A curva causa-efeito

queda-e-salva_ao-80_

No microcosmo de nosso mundo parece que a linha do desenvolvimento causa-efeito seja uma reta como são as linhas de nosso pequeno espaço terrestre. E o encadear-se dos trechos causa-efeito aparece como uma junção de retas, uma após a outra. Todavia, saindo desse pequeno espaço terrestre encontramos no universo astronômico outro tipo de espaço, o espaço-curvo, logo a sucessão causa-efeito, vista no seu conjunto ou totalidade do seu ciclo completo, se torna uma curva fechando-se sobre si mesma.

Disto se conclui que o efeito não é mais um consequente que, ao longo duma reta, se afasta do seu ponto de partida; mas é um momento na continuação duma curva que tem de voltar àquele ponto, à causa de tudo que a gerou. Entre os dois termos: causa e efeito não são mais os dois extremos duma reta, mas são o mesmo ponto onde se inicia e se fecha o mesmo ciclo.

No todo não podem existir afastamentos verdadeiros e definitivos, nem o ser pode gerar deslocamentos nas imutáveis posições da ordem universal. Podem existir oscilações parciais e compensadas, aparentes e particulares, como as das ondas do mar ou das vibrações da matéria, movimentos que nada deslocam e tudo acabam reintegrando no estado de origem, como Deus o quis. Eis a razão pela qual a involução tem de ser corrigida pela evolução, e à linha do afastamento da Lei ou linha do erro, tem de seguir a linha de regresso ou linha da dor.

A obra de Deus é inviolável e nada em definitivo o ser pode nela mudar. E, se este pela sua liberdade, pode realizar alguma mudança, então tudo tem de voltar ao seu ponto de partida e ser restaurado na integridade do seu estado de origem.

Vamos assim observando sempre mais em profundidade o significado das linhas de negatividade e de positividade. Vemos que a contraposição entre estes dois termos opostos, na substância não é cisão, mas um conjunto dualista, que constitui a forma e o conteúdo da unidade.

Eis então que o dualismo não divide, como se poderia acreditar, mas une; não afasta, mas liga e funde no mesmo ciclo os dois termos opostos que o constituem e que em última análise, não são senão as suas duas metades.

O dualismo não é cisão, mas complementariedade entre dois movimentos contrários compensados, que se invertem um no outro, o segundo neutralizando o primeiro. Isto porque o movimento que vai do + para o – gera uma carência no campo do +, um débito que a negatividade tem de pagar à positividade, ou seja um crédito que a positividade exige da negatividade. Se o ser encontra satisfação na culpa que o afasta da Lei, ele nada ganha com isso, porque se trata de um empréstimo que o ser tem  de devolver aos equilíbrios da Lei com o seu esforço e sofrimentos.

A linha do erro NN1 expressa o primeiro destes dois movimentos ( + para – ); a linha da dor N1N expressa o segundo movimento ( – para + ). Com o -, a dor, fica pago o seu débito ao +, satisfazendo o crédito do +.

Uma consequência desta oposição de contrários é que o homem da força que triunfa no mundo, é vencedor somente enquanto o ponto de referência é o AS, mas ele é derrotado em relação ao S, que representa o organismo maior e mais poderoso. Trata-se então de uma vitória em pura perda, como dizíamos, de um débito a pagar, de um empréstimo a devolver, mais exatamente de um roubo aos equilíbrios da Lei, roubo que perante a justiça de Deus é culpa que exige a sua penitência. O S está representado na Terra pelo homem do altruísmo e do sacrifício. O AS está representado pelo homem do egoísmo e da prepotência.

Que S e AS não são teorias fora da realidade está provado pela presença destes seus dois exemplos vivos e concretos. O julgamento que o homem comum em geral faz desses dois tipos é lógico: às avessas, porque ele é filho emborcado da revolta e, por isso, o seu ponto de referência é o anticentro, negativo, do AS. O choque entre esses dois tipos é contínuo na Terra, como o da luz e trevas, da verdade e erro etc.

O terreno da vida e da evolução é de luta entre a criatura e o Criador e ao contrário. Há inconciliável antagonismo, como diz o Evangelho, entre os dois opostos: Deus e o mundo. Por isso Cristo falou que não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores. A tarefa da evolução é a de destruir o tipo separatista do homem da violência, substituindo-lhe pelo tipo colaboracionista do homem do amor. Este é o conteúdo do percurso da linha YX da evolução, como da linha N1N.

Explica-se, assim, a psicologia dos santos e dos mártires do ideal, que ao  mundo parece loucura. Eles vivem no caminho da dor, que é o trecho de regresso para a positividade, N1N, indo para a Lei, seu ponto de referência e objetivo. Para quem vive neste caminho, orientado nesta direção, a morte é vida.

O homem comum não pode entender essa psicologia, porque está percorrendo o caminho oposto, o de ida para negatividade, NN1, que o afasta da Lei. Aqui o ponto de referência é o próprio “eu”. Eis então que o sacrifício é perda, e a morte é morte. É lógico que esses valores sejam em função do seu próprio ponto de referência. E se esses pontos são opostos, é lógico que as mesmas coisas adquiram um valor oposto. É assim que a morte pode significar vida e a vida, morte. É assim que, quando o ser se encontra na posição direta de positividade, cujo ponto de referência é Deus, o “eu” universal, vive em obediência e em função do S, e a vida, então, tem valor de vida, e a morte, de morte.

Mas quando pelo contrário o ser se encontra na posição emborcada de negatividade, cujo ponto de referência é o “eu” individual, em função do AS, a vida assim concebida tem de adquirir o valor de morte, e a morte valor de vida. Para quem vai do + para o -, é lógico que tudo seja às avessas de quem vai do – para o +.

Eis um exemplo que nos mostra como a mente humana, ainda emborcada no AS, é levada a conceber tudo às avessas: as religiões concebem a ressurreição de Cristo como um milagre (prova de sobrevivência), encarando-a como prova da morte. Ela é prova de vida para a psicologia do involuído do AS, porque para ele a vida está no corpo; mas ela é morte para a forma mental do evoluído, porque para ele a vida está no espírito.

O fato de que o homem concebe a ressurreição de Cristo como prova de vida física, demonstra que ele concebe como positivo o que é negativo, julgando ser vida o que é morte. Somente pode fazer isto o ser que está situado na negatividade do AS. Para o ser situado no polo oposto ( + ): o corpo ( – ) representa apenas a forma, a casca que aprisiona o espírito, não vida mas morte, o abismar-se da positividade na negatividade.

O mito da ressurreição de Cristo, satisfazendo o instinto do homem, deifica este produto da negatividade, a matéria, levando-o para fora da Terra, o único ambiente onde ele pode ter uma razão de existir, razão que não há nos céus. Que a maior paixão de Cristo consista em ter descido até à matéria, isto é inconcebível. Mas que Ele tivesse de levar consigo aos céus as ferramentas da sua maior tortura, é difícil compreender. Tanto mais isto é verdade, que essa sobrevivência nos céus, dum corpo feito só para a Terra, e em nada proporcionado ao seu ambiente, implicava o fato de o espírito de Cristo continuar morando aprisionado nele, a não ser que o colocasse do lado como uma relíquia sem vida, outro cadáver para enterrar. Então essa ressurreição não seria a continuação da vida de Cristo, mas a do seu aprisionamento na negatividade da matéria, o que para o espírito é morte, Impor a Cristo essa condenação para sempre, mesmo depois de Ele com a morte ter atingido a libertação, é crueldade demais. E sem essa libertação pela destruição do corpo físico, como podia com o invólucro de animalidade humana voltar ao Pai?

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

Faça seu comentário e participe de nosso grupo de estudos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s