A Sabedoria da Lei

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Como se pode conciliar essa invencível vontade da Lei de realizar a salvação, com o livre arbítrio do ser?

Se é a Lei que tem de atuar, e se o ser está fechado dentro dela sem possibilidade de evadir-se então, ele não é mais livre. Eis que encontramos aqui a Lei em conflito consigo mesma, porque vemos existir nela dois princípios opostos: o do domínio absoluto da Lei e o da liberdade do ser.

Posição de plena contradição, porque num momento a Lei quer a liberdade do ser, e num outro ela quer a sua obediência. Como se resolve esse conflito?

O fato é que a Lei foi elaborada para o ser funcionar nela por convencimento, para ser obedecida espontaneamente e não à força. O constrangimento não existia no S e somente apareceu fora dele com a revolta, com a necessidade de salvação dos rebelados. Nem a Lei é responsável pela desobediência. Previu porém, a doença e a cura, que atinge com o constrangimento, de outro modo não seria necessário. Ele não é concebível no S, e sim fruto do AS.

Se a Lei realiza essa coação, ela o faz somente para o bem de quem errou. De fato é justo que o rebelde sofra as consequências da desordem que semeou e no sofrimento experimente para aprender a lição e assim não cair mais.

Mas será que o Deus verdadeiro escraviza recorrendo à força?

Toda a ação Dele neste caso não vai além do que chamamos: a reação da Lei. Mas isto não é escravidão, porque o ser não fica de modo algum constrangido pela força. Aqui não há nem força, nem coação direta. Deus não tira, nem poderia tirar a liberdade á criatura, porque deste modo faria dela um autômato. Se isto houvesse sido possível, Deus teria antecipadamente resolvido todo o problema da queda, criando uma máquina perfeita e, por isso, totalmente obediente, e não um ser livre e consciente.

Tudo o que aconteceu na tirania da revolta é exatamente o efeito da inviolável liberdade do ser. Se a Lei reage é porque o ser foi deixado livre para violá-la; e se ela continua reagindo, é porque o ser está livre de continuar violando-a quantas vezes quiser. Mas isto não pode significar que Deus renuncie aos Seus planos e deixe nas mãos da criatura o poder de emborcar e destruir toda a Sua obra. Tanto mais que isto seria a destruição também do rebelde que a quis Tudo que o ser pode realizar com a revolta transforma-se em seu próprio prejuízo. Eis perfeita justiça e equilíbrio, o efeito tem de ser proporcionado à causa.

A criatura não gosta de receber punição e quereria uma liberdade que lhe permitisse fazer o mal sem ter de ficar sujeito às consequências. O poder de violar a Lei e ter, por isso, de pagar, não é liberdade para o ser, que a chama de escravidão. Ele se rebela ao amargo remédio.

Mas como pode o médico não procurar curar a doença e, para satisfazer o doente, suprimir o amargo remédio e assim paralisar a sua ação salvadora?

Como pode Deus deixar de impulsionar a criatura para o caminho da evolução se, embora duro, esse é o único que leva para o S, onde somente é possível encontrar a salvação?

Com a revolta o ser se tornou ignorante e agora ele é tão louco que vai procurando a plenitude da vida na morte, no AS. O ser é um emborcado, e quer continuar a descer. Se ele não fosse pela dor constrangido a endireitar o seu caminho para a subida, ele se aprofundaria sempre mais no pântano, até à sua destruição.

Esta não pode ser uma solução, nem a pode permitir um Deus que gerou a criatura para a vida e não para a morte. Eis, então, que no meio do triângulo verde (AS), aparece a linha vermelha da Lei, ou evolução, que representa a salvação. Todo o fenômeno se desenvolve em cada momento com perfeita logicidade.

Ora, a sabedoria da Lei tem de conciliar as soluções de dois problemas opostos: o da necessidade de salvação e o do respeito à liberdade individual. A salvação tem de ser atingida, porque se o não fora, fracassaria toda a obra de Deus. Mas ao mesmo tempo ela não pode ser realizada à força, porque o ser não pode regressar ao S como escravo. No S não há lugar para escravos. Eis então que a solução dos dois problemas é dada pela reação da Lei.

A função dela não é a de impor-se à força, mas a de ensinar e educar. E à força não se educa.

Então a Lei deixa o ser livre de experimentar para aprender. Com a sua reação ela não escraviza, mas educa. Com a dor a Lei ensina a lição e com essa aprendizagem, ela reergue o ser para salvá-lo.

Se olharmos bem veremos que há uma razão mais profunda para tudo isto.

A reação da Lei em substância não é o que ela parece, isto é, o resultado duma vontade contrária inimiga, no terreno do ataque e defesa; mas é o automático efeito da negatividade que o ser com a revolta produziu na positividade o S. Trata-se duma auto-reação contra si mesmo, devida à posição emborcada em que o ser se quis colocar com a revolta. Com esta ele só renegou a si mesmo, não alterou a Lei como pensava, mas só mudou a si próprio dentro dela que continuou indestrutível, apesar de tudo, indelevelmente escrita dentro de si, porque constituía a sua própria natureza.

Pensando renegar a Deus, com a revolta a criatura só renegou a si mesma. Sendo ela um elemento do Sistema de Deus, agindo contra Deus ela agiu contra si, de modo que o que agora aparece como reação da Lei não é na realidade senão a reação da íntima e própria natureza do ser contra a sua revolta, que o levou para a dor e para a morte, enquanto ele não pode deixar de querer a felicidade e a vida.

Não há escravagismo algum nisso. O ser ficou perfeitamente livre de continuar a aprofundar-se à vontade na dor, até anular-se. Por isso, para que não seja violada a sua liberdade, foi que tivemos de admitir a possibilidade até da sua destruição final como individuação ou eu pessoal, “eu sou”, no caso limite de ele querer insistir na revolta e aprofundar-se na negatividade até ao aniquilamento da sua positividade como elemento do S.

Então, se há reação da Lei, esta na substância não é senão a reação do ser que não quer sofrer e morrer. A escravidão dele é dada pelo fato de ser ele indestrutivelmente  cidadão do S, filho de Deus, isto é, da felicidade e da vida. O constrangimento depende apenas do fato de que o ser não pode viver fora do S, nem deixar de ter de voltar para o S. E se ele hoje se encontra nesse impasse de estar situado no AS, isto foi devido exatamente ao fato de ser ele livre, e de ter querido sê-lo demais. Enquanto o ser estava no S, estava cheio de liberdade, mas perdeu-a pelo mau uso que fez dela. Assim o ser se lançou por si próprio na falta de liberdade não lhe restou senão o endireitamento do erro, se não quiser piorar sempre mais as suas condições e sofrer mais ainda. Não há coisa alguma que possa sair de Deus e da sua Lei, feita de justiça e ordem, e a Ele não voltar. se os equilíbrios foram deslocados, não resta outra alternativa senão reequilibrá-los. Se o ser quis lançar-se na negatividade do AS, agora não há para ele outro caminho a não ser o de reconstruir a positividade perdida do S.

Tudo isto é consequência natural e automática da estrutura do S. Não se trata de escravidão, mas da necessidade de reintegrar os rebeldes na posição de filhos do Pai.

Esta é a lição a aprender: é absurdo e impossível encontrar a positividade da negatividade, a felicidade na revolta, uma vantagem no emborcamento. Isto nos explica a função educadora e saneadora da dor, cuja presença assim se justifica, de acordo com a bondade de Deus, como instrumento seu para atingir o nosso bem. A este Ele nos leva, respeitando a nossa liberdade e usando um método duplo, isto é, o do livre arbítrio nas causas, e do determinismo nos efeitos: o primeiro temperado, corrigido e retificado pelo segundo. É o método da livre semeadura e da colheita obrigatória. Assim a sabedoria de Deus soube conciliar a necessidade de o ser ficar livre, com a necessidade de que ele seja salvo.

Maravilhosa escola na qual os alunos, ficando livres, têm necessariamente que aprender e subir.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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