Revolta: Contrair dívidas

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Se a ética universal da Lei representa a linha central ou tronco das normas que dirigem o ser na realização da sua evolução, na prática esse tronco vai sempre mais se ramificando, quanto mais nos aproximamos do caso particular. Vemos então que o ser não se movimenta livremente, como é comum se acreditar, mas enclausurado o numa rede de princípios menores.

O homem conta antes de tudo com a sua força e astúcia, acreditando ser livre de realizar à vontade tudo o que deseja. E não imagina que vive enredado dentro de uma gaiola de regras, onde cada um dos seus movimentos não pode se realizar senão em função de tantas outras forças em ação, levando em conta a presença de normas que agem como paredes invisíveis, mas férreas, para canalizar livremente cada atividade segundo sua vontade, para finalidades preestabelecidas.

Com a revolta o ser admitiu ser possível emborcar o S, tornando-se ele o chefe, substituindo a ordem da Lei pela desordem representada por outra lei sua. Mas de fato não conseguiu senão emborcar-se a si mesmo dentro do S, que ficou íntegro, de pé, de modo que, apesar da tentativa de revolução, as fundamentais leis de equilíbrio do S ficaram vigorando e dominando tudo, incluindo o AS. Elas representam regras intransponíveis que o ser tem de levar em conta e com as quais ele não pode deixar de chocar-se e ter de aceitar a devida reação, todas as vezes que ele não as respeitar.

A consequência de tudo isto é que o homem acredita ser poderoso porque sabe vencer com a força ou astúcia, de fato não faz outra coisa senão contrair dívidas perante os equilíbrios da Lei, para depois ter de pagar, reconstituindo-os à sua custa.

Isto não quer dizer que, embora enclausurado dentro desta rede de regras, o ser não seja livre. Ele o é, mas somente dentro do espaço que a Lei lhe deixa disponível, para que lhe seja possível aí cumprir a oscilação entre o caminho certo e o errado, quanto basta para realizar o trabalho de experimentação que lhe é necessário para aprender e evoluir.

Vigora o determinismo absoluto e o indivíduo não tem poder algum. A sua vontade de revolta pode trazer alterações somente nele, não na obra de Deus, que está acima de qualquer revolta e tentativa de emborcamento.

O ser rebelde, com toda a sua revolta e consequências, está contido dentro da ordem do S, nem pode de maneira alguma sobrepujar os limites pré-estabelecidos pela Lei. A revolta foi uma revolução de peixes dentro dum rio, do qual eles não podem de maneira alguma sair. A sua liberdade não chega até lá. E, aconteça o que acontecer dentro do rio, fora dos seus limites permanece inatingível e inalterada a ordem de Deus.

A Lei da luta pela vida e da seleção do mais forte, vigorante em nosso mundo, é apenas uma lei transitória para aprender uma dada lição. Deste modo, além desta pequena liberdade, que chamamos de livre arbítrio e que nos parece absoluta há uma lei de ordem da qual ninguém pode sair. Quanto mais nós queremos ser fortes para nos rebelar, tanto mais ela nos constrangerá a regressar à sua ordem.

A Lei não reage ativamente. A sua resistência é passiva como a da rocha, que só quer ficar onda está. E ninguém consegue deslocá-la. Quando os peixes rebeldes procurarem sair do rio para espalhar a sua revolta, eles não são repelidos por ninguém, mas tão somente pelo choque automático que recebem de volta, lançando-se contra as paredes, contra as quais vão bater com a cabeça. É o que chamamos a reação da Lei.

A lição que o homem tem de aprender é esta: há paredes ou limites dentro dos quais cada movimento do universo, também no caos da revolta, está canalizado, de modo que ninguém pode sair da ordem, e se o tentar baterá com a cabeça contra as paredes duras da Lei e ficará preso nas dolorosas consequências do seu erro, até que indo esteja retificado na posição correta. Este é problema fundamental da vida.

Num mundo em que se acredita na liberdade indisciplinada, e que nela tudo seja lícito, bastando seja sustentado pela força, é necessário mostrar quantos sofrimentos custa ao homem o erro tremendo de violar os princípios da Lei.

Este é o nosso trabalho que é, também, o de estudar a medida do esforço necessário para reconstituir os equilíbrios destruídos, e reintegrar na ordem a desordem gerada pela liberdade indisciplinada. Como se vê estamos nos antípodas da concepção normal do mundo, que obedece mais aos instintos do primitivo, que a um verdadeiro conhecimento e demonstração racional do fenômeno da exata conduta humana.

A liberdade que o ser possui é como a de um avião livre no ar. Mas nessa sua liberdade o avião está fechado dentro de uma armação de forças que dominam todos os seus movimentos, dentro de um emaranhado de leis que exigem obediência completa, sem o que ao primeiro erro, o avião cai e tudo fracassa. Em todas as atividades humanas vemos surgir a necessidade duma disciplina, tanto maior quanto elas se tornam mais vastas e importantes, isto é, necessidade de retificar a desordem na ordem, o caos no estado orgânico, os métodos do AS nos do S. corrigindo a revolta com os princípios da Lei.

No terreno da ética e das normas de sua conduta, o comportamento do homem atual é parecido ao de quem, pelo fato de possuir um automóvel mais poderoso, e ele ser mais hábil, isto é, pelo direito só da força e da astúcia, se acreditar autorizado a correr à vontade, sem regra, na pista cheia de outros carros, desrespeitoso de toda a disciplina do trânsito. Cada um pensa horrorizado nas consequências desse método de dirigir. Dizem que a perda de vidas nos acidentes rodoviários é maior do que nas guerras. Este porém é o método que prevalece na conduta humana. No terreno do trânsito o homem chegou a compreender a necessidade de uma disciplina, e que o levou até lá foram os sofrimentos duma consequência da sua ignorância.

Quanto teremos ainda de sofrer as consequências dos nossos erros, antes de compreendermos que, para não ter de continuar sempre pagando, é indispensável uma igual disciplina também no campo da ética que dirige a nossa conduta?

Tudo com o progresso passa do estado de desordem ao de ordem. Assim a Lei vai sempre mais se revelando e manifestando em nosso mundo, transformando-o cada vez mais no estado orgânico que é o do S.

A realidade é o seguinte: acima de tudo a ordem soberana de Deus que tudo regula e à qual nada pode escapar. Contida dentro dessa ordem, e fechada dentro das suas paredes invisíveis, está a desordem da revolta, que quer estabelecer como principio dominante o caos do AS.

A desordem é um episódio dentro da ordem, uma sua variante excepcional e transitória, que nunca conseguirá fixar-se em forma definitiva, porque não pode existir senão como vir-a-ser ou transformismo dirigido para a ordem da lei que é o seu ponto de chegada.

Nada impede que a desordem constitua uma vontade contrária no seio da ordem e possa, no estado representado pelo nosso universo atual, nascer um choque entre as duas vontades opostas. Eis então como o nosso mundo se tornou um terreno de luta entre dois impulsos opostos, o da vontade da criatura e o da vontade do criador.

Dualismo não significa apenas cisão em duas partes, mas oposição das duas partes, uma contra a outra porque com a revolta a vontade do ser não quis coordenar-se no seio do S em obediência à Lei, mas quis erguer-se qual principio autônomo independente.

É lógico que, sendo Deus o mais forte, apesar da cega tentativa de revolta para substituir-se a Ele, quem por fim terá de dobrar-se vencido, em obediência, não será Deus perante a criatura, como esta acreditou ser possível, mas a criatura que é a mais fraca perante Deus que é o mais poderoso. A diferença de valor intrínseco entre as duas primeiras fontes de origem dos dois impulsos não pode deixar de acompanhá-los até à conclusão do seu caminho.

A revolta não tirou nada à supremacia e poder de Deus. Ele, permanecendo dono absoluto de tudo, apenas a permitiu a revolta foi possível, porque Deus quis deixar o ser livre de realizá-la. Do outro lado o ser na rebeldia viu uma prova da sua força, quando foi prova somente da sua fraqueza, porque no choque entre as duas vontades, quem vencerá será Deus com a Sua Lei e não a criatura que quis violá-la.

No fim não será esta que conseguirá construir um AS, mas será o S que reabsorverá o AS e toda a revolta. Tudo isto porém não pode obstar ao fato de que a revolta se realizou e continua existindo, podendo-se repetir em casos menores.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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