Nasce a Vida

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Sob a lenta ação do tempo, esses compostos simples formaram imensas e evanescentes cortinas de proteínas fundamentais, flutuantes nos mares, as quais, ao pesar, depositaram-se vagarosamente nos leitos oceânicos. Extensos tapetes proteicos, verdadeiras papas de substâncias orgânicas, logo cobriam largas porções do fundo dos mares, aquecidos pelo amálgama ainda efervescente da Terra.

Estabeleceu-se aí, nas escuras profundezas marítimas, o ambiente propício para que o raio globular construísse seu primeiro corpo efetivamente estável, o primeiro artefato vivo: uma célula, feita de uma membrana que conservou em seu interior a água roubada do mar, rica de substâncias aminadas. Nascia o protoplasma, o especial meio necessário à composição da vida.

Nesse fecundo barro marinho, prístino berço da biogênese terrena, cerca de três bilhões e meio de anos atrás, os raios vitais, “caídos do céu”, iniciam suas intensas atividades microbianas. A Terra era ainda jovem e mal acabara de esfriar-se parcialmente, propiciando a formação das primeiras rochas sedimentares. O espírito, no entanto, tinha pressa em manifestar-se no mundo denso, a fim de fazer despertar em si a consciência, adormecida no infecundo abismo da matéria.

Sustentados pelas energias vulcânicas que aqueciam as placas tectônicas dos mares, as mônadas celestes transformaram esse barro proteico em extensas camadas de lodo, onde a vida primeva floresceu em abundância, ávida por expandir-se e dominar o orbe. Não tardaram a gerar as primeiras bactérias filamentosas, chamadas comumente extremófilos, organismos simples em formas de tiras espiraladas, que viviam nessas trevas oceânicas, servindo-se dos copiosos gases, ricos em hidrogênio, sulfuretos e nitratos, que escapavam do manto ainda quentíssimo da Terra.

Viveram por incansáveis milênios nesses tapetes oceânicos, desprovidos de oxigênio, até que evoluíram, sob a determinação divina, para as primeiras unidades preparadas para respirar o ar ainda inóspito do planeta: as algas marinhas, chamadas cianofíceas ou algas verde-azuladas. Migrando para a superfície dos mares, esses diminutos seres desenvolveram o interessante mecanismo da fotossíntese, através do qual se tornaram capazes de alimentar-se do gás carbônico, então abundante na atmosfera primitiva do nosso mundo. Multiplicando-se intensamente, formaram o plâncton marinho, que logo cobria, como um tênue lençol, toda a camada líquida da Terra.

Ávidas por absorver os gases atmosféricos, as algas cianofíceas trabalharam afanosamente por dois bilhões de anos, saneando a camada de ar das densas nuvens carbônicas que a enegreciam, provenientes das fenomenais erupções vulcânicas do início. E ao absorver o dióxido de carbono, liberavam fartamente o oxigênio no estofo gasoso, preparando novo berço para a vida superior que logo nasceria.

Ao mesmo tempo em que enriqueciam e limpavam nossa atmosfera, propiciavam a formação do escudo de ozônio, necessário à filtragem dos raios ultravioleta solares, nocivos aos seres pluricelulares que logo se formariam. E, além do mais, disponibilizavam farta matéria orgânica, necessária à sobrevivência dos animais mais complexos que não tardariam a surgir nas profícuas paisagens do planeta.

Depois da longa e intensa atividade do plâncton marinho, nossa atmosfera era, afinal, respirável. Os raios solares agora atingiam a superfície do planeta, espoliados de suas nocivas irradiações ultravioleta. Estava preparado, enfim, o ambiente para o surgimento das plantas terrestres e, um pouco mais tarde, dos primeiros protozoários e metazoários que rapidamente se espalhariam por toda a superfície do orbe.

A vida, uma vez estabelecida nas paisagens fecundas e primevas da Terra, seguiria apressadamente sua intensa elaboração evolutiva, progredindo em forma e complexidade, dando origem a seres cada vez mais desenvolvidos. Compondo a grande árvore da evolução, seus últimos galhos terminariam por gerar, cerca de um bilhão de anos mais tarde, seu fruto mais precioso, o homem. Emocionamo-nos ao divisar a laboriosa oficina da vida, onde as leis divinas trabalharam pacientemente por largos milênios, para que a consciência adormecida na matéria pudesse, enfim, despertar.

Eis, irmãos, a descrição sumária do processo de maturação da substância, do cerne improlífero da matéria bruta ao desabrochar da consciência no mundo das formas. Processo que é senão um fenômeno de restituição e não de verdadeiro nascimento, demonstrando-nos que a evolução apenas fez restaurar um princípio que já existia adormecido no cerne atômico desde o início.

Vemos agora, com nitidez, a linha contínua de um desenvolvimento único que vai do átomo ao anjo e que nada mais representa que a inversão do movimento inicial da descida da angelitude à matéria bruta, pela eleição do egocentrismo. E aprendemos que, sem sombra de dúvida, o espírito renasce da matéria e não simplesmente nela se encarna para evoluir, uma vez que a matéria é produto dele mesmo, nada mais que o próprio hálito.

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