O aniquilamento do ser

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Os problemas estão conexos e interdependentes uns com os outros.

Resolvendo agora o do constrangimento, nos aproximamos dum problema paralelo: o do aniquilamento da substância que constitui o ser, no caso de ele querer definitivamente persistir na sua revolta.

Tratando há pouco do assunto do constrangimento, vimos que a Lei só indiretamente impulsiona o ser à sua salvação, ficando sempre na posição dum absoluto respeito para com a sua liberdade. Surge então o problema: esse respeito da Lei para com a liberdade do ser chega até ao ponto de ter que aceitar uma sua definitiva revolta?  Se o ser quiser usar da sua liberdade até ao caso limite, teoricamente possível, de nunca querer voltar para trás evoluindo até à salvação, então a Lei pode permitir que o ser a viole até ao ponto de aniquilar os seus efeitos?

Esse respeito para com a liberdade chegará ao ponto de deixar que o ser, com a sua revolta, vença definitivamente a Lei, construindo um AS não temporário e sanável, mas eterno e definitivo, o que representaria o fracasso da obra de Deus?

Como a sua sabedoria resolve esse outro conflito entre duas exigências opostas?

Temos aqui dois princípios contrários: o da liberdade do ser, que não pode ser destruída; e o da supremacia da Lei, que tem de atingir as suas finalidades.

Temos de um lado a impossibilidade de tirar a liberdade do ser, porque ela é o requisito fundamental da substância divirta de que o ser está feito.

O filho tem de ser da mesma natureza do pai. Se a natureza do pai é a de ser livre, também a do filho o tem de ser, se o espírito não fosse livre, ele não seria filho de Deus, porque não seria construído com a livre substância do Pai. Mas eis que, ao mesmo tempo, é a própria liberdade que contém o perigo da revolta, que nela está implícita. Se tirarmos do espírito a liberdade de desobediência, ele não seria mais livre.

A liberdade deve ser total, completa, com possibilidade também de revolta perpétua e definitiva.

Eis, então, que há necessidade de deixar nas mãos da criatura o poder de desvirtuar para sempre, com uma rebelião permanente, a obra de Deus. Isto porque se nesta sobreviver só uma gota de desobediência e de mal, a obra não seria mais perfeita, mas feita de bem corroído pelo mal, de divindade derrotada pelo seu inimigo, manchada, manca e falha na sua imperfeição.

Encontramo-nos na contradição entre duas posições opostas. Existe a liberdade do ser e ela representa um perigo, mas não se lhe pode tirá-la, para garantir a obra de Deus. Que esta fique sujeita à vontade do ser, é absurdo inadmissível. Então é necessário admitir que, pela divina sabedoria, existe um meio para impedir a essa liberdade de fazer naufragar a obra de Deus. Qual é esse meio.

Antes de tudo, para resolver o caso, existem muitos meios antes de chegar ao último e definitivo, evitando, dessa forma, a necessidade de usa-lo. Há a elasticidade da lei, o que se costuma chamar de divina misericórdia, que nos espera no tempo, oferecendo-nos assim a possibilidade de encontrarmos as condições mais adaptadas para compreendermos, pagarmos e nos corrigirmos. Há a bondade de Deus que nos ajuda, e a sua vontade que nos impulsiona ao longo do caminho da evolução.

Há duas grandes forças que operam neste sentido: uma negativa e outra positiva, colaborando para atingir a mesma finalidade. Pela primeira, o ser é repelido para longe do AS, pela segunda, ele é atraído para o S. Quanto mais o ser insiste na revolta, tanto mais ele desce para o AS, isto é, aprofunda-se nas suas qualidades de negatividade, que são as trevas, a dor, a morte.

Como é possível que o ser queira insistir para sempre num caminho que o leva para uma tão absoluta negação do que ele mais almeja?

O que vai contra ele mesmo, contra a sua própria natureza, não pode durar.

Por outro lado, quanto mais o ser se torna obediente à Lei, tanto mais ele se aproxima do S, isto é, ganha nas suas qualidades de positividade, subindo para a luz, para a felicidade, para a vida.

Como pode o ser continuar usando a sua liberdade no sentido se aumentar o próprio dano e diminuir a própria vantagem, quando o seu instinto quer o oposto, isto é, diminuir o primeiro e aumentar o segundo?

O fato é que há sempre maior vantagem em obedecer e sempre maior dano na desobediência. Do fundo do senão pode deixar de falar a sua própria natureza íntima, que é a de ser cidadão do S. Acontece então que automaticamente a posição em descida se faz cada vez mais insustentável e insuportável.

Eis que o problema tende a resolver-se por si mesmo, porque a mecânica da utilidade cessante e do dano emergente, por si mesma leva fatalmente ao arrependimento à retificação.

Tudo isto, porém, não basta para destruir a possibilidade teórica duma revolta perpétua e definitiva, possibilidade que não se pode negar, porque sem ela a liberdade do ser não seria mais liberdade. É necessário que a obra de Deus esteja em absoluto acima de toda tentativa de alteração, inatingível na sua perfeição. Então, há no fim outro meio, último e definitivo de defesa: o da destruição do ser.

         Temos que admitir possibilidade teórica da destruição do ser, porque se não se admitisse a mesma, seria necessário admitir-se uma possibilidade ainda mais difícil de aceitar: a da criatura destruir a obra de Deus.

          Resta então apenas uma solução: quando o ser quiser usar a sua liberdade para permanecer definitivamente rebelde a Deus, então não é escravizado; ele é eliminado. Essa solução é devida a duas impossibilidades:

1) a de tirar ao ser a liberdade, violando a própria natureza da divina substância de que é constituído.

2) a de permitir que tal liberdade possa destruir a perfeição da obra de Deus.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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