A Eliminação do Ser

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Temos falado de destruição e eliminação do ser. Como é que isto acontece?

Não é que Deus o queira destruir à força, o que sereia pior que tirar-lhe a liberdade. A destruição do ser está implícita na própria estrutura do fenômeno. O ser não fez na liberdade o uso para o qual ela estava destinada, isto é, no sentido positivo, construtivo, mas a empregou às avessas, em sentido emborcado, isto é, negativo, destrutivo.

É lógico que, com a revolta o ser, aprofundando-se cada vez mais na negatividade do AS, por si mesmo acabe destruindo-se e eliminando-se.

É lógico que, no caso limite da revolta perpétua e definitiva, o ser tenha que atingir o extremo do processo de emborcamento da positividade na negatividade, isto é, um estado de destruição completa de toda a positividade e de absoluto triunfo da negatividade, o que quer dizer o nada.

É automático e fatal que, por sempre querer negar tudo, o ser rebelde acabe negando até a si próprio, até ao seu próprio aniquilamento.

Não quis ele, usando a sua  livre vontade, destruir todas as qualidades positivas que possuía no S?

E o que pode ficar quando tiramos de uma entidade tudo o que é positivo?

Não pode ficar senão o nada.

Eis a solução, automática e fatal, implícita no próprio fenômeno da queda, sem intervenções coativas e exteriores. É o próprio fato de ter o ser desejado com a revolta escolher o uso do método da negação, que fatalmente deve levá-lo para o seu aniquilamento do nada.

Tudo é simples e claro, regido por uma lógica perfeita, como num processo matemático. A dificuldade em compreendê-lo está no fato de que estamos acostumados a pensar antropomorficamente e ficamos fechados nessa forma mental, também quando enfrentamos esses problemas. Por isso eles não são equacionados de modo certo e, não encontrando explicação, tudo tem de acabar na fé cega e no mistério. Mas esta não é solução, não pode ser aceita hoje, que a mente humana vai amadurecendo. Deus não é exterior aos fenômenos, como o é o homem que vive no relativo. Seria pensar antropomorficamente.

Deus é interior a tudo o que existe, como o nosso eu é interior ao nosso corpo e nele age, o movimenta e cura, por dentro e não de fora para dentro.

Continuando o nosso processo lógico, poder-se-ia, porém, contrapor esta dificuldade: o ser, criatura filha de Deus, é antes de tudo espírito, constituído da substância de Deus que é eterna. Ora essa substância e o espírito feito com ela, porque não tiveram origem, não podem ter fim, porque não foram criados, não podem ser destruídos.

Respondemos: que foi criado na primeira criação realizada por Deus?

O que nasceu não foi a substância, mas a sua individualização pessoal, que constitui o ser. A substância de Deus é a sua obra que, com a criação, foi transubstanciada no particular modelo da individuação pessoal. Somente esta individuação teve um nascimento. Por isso, ela somente pode morrer.

Então o aniquilamento final de que aqui falamos, se pode referir só a essa individuação, que constitui o ser, e não à eterna substância da qual ele é constituído. Eis que, quando entendemos o conceito de destruição e aniquilamento neste sentido, tudo se torna lógico, claro e admissível.

Tudo isto é também justo, porque o rebelde, neste caso, acaba destruindo somente a si próprio e nada mais, só a sua individuação, seu eu pessoal e nada do que pertence ao S, à Lei, nem aos outros elementos que não se rebelaram ou que escolheram recuperar o que tinham perdido, seguindo o caminho de volta. Assim o mal fica sempre fechado em si, isolado, levado à destruição só de si próprio, quando o singular elemento livremente o quiser. Ninguém pode ser infectado por essa doença, que mata só quem a gerou dentro de si e quis depois, definitivamente, aceitá-la.

Tudo isto é justo, também, porque a destruição do ser é o retorno contra ele, do impulso de destruição que ele com a revolta lançou contra o S.

Quanto mais aprofundamos a nossa pesquisa para compreender a estrutura da Lei e as suas reações, tanto mais nos apercebemos que não há um Deus à imagem e semelhança do ser humano que intervém premiando ou punindo. Os fatos falam diferentemente. Deus não opera nesta forma antropomórfica.

Embora Ele exista em forma pessoal no Seu aspecto transcendente, em nosso universo não O encontramos, a não ser no Seu aspecto imanente em forma impessoal, presente a todos os fenômenos e individuações do Ser. Então, quando nós violamos a Lei e ofendemos Deus, não é que a Lei reage ou que Deus pune; são as forças do S que nos devolvem os impulsos que lançamos contra Ele. É o retorno dos nossos próprios impulsos que ricocheteiam para trás, que proporciona a reação à ação e as equilibra, constituindo a base da justiça divina.

O que os fatos nos dizem a respeito da natureza de Deus, é diferente do que o homem, pensando antropomorficamente, até agora imaginou. É difícil para ele, acostumado à incerteza da escolha e tentativa, própria do seu estado de imperfeição, compreender esse estranho modo de operar segundo um determinismo automático que parece mecânico, porém, age com lógica, justiça e segurança absolutas, como só pode acontecer na obra perfeita de Deus.

Somente encarando-o assim, em sua profundidade, podemos compreender o problema da destruição do ser.

A Lei automaticamente nos devolve, em bem ou mal, o que de nós recebeu. Os seus equilíbrios se restabelecem à nossa custa, na medida em que nós quisermos deslocá-los. Qualquer que seja o dano que fizermos, temos de restaurá-lo. O fenômeno da evolução se baseia nesse princípio. Temos que reconstruir os equilíbrios da Lei, na medida em que os violamos. Assim acontece porque quando saímos da ordem da Lei aparece a dor, que nos continuará golpeando até regressarmos àquela ordem.

A dor não é o efeito duma intervenção de Deus, mas é a carência da harmonia de forcas da qual depende a nossa felicidade. Cada revolta nossa destrói essa harmonia, lançando-nos na desordem e carência que se chama dor. Assim, a cada afastamento da Lei, tem que corresponder uma proporcional aproximação junto dela.

Então, é lógico que com o esforço da evolução se possa pagar uma revolta temporária, corrigindo o seu impulso limitado, percorrendo em subida o caminho feito em descida. Mas quando a revolta é completa e definitiva, não há subida que possa corrigi-la facilmente, tão grande é a desordem provocada. O ser tanto se aprofundou, que  é difícil recuperar-se. Ele, não pode ressuscitar do seu negativismo, daí a razão do seu aniquilamento.

Tudo é lógico. Com a revolta o ser procurou destruir a obra de Deus. Mas a  obra de Deus a respeito do ser foi a de cria-lo. O seu estado de criatura como eu individualizado, é exatamente o produto da criação. Então o ser, revoltando-se contra a obra de Deus, se revolta contra a sua própria existência e procura destruí-la. A individuação do ser representa um campo de forças, dentro do qual só lhe é permitido agir, e não pode sair dele.

Isto quer dizer que o S, a obra de Deus, é inatingível pela criatura, que é dona só do que lhe pertence e é livre somente para se destruir, a si mesma, seja temporariamente, recuperando-se depois com a evolução, seja definitivamente, se quiser para sempre insistir na revolta.

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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