por sendas desconhecidas, cuja significação substancial não está na superfície dos fatos que em geral os biógrafos dos santos anotam, fatos cuja imitação formal não constitui, por nada, a santidade. Gera-se assim uma imitação grotesca, feita somente de práticas exteriores, constituindo apenas uma aparência, enquanto a substância, que é de natureza completamente espiritual, está além destas representações externas.

Há quem possa crer que a santidade de S. Francisco constituiu-se no dormir no chão e vestir-se de saco e há quem creia que seja possível alcançar a santidade imitando-o nisto. Mas a sua santidade consistia, não nessas nossas últimas consequências, mas em sua causa primeira, ou seja, no incêndio espiritual que ardia naquela grande alma e que se não alcança com imitações formalísticas.

Dá-se, então, que quando os normais, desprovidos dessas qualidades de exceção, pretendem, por outras razões, encaminhar-se por aquelas sendas, não possuindo a força para dominar as reações da vida (tanto mais fortes contra tão radicais negações da animalidade), acontece então que se vêm a encontrar na necessidade de retroceder frente as dificuldades cujo alcance, com leviandade, não haviam medido.

Então, para os imitadores incautos, surge a necessidade de retroceder, e com isto, a queda das virtudes e o respectivo escândalo. Nesse manifesta-se o instinto de agressão do próximo que, ciumento da veneração que aqueles imitadores haviam conquistado, sente-se feliz de demoli-la encontrando-os em falta e isto, naturalmente, por santo zelo, em nome da virtude. E é feliz com essa demolição tanto mais quanto fica desiludido no seu desejo de ver naqueles santos imitadores, sufocados pelas virtudes, já expulsos da luta em benefício do próprio espaço vital.

Muitos atos humanos não são tão simples como podem parecer a primeira vista e, muitas vezes, resultam de um entrelaçamento de operações psicológicas com as quais se consegue o fenômeno da inversão.

Indicamos estas manobras, não para acusar, mas para prevenir aqueles que caem nelas acreditando-se astutos, mostrando-lhes que o jogo não é tão fácil como pode parecer. Se continuamos a navegar nessa charco das mentiras é para ensinar a sair delas. Se desnudamos o mal não é para nos deleitarmos na critica, mas para mostrar no fim os caminhos do bem, é para educar, demonstrando ser de maior vantagem seguir estes do que aqueles.

Podemos encontrar uma forma de inversão dos ideais num tipo de caridade em moda na sociedade moderna: a beneficência. Em vez de dar de si mesmo, diretamente, em obras e sentimento, irmanando-se para ajudar, organizadores, repletos de santo altruísmo, com a ajuda da propaganda, dão-se a nobre indústria do recolhimento de fundos. Alcançam-se assim diversas utilidades, que constituem a causa da divulgação destes sistemas:

1) Descarrega-se o nobre esforço da virtude de caridade sobre os ombros alheios, antes que sobre os próprios.

2) Formando muito barulho para o bem do próximo, mostra-se a própria virtude, satisfazendo o orgulho.

3) Com a santa pregação dos ideais e o sacrifício obtido dos outros, declarando doar, consegue-se, em vez, receber, o que, no terreno prático deste mundo, é sempre considerada a coisa mais importante.

Dada a predominância deste tipo em nosso mundo, tipo eminentemente egocêntrico, qual a significação se pode dar à tamanha difusão da tão desinteressada porfia para beneficiar o próximo, senão a de tirar alguma utilidade para quem a praticar? E que outra coisa se haveria de pretender desse tipo de condenado a viver num ambiente de luta feroz de todos contra todos? Se esta é a forma que a vida toma no seu plano como pretender que ele, renuncie a esta que para ele é toda a vida? Impedir às feras de serem ferozes importa em tirar-lhes o único meio de sobrevivência. O único meio possível é civilizá-las, para conduzi-las a um plano biológico mais elevado.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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