A psicologia do Involuído

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O homem só aprende à força da dor quando tem que suportar as consequências dos próprios erros. A causa não esta na contradição de Deus, mas na forma mental da criatura,  a qual compreende apenas a linguagem dura da dor. Não é possível fazer de outro modo quando, respeitando-lhe a liberdade, se quer salvar um ser que não sabe agir senão com a forma mental do rebelde que faz consistir todo o seu valor na força para rebelar-se contra a lei, e não na inteligência para obedecer. A causa da dor, por isso, não está em Deus, o que é inadmissível, mas está nesta errada psicologia e conduta do ser.

Bastaria compreender isto para poder eliminar a dor que deriva da psicologia de egoísmo e de revolta, a causa primeira do mal, onde a dor permanece. Mas é lógico, que alcançada, por evolução, uma outra forma mental em planos de vida elevados, a dor desapareça, não tendo mais que cumprir os anteriores fins educativos, que são sua única explicação e justificação no seio do amor, bondade e justiça de Deus.

Absurdo e blasfêmia seria o admitir haja sido Deus o construtor das cadeias da dor e que a elas devamos permanecer sempre amarrados. Estas cadeias são devidas ao estado de involução e devem desaparecer com a evolução, cuja tarefa é precisamente a de tudo corrigir e sanear, reconduzindo-nos à perfeição do sistema.

A dor existe para eliminar a si mesma.

A forma mental a ser corrigida é precisamente a do cidadão revoltoso do Anti-Sistema, para dar-lhe, em lugar daquela, a forma mental do obediente cidadão do sistema. Trata-se de endireitar o que havia sido invertido, isto é, de conduzir ao estado de ordem aquela psicologia de revolta.

É deste contraste, dado pelo embate entre os dois métodos, opostos, que deriva aquela moral de contradição que estamos comentando. Esta contradição encontra a sua justificação lógica no contraste entre o Sistema e o Anti-Sistema, porque é o primeiro que desce do Alto para impor a sua ética mais evolvida no terreno do Anti-Sistema, exatamente para erguê-lo à condição de Sistema. Explica-se, desse modo, como, na conduta humana, aquilo que se pratica não representa senão uma porcentagem do que se prega como representação da lei de um plano superior em luta para realizar-se na terra.

Quando o mandamento de Deus diz: “‘não matar”, quer dizer: “nunca matar ninguém”. Mas quando este mandamento desce na terra, na qual é o melhor quem sabe eliminar maior número de inimigos em seu favor, então aquele mandamento se quiser subsistir em tal ambiente, deve deixar algum lugar à lei desse ambiente, e transformar-se, adaptando-se a ele. Na prática, desse modo, o mandamento vem a exprimir-se assim: “não me mates e ajuda-me a matar os meus inimigos”.

De fato, foi nesse sentido que Moisés não pôde deixar de entender e aplicar aquele mandamento, logo que desceu do monte e encontrou-se frente à realidade da vida. Foi uma espécie de necessidade moral e também espiritual, porque, diversamente, a idolatria sairia vencedora.

Posteriormente, com o desenvolvimento da evolução, a lei do Sistema, fazendo pressão, tornar-se-á cada vez mais atuável, até os tempos modernos em que se chega quase a condenação das guerras, coisa inconcebível aos tempos de Moisés. Mas foi daquele modo que então se chegou, certamente não por culpa dele, mas da dominante psicologia involuída, a esta conclusão estranha: que, para defender a lei de Deus, foi preciso deixar de aplicá-la. Para tornar válido o mandamento de “não matar”, para tornar possível transmiti-lo a outras gerações que, depois, o pudessem aplicar, se fez necessário violá-lo primeiro, matando uma porção de gente.

Assim desde que apareceu pela primeira vez, a lei ética, deve levar em conta a realidade do mundo. A primeira coisa que Moisés teve de demonstrar com fatos ao descer do Sinai foi a inaplicabilidade imediata da lei que proclamara. Para fazê-la descer ao plano humano, para depois educar o homem ensinando-lhe a aplicá-la, Moisés teve, inicialmente, de cair numa contradição, que permanecerá através dos séculos: a de que para poder aplicar a lei que proíbe a força, se usa a força.

Para aplicar a lei, se faz justamente o que ela proíbe. Não, é o legislador moralista que mostra a aplicabilidade da lei seguindo-a ele mesmo, em primeiro lugar, e educando com o exemplo. É ele próprio, inicialmente, que prova a inaplicabilidade dela com o fato de não aplicá-la a si quando, exigindo obediência, afirma, com os fatos, o princípio oposto ao da obediência determinada pela lei, isto é, o princípio do próprio mando.

Eis aquilo que na ética deve tornar-se, quando desce em um mundo onde o problema fundamental sempre presente é de ser o mais forte e de, assim, impor-se para não ser devorado. Desse modo é que encontramos na Terra uma ética de contradições, pela qual a lei parece dever valer só para os sujeitos que devem ser educados, e não para os educadores, que não ficam obrigados a aplicá-la, embora devessem ser os primeiros a fazê-lo. É uma ética de contradição, porquanto, determinando obediência pratica, a dominação. É uma, ética de coação, que impõe a ordem pela força das sanções, isto é, faz a paz usando a guerra, quer atingir a não-reação usando a reação.

É assim que a ética ensina a não matar, matando; a renunciar, mantendo a posse; a obedecer mandando. O próprio moralista está imerso no plano humano, não consegue colocar-se acima de seus dependentes e com estes, mesmo em nome de altos princípios éticos, desce para a luta no mesmo nível.

Somente Cristo permaneceu em Seu plano mais alto. Somente Cristo praticou a não-reação pregada pela ética: Ele não desceu para pactuar com o mundo estabelecendo compromissos. Por isso, porque ele não quis usar a força, o mundo, usando a força, o matou. Só puderam sobreviver as outras autoridades que se dizem baseadas na ética, foi porque, diante da moral pura de Cristo, elas representam uma posição híbrida de comprometimento. Assim, assistimos na Terra ao estranhíssimo espetáculo através do qual, em nome da ética, se proíbe a reação punitiva individual, permitindo-se somente a da autoridade. Esta diz ao indivíduo: “Não usarás mais a violência para defender teus interesses; só eu posso usa-la para defender os meus. Eu, porque sou o chefe, o que venceu como mais forte, nego a ti o direito de matar por teus próprios objetivos para usá-lo somente pelos meus fins”. Na verdade, o que cada governo faz, logo de inicio, é desarmar o cidadão, reprimindo-lhe a violência, para armá-lo contra os próprios inimigos, premiando-lhe com honras a mesma violência.

Na prática, a ética reduz-se a uma retirada de poderes da massa para poucos dirigentes, fato que se justificaria se feito com finalidades educativas ou para o bem da coletividade, o que nem sempre se verifica, já que, ás veres, tais poderes podem ser usados pelos dirigentes só como vantagem pessoal.

Assim a ética constitui a primeira violação de si mesma, porque os homens que a representam, na prática, fazem exatamente o que ela proíbe. Desse modo, os princípios permanecem como teoria e fica, no plano humano o fato de que, sobrepondo-se força a força, não se alcança justiça. Enquanto se aceitarem os métodos do mundo, isso não pode ser superado, onde esta contradição é fatalmente destinada a desaparecer com o progresso evolutivo, destinada a ser corrigida quando os princípios da ética vierem a ser verdadeiramente aplicados em favor da educação do homem, ensinando-lhe a viver num plano de vida mais alto.

Estamos no reino da força, onde não há coisa que não seja regida pelo princípio da força, onde também as religiões, a moral, as metas ideais, a própria ação de Deus, estão baseadas na força. Não se obedece aos homens, nem a Deus, senão enquanto se está em face de alguém mais forte, e capaz de fazer pagar caro a desobediência. Nesse reino, a primeira preocupação de quem está no poder, seja o Deus das religiões como qualquer chefe humano, é a de eliminar todos os rivais, exatamente aqueles que constituem, a maior ameaça ao próprio poder. Isto significa quase um medo continuo de perdê-lo tão logo aquela força, base de tudo, venha a faltar, e isto porque, seja no terreno político, como no religioso, presume-se o instinto da revolta, pronto a explodir nos súditos e nos fiéis, tão logo aquela força não os mantenha submissos.

Estamos no plano de vida do involuído, onde não há manifestação que possa sair desta atmosfera e possa tomar outra cor, compreendidas as mais elevadas manifestações da ideia de Deus, sempre interpretações humanas do absoluto. Todo plano biológico não pode superar, nunca, o seu próprio grau de aproximação.

Assim é que, em nosso nível humano, não se consegue, se não dificilmente, superar a psicologia da luta para a seleção do mais forte, lei dominante.

O involuído não pode conceber senão um Deus proporcionado à sua capacidade de concepção. O Deus de Moisés é o Deus do involuído, um Deus incompreensível de outra forma, a quem diversamente não se poderia obedecer, um Deus menos adaptado a nós que, com Cristo, pudemos alcançar uma concepção mais elevada.

Se Moisés tivesse falado a linguagem de Cristo, feita de amor e perdão, houvera falado fora de tempo, demasiado em antecipação; o seu povo compreenderia apenas ser o seu um Deus bastante débil e, assim, ser possível destruí-lo rebelando-se impunemente, como de fato aconteceu quando Cristo se fez cordeiro. E destruir o próprio Deus, nesse caso, significava devorar os seus ministros e a casta que o representava.

Estamos num plano em que a inteligência é usada, não para seguir a ordem e a lei, mas para escapar-lhe, num plano, pois, onde a primeira qualidade exigida do chefe é a força capaz de impedir esta evasão, num plano em que o maior valor do súdito é reputado o saber evadir, rebelando-se a imposição, escapando de qualquer sanção.

Num plano no qual o indivíduo não age senão pelo desejo de uma vantagem ou pelo medo de um dano, não se pode usar sendo o método do prêmio ou do castigo. Eis o inferno e o paraíso.

O método da livre aceitação por convicção não pode funcionar ainda. É preciso apoiar-se sobre o instinto fundamental da vida, o de viver, evitando a dor e procurando alegria. Enquanto se permanece no plano do involuído, não há outros meios de induzi-lo, a agir, conforme a lei, eis que não obedece a outros moventes.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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