Universo Finito

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

A ciência da Terra ensinou-nos em uma época que o cosmo que nos cerca é infinito em todas as direções e eterno no tempo. E nossa razão diz-nos que assim deve ser. Como divisarmos, ainda que conceitualmente, essas fronteiras?

Nós e nosso universo somos produtos de uma fenomenal contração, encistada no seio da Eternidade, e que agora se expande rapidamente para refazer sua grandeza original. Isso basta para entendermos que nossa casa cósmica não é uma construção infinita e eterna.

A ausência de limites que nele denotamos é mera ilusão de nossos sentidos A verdadeira infinitude e real eternidade são pertinentes somente ao Absoluto, que existe fora de todas as medidas.

Como explicar que Kardec, em suas perquirições fundamentadas nas revelações dos Espíritos, concluiu, não obstante, que vivemos um universo eterno e infinito?

O codificador e seus iniciais seguidores interpretaram os informes das sábias entidades que o orientavam segundo pressupostos relativistas e não absolutos, próprios de uma época em que o pensamento humano ainda não estava amadurecido e preparado para compreender aquilo que extrapola as fronteiras dimensionais em que vivemos. Assim, acreditando-se albergados em um mundo de expressões ilimitadas, os dedicados estudiosos do espiritismo, inclusive desencarnados, afirmaram categoricamente que caminharíamos pelas plagas de uma dimensão infinita e plana, em um progresso que jamais atingiria seu término.

A esses pensadores lembramos que os Espíritos que ditaram a obra básica da codificação acenaram-nos com o Reino do Espírito Puro, demarcando o cimo e o fim do progresso. Ora, se ao espírito puro nada mais se poderá agregar, somos obrigados a creditar inexorável conclusão da caminhada evolutiva e impor barreiras à dimensão em que vivemos. Por isso, hoje compreendendo melhor a estrutura do universo que nos alberga, podemos reafirmar, corroborando os ensinos de Jesus, que nossa evolução terminará efetivamente e vivemos, portanto, em um universo finito.

Passou despercebido àqueles que se acham convencidos de que estaremos subordinados a uma fatigante jornada sem fim o item 169 da obra espírita fundamental, no qual se encontra exarado categoricamente que, “embora as encarnações sucessivas sejam incontáveis, o progresso é quase infinito”. Patenteia-se, dessa forma, que a evolução não é interminável. Sendo “quase infinita” está fadada a extinguir-se, o que pressupõe que o universo está contido em impreteríveis limites. Todavia, a mente humana, ainda dominada pela estreita cosmovisão do século XIX, foi incapaz de colocar barreiras à dimensão aparentemente ilimitada que nos envolve e não soube compreender essa estupenda afirmação. Perdida no dédalo da insuficiente racionalidade que a caracteriza, preferiu acreditar que nossa marcha jamais encontraria sua conclusão, em um universo absolutamente infindo.

Hoje sabemos que, embora imenso e estupendo, nosso cosmo é um constructo passageiro e recolhido em si mesmo, que terminará reconduzido à sua perfeição de origem. Se assim não fosse, teríamos de decretar a falência da Lei do progresso e a imperfeição da obra de Deus, condenando-a à eternidade do tempo, à perenidade do espaço e à transitoriedade da matéria. Nosso cosmo relativista existiria sem começo e sem fim, albergando-nos para sempre em seu seio. E nós, como filhos do Relativo, estaríamos fadados ao eterno afastamento de Deus, realidade para sempre inalcançável.

Tal proposta pressupõe a perpetuação da existência não só da matéria, como também do mal e da dor na obra divina, ideia que a razão hoje nos abomina. No entanto, a informação de que nosso universo não é infinito a princípio assombra-nos. Nossas mentes não conseguem alcançar o estupendo realismo com o qual se veste o mundo ao nosso derredor. Se colocarmos uma barreira em suas medidas, somos levados a concluir que haverá sempre algo depois delas.

A própria ciência do mundo que está caminhando apressadamente para essa conclusão e vale a pena deter-nos um pouco mais nessa nova visão de um universo fechado que agora alcançamos, apreciando melhor seus intrigantes limites.

Antes do advento das modernas teorias cosmogônicas, o homem era, de fato, levado a julgar que estava mergulhado em uma edificação cósmica infinita no espaço e eterna no tempo. No entanto, hoje sabemos que nosso universo nasceu um dia, de uma primeira explosão, quando então foram criadas as próprias dimensões que o servem.

A partir desse fato, o pensador terreno passou a compreender que somos uma bolha de espaço-tempo contida em outra realidade suprajacente, sendo esta, sim, o verdadeiro domínio da infinitude. Nossa morada cósmica, portanto, foi criada no espaço, logo é finita no espaço; teve um começo, então obrigatoriamente terá um fim.

Somente o que foi gerado fora do tempo estará impregnado da real eternidade, e apenas o que não está preso na forma satura-se da legítima infinitude. O tempo expirará com a morte da energia, o espaço sucumbirá com a extinção da matéria, e somente o espírito sobreviverá para viver a Eternidade no seio divino.

Nosso universo, portanto, juntamente com todos os seus objetos fenomênicos, será completamente absorvido pelo Absoluto quando o espírito, desmantelando a ilusão separatista da queda, promover a completa desmaterialização de todos os seus veículos de expressão. A esse fenômeno, que a cristandade estuda como a escatologia, referiu-se Jesus ao anunciar o “fim dos tempos” em Seu famoso Sermão profético.

Na atualidade a cosmologia moderna, confirmando a escatologia cristã, não tarda a fixar a data da trágica extinção do nosso universo, ao constatar sua vertiginosa e irreversível expansão a que subordina todos os seus eventos, os quais morrerão com a exaustão absoluta de todas as energias que os movem. A morte da matéria também será demarcada no inevitável decaimento do próton. Nosso cosmo físico, com seus mundos densos e inclusive seus intermúndios, as esferas espirituais pós-túmulo que os complementam, como nos promete a palavra do Cristo, não sobreviverá para a Eternidade.

Compreender que o tempo e sua dimensão correlata, o espaço, encontrarão a completa extinção faz-se essencial para se restituir aos conceitos de Ressurreição e Vida eterna seus significados originais, tal qual apregoados pelo Evangelho do Reino.

Com Jesus temos a certeza de que a evolução termina na dimensão da Vida eterna. Nossa sede por perenidade e nossa ânsia por estabilidade plena serão completamente saciadas, conforme nos garantiu o Mestre no diálogo com a samaritana. Fixados na perfeição absoluta, nada teremos a agregar à nossa consciência, fundida por completo à Consciência divina, fazendo-nos cessar todo e qualquer estímulo ao crescimento. Libertos de contornos e formas, expandir-nos-emos ao infinito. Nossa marcha evolutiva terminará com nosso definitivo retorno ao Reino de Deus. Herdaremos então a perfeição absoluta e não a relativa, como nos aferiu o Salvador, pois somos genuínos filhos de Deus, e como tais, feitos de sua mesma e impecável natureza.

Para grande alegria de nosso coração, validamos então a escatologia cristã e todas as suas previsões, pois “o céu e a terra passarão” e apenas os valores imponderáveis do espírito jamais tornarão a experimentar a morte.

Lancem seus percucientes olhares pelas imensidões do Incomensurável. O infinito parece cercear todas as medidas possíveis do espaço e do tempo, pois nossa parca razão não pode suportar-lhes as intrigantes fronteiras. No entanto, o espaço curva-se sobre si mesmo e o próprio tempo enrodilha-se nas entranhas de suas volutas, conferindo-nos a ilusão de amplidão sem fim ao nosso derredor e um ritmo cronológico ilimitado diante dos olhos. Não obstante, acreditem, não vivemos na ausência de barreiras, pois estamos contidos nos limites que a evolução a tudo impõe. Limites que não podem ser divisados pelo juízo crítico, muito menos pelas nossas percepções físicas, somente, porém, com os olhos da alma.

Além do ilusório infinito que nos cerca, encontra-se o Reino de Deus, a esfera divina, em meio ao qual somos nada mais que uma bolha flutuante e provisória de espaço e tempo, matéria e energia. Algemados à obscuridade das dimensões estreitadas do Relativo, não somos capazes, até então, de divisar além de nossas reduzidas medidas, onde se oculta o verdadeiro Infinito, o Absoluto.

O campo gerado pela queda cerceia-nos as ações, limitando-nos às expressões do próprio mal que emanamos de nós mesmos. Estamos então encerrados dentro do Relativismo e o Absoluto nos limita. A este, sim, devemos conferir o atributo da ilimitabilidade, uma vez que não está confeccionado nas malhas do tempo e do espaço. O Mundo divino não teve começo no tempo, portanto não terá fim, pois existe além do tempo. Não ocupa lugar no espaço, uma vez que não se desenha em formas, logo não tem barreiras no espaço. Estando fora dos domínios da razão, não pode por ela ser compreendido.

E não temos o direito de negá-lo simplesmente por não estar ao alcance de nosso parco entendimento. Recusá-lo pressupõe rejeitar a própria existência de Deus. (…)

Vivemos uma existência entrecortada por mortes e, portanto, não detemos a verdadeira Vida eterna. Nossos perispíritos inexoravelmente irão se agastar e “morreremos” outra vez no plano espiritual, para novamente renascer na carne. Nossa realidade atesta-nos que não ocupamos um corpo definitivo, compatível com a real Eternidade. Entendemos agora que o Mundo divino não comporta envoltório algum para o espírito. Unicamente vestidos de puro pensamento, sequer de luzes ou qualquer manifestação de energias sutis, poderemos sobreviver incólume no seio divinal. Unicamente trajados com as vestes nupciais, como nos indicou Jesus, participaremos das bodas celestes.

Em futuro próximo, a lei cíclica da evolução obrigar-nos-á ao retorno à ribalta terrena. O esquecimento temporário e novo mergulho na inconsciência constranger-nos-ão a “nova morte” no túmulo de carne. Reconstruiremos nossa personalidade tomando por base o que já fomos e já experienciamos na grande aventura da vida, e servir-nos-emos de forma imprecisa das nossas conquistas do passado, mas seremos forçados a refazer nossas aquisições evolutivas pacientemente, recapitulando suas lições a fim de fixá-las nos refolhos da alma. No buril do progresso, sob o guante das necessárias dores provacionais, expiaremos os sofrimentos que semeamos nas leiras da existência, ainda que por ignorância das Leis do Senhor.

Até o dia em que nos desvencilharemos de todos os efêmeros envoltórios com os quais nos vestimos na ilusória realidade das formas. E então superaremos a marcha do tempo para ressurgir na verdadeira Eternidade, muito além de todas as medidas, como pensamentos puros, em uma dimensão muito distinta desta esfera do além-túmulo em que hoje nos encontramos.

Guardemos esses conceitos que ainda nos custam absorver. Deixemo-los amadurecer pacientemente nos escaninhos da mente. Convencer-nos da veracidade da queda do espírito nesse momento é tudo o que nos importa. Sigamos então nossa penosa escalada evolutiva na certeza de que o amanhã haverá de reservar-nos a sabedoria plena, e tudo se nos esclarecerá. Aceitemos por ora nossas limitações, as necessárias dores corretivas, os atritos e as vicissitudes que a evolução nos impõe para nos fazer avançar.

Entender que os resíduos de nossa grande falência estão inexoravelmente presentes em nosso imo, e continuarão a reverberar em nós até que se esgotem seus impulsos originais, é-nos então indispensável lição que nos ajudará a acatar com boa vontade nossos padecimentos educativos. E seguiremos mais felizes pelas estradas do progresso, empenhando-nos com mais afinco nos passos do divino Pastor, rumo à Casa do Pai. Subindo pelo calvário da evolução, seguiremos com o ânimo exaltado, transportando nossa cruz redentora, até que as luzes do Reino de Deus possam surgir na alvorada de nossa ascese espiritual, preparando-nos para a Redenção final.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s