Como ocorre o aniquilamento do ser?

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Como acontece mais exatamente esse aniquilamento do ser?

O conceito de aniquilamento do ser está conexo com o conceito de limites de desmoronamento da queda, que se realiza em proporção ao poder do impulso originário na revolta. O efeito tem de corresponder à causa. Isto quer dizer que à amplitude do caminho percorrido em descida na queda, tem de ser proporcionada ao volume do impulso que o ser gerou com a sua revolta.

Deus, criando dentro de Si, com a Sua substância, as individuações desta, que constituem as criaturas, as gerou conforme o modelo central que Ele representa, isto é, qual eu central, dentro dos limites da obediência hierárquica, autônomo, gerador de impulsos próprios independentes, que só tinham o dever de coordenar-se com os paralelos impulsos de todos os outros seres, em função do impulso central de Deus, como acontece nas células de nosso organismo. Assim, dentro dos limites do campo de forças da própria individuação, o ser estava livre de gerar e lançar os impulsos que quisesse, dando origem a efeitos que depois eram fatalmente seus. Isto é o que aconteceu com a revolta. Os efeitos desta têm de ser proporcionados ao poder do impulso que a gerou.

Então, se esse impulso foi limitado, no momento em que esta causa terá atingido o efeito que representa a sua completa realização, o dito impulso se esgota e o ser pode voltar atrás, para tudo corrigir e recuperar. Mas isto não pode acontecer se maior foi o volume do impulso da revolta, se ela foi completa, absoluta e definitiva. Cada causa não pode parar de funcionar até se ter esgotado, atingindo todo o seu efeito. Então, se tal foi o impulso originário, ele não poderá parar sem se ter esgotado, nem o ser poderá voltar, para trás, mas terá de atingir a realização da causa até à sua plenitude, representada pelo estado de negatividade absoluta, isto é, o aniquilamento do ser.

Ora, esse processo de destruição do ser não corresponde à sua causa só como quantidade, na medida dos efeitos, mas também como qualidade, isto é, na natureza deles. A revolta representa um movimento separatista, correspondente a um impulso do ser, pelo qual este procura afastar-se e separar-se do S. Podemos agora ver qual é a técnica do fenômeno da queda ou aniquilamento. O impulso originário é de tipo separatista. Uma vez que o processo se iniciou ele não deixar de continuar a desenvolver-se como uma desintegração atômica em cadeia, que não pode parar até esgotar o impulso. Se este foi de revolta completa e absoluta, o seu resultado final é a pulverização do ser. E isto é possível porque o espírito, sendo constituído de substância divina, isto é, de natureza infinita, pode gerar impulsos e com isso efeitos de natureza infinita.

Mas, por que pulverização? Porque o impulso é de tipo divisionista e não pode sair dos limites do campo de forças do ser. Então o divisionismo que ele tinha lançado contra o S, ricocheteia e começa a trabalhar dentro do indivíduo que o lançou, por aquele princípio de regresso à fonte, pelo qual tudo o que é lançado para fora acaba introvertido para a sua causa e origem.

Então o princípio do divisionismo começa a transformar interiormente o ser, progressivamente desagregando-o sempre mais nos seus elementos componentes. É um processo parecido ao que vemos verificar-se num organismo biológico no momento da sua morte física que, com o afastamento do eu central diretor do organismo, representa o fenômeno da dissociação dos elementos competentes que se verifica no caminho involutivo. Como na desagregação do corpo físico cada célula não vive mais em função das outras, não mais se conhecem, se dissociam porque se dissolve a unidade orgânica; também na morte da célula, as moléculas dos elementos químicos componentes se separam, seguindo apenas os mais simples impulsos associativos da matéria inorgânica. Essa desagregação do edifício biológico poderia continuar até à separação dos átomos constituintes da molécula, e os elementos constituintes do átomo, e assim por diante…

O mesmo processo de pulverização se verifica no caminho involutivo, de modo que a unidade orgânica do eu se vai dissolvendo sempre mais quanto mais desmorona a organicidade do S, e o ser, involuindo, se aprofunda no estado caótico próprio do AS. É lógico que, se o impulso foi limitado, num dado ponto, ao esgotar-se, o processo para o ser, pode desemborcar a descida em subida. Mas é claro também que, se a revolta foi completa e definitiva, (neste caso excepcional e praticamente só possibilidade teórica) esse processo de desagregação terá que acabar no aniquilamento da unidade que constitui o ser.

A contraprova de tudo isto a encontramos no fato de que, enquanto a involução se nos apresenta como um processo divisionista, a evolução é constituída por um processo unificador. Não vemos mais, neste segundo caso uma desagregação do estado orgânico do S, na desordem do AS, mas uma reorganização desta na organicidade do S. De fato, como explicamos em A Grande Síntese, na evolução vigora a lei das unidades coletivas, cuja função é a de reconstruir, com os elementos que se desuniram, a organicidade destruída do S.

Então o fenômeno, em toda a sua amplitude, resulta situado entre dois polos opostos ou casos limites, isto é: no extremo da queda, no fundo máximo do As, temos a plenitude da dissolução da unidade até ao aniquilamento do ser; no extremo oposto, no cume máximo do S, temos a plena eficiência da unidade no Tudo-Uno-Deus.

De fato vemos a evolução progredir neste sentido, levantando andares cada vez mais elevados da sua construção com o agrupar dos seus elementos, organizando-os em unidades coletivas sempre mais vastas. O ser humano encontra-se ao longo desse caminho. Ele é constituído pela organização de átomos em moléculas em células, de células em tecidos e órgãos, destes num organismo unitário dirigido por um só eu. Mas o ser humano é ainda célula desorganizada em relação à unidade coletiva-humanidade e sociedades de humanidades, embora conheça o organismo familiar, o do grupo ao qual pertence, várias formas de associações, até a de Estado, de povo e unidade étnica. Eis o passado e o futuro, o caminho percorrido e aquele a percorrer no trabalho da reconstrução da unidade máxima na completa fusão orgânica do S.

Quando o ser com a sua revolta sai dessa organicidade que o funde em unidade com os outros elementos constitutivos do S ou criaturas irmãs, ele se encontra sozinho, abandonado ao processo de sua desagregação interior, pela qual se vai dissolvendo nos seus elementos constitutivos, até que o edifício todo do seu eu se pulveriza. Assim a centralidade representada pelo eu pessoal se fragmenta e tritura cada vez mais num movimento centrífugo para a periferia, oposto ao que se realiza na evolução, em direção centrípeta, para a reconstrução da unidade que se expressa na forma de eu. O máximo é o “Eu sou” de Deus, que centraliza e reúne em si todos os elementos do todo, suprema unidade q    ue a revolta tentou quebrar, conseguindo, porém, quebrar somente os revoltados.

Eis como se realiza a eliminação do ser rebelde. O ter observado esse fenômeno de perto, nos levou a uma compreensão mais profunda do processo involutivo e evolutivo.

Quando o ser escolhe o caminho da revolta, ele movimenta as forças da negatividade, então se inicia e se desenvolve o desmoronamento do seu eu numa progressiva desintegração das suas dimensões, que parará somente quando o impulso originário se esgotar, a causa realizar-se no seu efeito. O fato de chegar ou não até ao aniquilamento final depende do peso do impulso que o ser quis lançar em sua revolta.

Deus não persegue e não inflige pena a ninguém, mas é pela própria mecânica do fenômeno, que o rebelde se condena e se penitencia por si mesmo, quando livremente quiser esse caminho. A culpa e a sua pena não saem do campo de forças do ser responsável. Cada um por sua conta paga o que deve e recebe o que merece. O S fica perfeito e inatingível, acima de qualquer revolta e queda. Não é possível vencer Deus. Quem procura fazer isto, vence a si próprio. Se a vontade do filho é a de destruir a obra do pai, ele atinge o seu escopo, porque acaba destruindo a si mesmo, que é a obra do pai.

A destruição de espírito, trata-se da destruição apenas da particular individuação da substância que constitui o ser, não da substância que o constitui. Só essa individuação, que com a criação teve princípio, pode ter fim; mas a substância eterna, que não teve princípio, não pode ter fim. Também esse processo do aniquilamento da individuação é regido pela ordem do S e tem que desenvolver-se segundo as regras precisas que aquela ordem impõe.

Concluímos esse assunto com um exemplo prático. Neste caso acontece como se tivéssemos uma estátua feita de matéria indestrutível. Esta matéria não pode ser destruída; pode-se, no entanto, anular a sua forma de estátua. Se a mesma é de bronze, fundindo a estátua o bronze permanece, mas não a forma de estátua, que não existe mais, porque como  tal ela foi aniquilada, enquanto fica intacta a sua substância, que é o bronze. No caso que observamos, a substância espiritual, sendo indestrutível, volta à origem, à fonte que a gerou, reabsorvida em Deus. Sendo Ele um infinito, não pode por isso ser aumentado nem diminuído, e tudo permanece inalterado e inalterável, seja qual for a quantidade (n) que se lhe acrescente ou que se lhe diminua (infinito + n = infinito ou infinito – n = infinito).

Eis o que quer dizer destruição do espírito, o que, bem entendido, é concebível e lógico. Eis como a sabedoria de Deus resolve este caso, em concordância e harmonia, satisfazendo todas as exigências opostas.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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