No dualismo a luta é inevitável

queda-e-salva_ao-80_

O ser possui uma amplitude de liberdade que lhe permite afastar-se da linha da Lei, isto é, das normas da conduta certa. Eis a maravilha que veremos: qualquer coisa que o ser faça, a Lei fica inviolável, e ele, mais cedo ou mais tarde, tem de voltar para a sua ordem.

O estudo de nossa figura nos mostrará como se desenvolve a luta entre essas duas vontades e como a cada impulso o movimento do ser no sentido do afastamento da linha da Lei, corresponde um proporcionado impulso e movimento corretor no sentido da aproximação e volta a ela.

A consequência necessária é esta: como não foi possível ao ser chegar à construção definitiva do AS, assim também não lhe é possível afastar-se definitivamente da linha da Lei, isto é, do caminho que o leva à sua própria salvação. O resultado final é que o rebelde não vai conseguir aniquilar-se com a sua loucura. Esta é a vitória de Deus: o bem da criatura reintegrada na perfeição e felicidade do S.

No dualismo a luta é inevitável. Ela é universal e se encontra em todos momentos e lugares, porque a estrutura de nosso universo se baseia na oposição e contraste entre positividade e negatividade; por ter nascido da revolta, e se fundamenta sobre o princípio de contradição. É por isso que a ética tomou a forma dualística de erro e sua correção. Até às suas últimas consequências, tudo é o resultado da primeira revolta, da qual se conservam os caracteres fundamentais. Eis por que a luta de todos contra todos é o motivo dominante de nossa vida.

Sem a revolta, dada a exigência lógica, absoluta, que Deus seja unidade, o fato inegável dessa contraposição dualista, não se poderia explicar. Entre as duas partes não há outra ponte que possa ter estabelecido uma passagem, a não ser um desvio que tenha realizado o emborcamento.

O ser quis separar-se?

Eis a separação desejada: o dualismo e a luta. A presença desta, prova a revolta, sem a qual não se explica como esse método e estado de luta poderia ter nascido. Nem se compreenderia como um Deus unitário tivesse escolhido essa técnica separatista, de oposição de contrários, quando o principio Dele é o da unidade.

Só assim se explica e justifica o fato de que existe uma Lei, que é regra de vida, e ao lado dela o impulso da desobediência. Não é esta a história de cada ato nosso e da nossa vida? Temos sempre, de um lado o legislador e a ética que se querela impor à forca, e do outro o instinto humano da revolta. Prevalece então sempre mais o princípio divisionista e a luta se torna mais feroz.

A primeira e maior luta foi entre a criatura rebelde e Deus. No estudo da ética veremos voltar esse motivo da luta a cada passo, entre a Lei que representa a ética e o ser que, na sua conduta, não quer seguir-lhe as normas. Vemos desaparecer sempre o mesmo contraste entre a vontade do ser e a de Deus. Eles são os centros dos dois impulsos e os dois elementos básicos do problema da ética que enfrentaremos. Mas não se trata de um contraste inútil, destrutivo, mas construtivo, porque se vai resolvendo sempre mais até desembocar na salvação. Seja o que for que o ser realiza, ele tem de voltar à ordem da Lei. O AS rebelde se contrapõe à positividade do S na posição menor de negatividade. O impulso da positividade é maior e por isso tem de vencer, levando tudo à salvação final.

Esta é a maravilha do processo da queda: a semente da salvação foi depositada nela, salvação automática e fatal.

O nosso universo é caos e luta, para transformar a desordem em ordem, a guerra em paz, as rivalidades em concórdia. Compreende-se e se justifica a guerra — um acontecimento inconciliável com a bondade de Deus e com as regras da moral que o homem prega. O que ele prega representa o impulso salvador do S; o que ele faz deriva do impulso destruidor do AS. Explica-se assim a ferocidade da vitória do mais forte sobre o mais fraco, que não se coaduna com a justiça de Deus.

No entanto, por intermédio das rivalidades, se realiza o progresso, que faz vencer o mais adiantado e que sempre mais vai destruindo a ignorância, o mal e a dor. Desse triste palude desabrocha a esplêndida flor da redenção e da salvação. O impulso para o emborcamento acaba emborcando-o, ou seja: ele mesmo, automaticamente, tudo retifica. Tantos extermínios de vidas nas guerras existem para se chegar à paz tantas inimizades, para chegar a compreensão, tão grande mar de sofrimentos tem de ser atravessado para se chegar à felicidade. Eis o significado da presença da dor e da luta numa criação que foi obra da bondade de Deus.

A luta está destinada a resolver-se. A monstruosidade emborcada, o AS, saiu do S como um aborto. O câncer não tem direito à vida. A negatividade nada pode gerar, porque termina na sua própria destruição. O AS é uma doença contida no organismo sadio do S. Mas o S é Deus, isto é, um organismo tão forte que não há doença que possa vencê-lo. Então não é a doença que destrói o doente, mas é o doente que destrói a doença.

O antagonismo existe em posição de inferioridade para quem se rebelou à ordem. Não pode vencer uma batalha quem se coloca e a faz em posição emborcada. Não pode avançar quem quer ir para trás. Nada se pode construir com os métodos destruidores da negatividade. Como pode a revolta alcançar sucesso, se ela consiste em colocar-se em posição de inferioridade? Quem toma esse caminho sempre trabalha em perda, e desde o início, pelo seu próprio método, está condenado à derrota. Esta derrota é a dor. Eis por que, para não ficar derrotado no sofrimento o rebelde tem que voltar dele mesmo à obediência.

No S tudo é positivo. A negatividade foi um produto da revolta, com esta nasceu para terminar no seu próprio auto-aniquilamento. A unidade fundamental originária reabsorverá toda a cisão do dualismo.

Com a revolta, até que se tenha tudo saneado, o ser que antes existia apenas numa posição, teve de viver oscilando entre os dois polos opostos, o da positividade e o da negatividade. E ele terá de viver assim oscilando, até que tenha com o seu esforço e sofrimento reabsorvido e neutralizado essa oscilação, reconduzindo a separação do dualismo à unidade.

Como é possível encontrar a felicidade na negatividade?

É como querer encontrar a plenitude da vida na morte.

Como podia a revolta com essa lógica estranha realizar o absurdo?

O homem repete esse erro todas as vezes que se afasta da linha da Lei, isto é, das normas de conduta da ética. É o impulso inicial da rebeldia que novamente o leva a lutar contra Deus.

Como é possível construir destruindo, avançar retrocedendo, adquirir as qualidades do S, descendo para o AS?

É lógico que, se a função da revolta é a de tudo emborcar, a sua lógica constitua um absurdo, nesse caso representado pelo fato de se querer procurar a felicidade onde não é possível encontrar senão dor. O princípio é sempre o mesmo. O processo de recuperação é só um. Não se pode sair do inferno do AS, senão subindo até ao S; não é possível libertar-se do sofrimento senão reintegrando a desordem na ordem, voltando em obediência ao seio da Lei.

O absurdo da revolta é o de se acreditar que seja possível chegar à positividade ou felicidade, seguindo o caminho da negatividade, que é o da desobediência. A lógica do movimento oposto, da salvação, consiste em saber que somente se chega à positividade ou felicidade, percorrendo o caminho da retificação da negatividade em positividade.

Continuaremos sempre encontrando frente a frente, de um lado o absurdo do ser rebelde, e do outro a lógica da Lei, esta corrigindo e ensinando para salvá-lo. É a lógica da obediência que retifica o absurdo da revolta.

Eis o significado das palavras que Cristo deixou para repetir em Sua oração do Pai nosso: “seja feita a Tua vontade”. Ora, fazer a vontade do Pai quer dizer obedecer à Lei, e obedecer à Lei significa o caminho da salvação.

Eis o problema que aqui estudamos: o da nossa salvação.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

Faça seu comentário e participe de nosso grupo de estudos

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s