O conceito de justiça

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A realidade verdadeira, escondida sob as aparências, é sempre uma outra, onde exteriormente tudo aparece perfeito, mas subterraneamente ferve a hipocrisia, a rivalidade, a luta pelo domínio. O que é natural no plano do involuído aparece como algo de monstruoso no plano do evolvido.

O ser inferior é protegido pela sua insensibilidade e ignorância que não o deixam perceber a sua inferioridade. O animal não sabe que é animal. A fera não sabe que é feroz e continua sendo inocentemente. Sem contraste não há possibilidade de percepção, e o contraste torna-se possível somente quando se pode fazer a confrontação, isto é quando se está num plano diverso.

O conceito de justiça é diverso conforme seja visto de um plano ou do outro. No plano animal é justiça, é legítimo direito do mais forte, estraçalhar o mais débil, que pela mesma justiça deve ser esmagado. O próprio Cristo, descido na terra para lançar um mais elevado ideal de vida, teve que submeter-se a esta lei e foi sacrificado depois de julgado por diversos tribunais constituídos legitimamente. E quando foi pregado na cruz, os seus crucificadores pediram-lhe com desprezo, desse prova de sua força salvando-se a si mesmo. E isto porque o valor de um homem esta em dar prova de força e não de bondade, para salvar a si mesmo e não aos outros.

Como é possível pretender que num mundo desses seja possível atuar a justiça econômica?

Infelizmente não poderá realizar-se senão quando os deserdados derem prova de força para saberem impor eles mesmos, em sua própria vantagem, essa justiça. Infelizmente não há outra via, eis que, depois de dois mil anos de pregação da justiça do Evangelho, ficou esta, em grande parte, qual letra morta. A imposição por parte dos deserdados seria desnecessária se o Evangelho houvesse sido praticado.

Como é possível obter justiça em nosso mundo, senão com a força?

Isto dizemos, não para justificar a violência, mas para darmo-nos conta de qual seja o mundo triste em que vivemos. É inútil distinguir entre grupos humanos para lançar a culpa acima dos outros. A culpa é de todos e, de fato, todos pagamos fraternalmente, dominantes e dominados, a culpa é de todos. Os oprimidos não são melhores que os opressores e os opressores não são melhores que os oprimidos, e todos juntos somos envolvidos, pela agressão recíproca, na mesma pena.

Como é possível esperar que esse mundo, assim construído, correspondam os fatos às palavras, a aparência à realidade, a forma à substância?

Como impedir a hipocrisia e que tudo possa ser falsificado pela mentira?

Como evitar a exploração dos ideais e que as coisas mais belas sirvam para bem outras finalidades?

Como exigir nesse mundo que a tanto proclamada caridade não se faça também para si, antes que para os beneficiados, que toda religião, fé, ideal se não industrializem na terra onde devem operar?

Como pretender que a propriedade seja entendida como função social antes que função egoística individual, não só para vantagem pessoal exclusivista, mas também para utilidade de todos?

É justo que a lei garanta a propriedade. Mas podemos explicar como é porque surgem revoltas para a destruição desta instituição, quando pensarmos que, multas vezes, esta propriedade pode ser também o fruto de tudo quanto se conseguiu agarrar com qualquer meio.

Como justificar esta instituição quando é utilizada também para legitimar um furto?

E como impedir isto num mundo que se alicerça na luta?

E os que, invocando justiça, em nome dela, quereriam destruir o instituto da propriedade, o fazem porque, sendo da mesma raça dos vencedores, quereriam fazer o mesmo, isto é, praticar o mesmo furto que os outros, mais afortunados, conseguiram levar a efeito em vantagem própria. Assim, em nome do direito e da justiça, com novas ideologias, continua-se em novas formas a velha batalha, para cada qual tomar o mais que puder. De ambos os lados, as causas são as mesmas, pois os indivíduos são do mesmo nível evolutivo.

Nesse plano de vida o individualismo egoísta conduz ao princípio de a propriedade servir para vantagem pessoal exclusiva, sem preocupação para com os outros. Este é o instinto do involuído então há ideologia ou sistema moral que o possa modificar. A verdadeira reforma do mundo não pode advir de reformas exteriores, mas tão só do interior, modificando-se o homem para que seu comportamento se torne diverso.

De outro modo, embora mudando vestimentas a atitudes, o homem continuará a praticar as mesmas coisas, movido pelos mesmos impulsos.

O problema não está em pertencer a este ou aquele grupo humano, religião ou partido, ideologia etc., mas em não ser mais um involuído que não sabe viver senão com os princípios e instintos do seu plano. O mal é profundo, enraizado na própria natureza humana e não pode ser curado com sistemas políticos ou reformas sociais dentro das quais o homem permanece o que é. O problema é biológico, é muito mais amplo que o fenômeno social, porque interessa a toda a evolução da vida em nosso planeta, de que o fenômeno social é apenas uma particularidade.

Nosso mundo atual é dominado por esta realidade, que é o seu plano de vida, realidade que penetra e arrasta tudo e todos, instituições, religião, moral, ideais, porque tudo é entendido e vivido de conformidade com este nível de vida.

Qualquer ideal superior que desça a terra de planos mais altos, vem a ser adaptado à natureza humana, transformado, retorcido, esmagado, até reduzir-se as medidas que a terra exige, porque, de outra forma, se não for assim limitado, a terra não o pode conter. Qualquer teoria, para ser vivida, conquanto seja elevada e bela, tem que reentrar na forma mental do ser que a deve viver.

É assim que em dois mil anos o Evangelho lutou para transformar o homem, como o homem lutou para transformar o Evangelho. Disto resultou uma adaptação a meio caminho que, se deitou água no vinho, alongando-o, permitiu, todavia, que uma certa porcentagem dele viesse a ser absorvida, sem o que a bebida teria sido rejeitada, por ser demasiado forte para ser aceita pelo estômago de um ser como o homem atual.

Se toda doutrina que aparece na terra não tomasse corpo numa casta dirigente e no grupo social que a representa, quem a sustentaria, quem defenderia e conservaria aquele patrimônio, se a este não se ligassem os interesses materiais daqueles que devem efetuar este trabalho? Estamos na terra, onde não se pode esquecer, um momento algum, de que estamos sujeitos às necessidades que isto implica.

É assim que o Evangelho tornou-se a bandeira defensiva de uma casta que procurou viver à sua sombra. Mas, para o homem de nosso plano biológico, esse Evangelho tornou-se uma espécie de gaiola de ferro e, assim fechado nela, teve o homem que se adaptar aprendendo a viver conforme a lei de um plano de vida mais elevado! Que forma de disciplina para todos, tanto ministros como fiéis, tornou-se aquele código! É assim que constituindo castas, com posições terrenas bem delimitadas, as religiões fixam na terra, com aquelas organizações terrenas, também uma disciplina de vida.

O fato é biologicamente importante, porque o fixar-se de uma norma de conduta, importa na sua longa repetição que incide na natureza humana transformando-a, já que é a repetição que forma os automatismos constituidores da base dos novos instintos. É por esse caminho que o Evangelho enxertar-se-á na carne e no sangue do ser humano, transformando-o de involuído em evolvido.

Compreende-se, pois, porque as religiões tiveram de se apoiar nos ricos e nos poderosos. É verdade que sua força deveria ser toda espiritual, desdenhando os expedientes humanos, mas isto constituiria uma igreja perfeita, formada por santos, o que não é possível na terra. Sendo, entretanto, as religiões formadas pelo material humano comum, dado não haver na terra outra coisa, é natural que, para se lhe tornar possível a existência na terra, essas religiões devem apoiar-se também nos métodos humanos.

A eliminação poderá dar-se gradualmente, de acordo com a possibilidade de suportação da natureza humana, conforme o nível evolutivo alcançado. Verifica-se desse modo um processo de progressiva purificação das religiões, em que a doutrina vai cada vez mais enxertando-se na natureza humana, até que todas as escórias da involução venham a ser eliminadas e do involuído, finalmente, nasça o evolvido. O fato positivo é que, em torno do fulcro da própria doutrina, toda religião vai evolvendo, cada vez mais desmaterializando-se e espiritualizando-se: em outros termos, subindo sempre mais da animalidade à fase humana e super-humana.

Assim é que, se em nosso mundo tudo é dominado por uma realidade biológica de plano evolutivo inferior, todavia tudo vai subindo lentamente para um plano da vida superior. Observemos a evolução do instinto da família, primeiro núcleo da sociedade humana.

Retrocedendo para os estados mais primitivos verificamos ser mais dura a luta e com isto mais feroz a vida. A mulher é a escrava que deve trabalhar, obedecer, servir. A evolução conduz a uma cada vez maior proteção dos fracos, exatamente porque leva o ser fora do plano do involuído onde vigora a lei do mais forte.

O libertar-se, com a ascensão da vida, desta lei de prepotência, conduz cada vez mais da fase de força a de justiça, em que há sempre mais lugar para os fracos que antes eram inexoravelmente condenados. Paralelamente torna-se cada vez mais importante o problema da defesa e educação dos filhos, problema antes inexistente. No estado mais primitivo a natureza deixa gerar com toda prodigalidade, submetendo depois os filhos a seleção natural, de maneira que somente os mais fortes sobrevivem e os outros perecem. Mulher escrava e filhos largados as suas próprias forças, esta era a condição primitiva.

Uma das maiores obras da evolução humana é a redenção da mulher. Atualmente o matrimônio garante-lhe a proteção e a posição social do marido. Uma vez todos os direitos eram do macho, porque era o mais forte conforme a lei que imperava nos planos de vida inferiores.

Passando do reino da força ao da justiça, os pesos, como é justo, começam a transferir-se dos ombros dos mais fracos aos dos mais fortes. Eis, então, que ao macho não pertence mais somente o direito de ser servido, mas também, o dever de proteger, de trabalhar para prover o necessário, A mulher não é mais a escrava mas a companheira. Os filhos não são largados a seleção natural, mas devem ser criados, educados, e acompanhados até que atinjam uma posição própria na sociedade. A família passa a tomar um aspecto ético superior, representa uma função social, toma-se uma missão a ser cumprida.

Neste processo tocamos com a mão a transformação a que o ser é submetido com a passagem, por evolução, do plano do involuído ao do evolvido. O estado de egoísmo separatista é reabsorvido, cada vez mais, num estado de amplexo fraterno, o caos torna-se ordem, a força justiça, a revolta transforma-se em disciplina. Inicia-se, assim, começando do primeiro núcleo que é a família, aquele processo de reconstrução que conduz do estado caótico do individualismo separatista, ao estado orgânico, que, como já dissemos, é o das mais evolvidas sociedades futuras.

Com as observações que vamos fazendo, nos foi possível dar conta, não só do plano evolutivo em que está situada a humanidade atual, mas, também, observar a transformação que nela se verifica com a subida do plano biológico do involuído ao do evolvido.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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