História de um Homem

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Em certa ocasião havia um homem, um homem julgado estranho porque, de certo modo, era diferente da maioria, e, por isto, condenado pelo mundo.

A maioria, que faz a verdade na terra, não conseguia encontrar nele nem as próprias qualidades, para exaltá-las, nem seus próprios defeitos, para tolerá-los. Para o tipo corrente, reproduzido em série como as formigas, ele representava um modelo inaceitável, porque diverso da série normal; constituía um escândalo porque escapara à lei comum e representava uma substancial subversão de valores. Mas como?

Se na terra, certo ou errado, vigora a convenção de que o que mais vale é a riqueza, o poder, o domínio sobre tudo e sobre todos, e que a vitória alcançada nesse terreno é a medida do valor e, pois, da estima e do respeito a que se tem direito; se esta é a lei desse mundo, e, se esse mundo havia, durante dois mil anos, congregado ingentes esforços para dobrar e entortar os ideais afirmados pelo Evangelho a fim de evitar alterações daquela lei, qual a incômoda loucura daquele homem que teimava em tomar a sério e viver de fato aquele Evangelho?

Eis como se esboça, imediata, a adversidade entre os dois tipos biológicos e suas formas, mentais. Aquele homem havia-se encontrado fora da terra, como se nela houvesse nascido por engano, num ambiente que não era o seu, e, desde criança, perguntara-se se os outros eram seus semelhantes e se  ele era a eles semelhantes, tão diversos e irreconciliáveis eram os impulsos que movimentavam suas vidas. Não conseguia ele fazer o que religiões e leis procuravam, por ameaças e sanções, proibir a todos e, espontaneamente, sentia-se conduzido a cumprir aqueles deveres que por elas eram exigidos.

Não conseguia compreender duas coisas:

1º) como era possível atuar na vida se não em razão do temor do próprio mal e não por convicção e dever;

2º) como o homem possuía tão grande desejo de fazer tudo quanto religiões e leis vetavam com tanta energia.

Seriam tão diversos dos seus os instintos de seus semelhantes?

Viu-se, então, obrigado a começar o estudo mostrando de que modo estaria feito aquele diferente tipo biológico que constituía o seu próximo, da mesma forma como se estuda um exemplar de uma raça desconhecida da qual se não conhecem as qualidades e os hábitos.

Por outro lado, aquele homem que agia com honestidade e bondade, que não agredia ninguém e perdoava, encontrava louvores, mas isto porque, desse modo, podia ser utilizado melhor para os próprios interesses. De certo que se torna vantagem, para quem mais procura tomar do que dar, ter de fazer com quem procura mais dar do que tomar. Mas, quando ele chegara ao ponto de não defender-se do agressor e de oferecer a outra face, ao ponto de ajudar o seu inimigo, então, ainda que encobertamente, o julgaram com desprezo, um débil e um covarde, um inepto que os mais fortes têm direito e quase o dever de eliminar.

O que se pode fazer, na vida prática, de um homem constituído assim, ao inverso?

Desse modo o mundo o considera como um doente mental e o tolera, compadecido dele, na melhor das hipóteses, como se olhasse para quem nasceu estropiado. Era perdoado porque não fazia dano a ninguém; chegaram, até, a exaltá-lo quando podia ser explorado. De seu lado, ele sentia que não lhe, era possível prostituir sua inteligência em lutas mesquinhas, achando de seu dever usá-la toda para o bem do próximo e para as coisas superiores do espírito, antes que usá-la em seu egoístico interesse. Não conseguia encerrar-se no seu próprio egoísmo, sem nele incluir e abraçar todos os seus semelhantes.

Não o conseguia. Parecia ter nascido como uma doença incurável, sem remédio. Em face do mundo ele aparecia como um aborto, um biótipo errado, como uma contradição biológica desprezada por todos. Na corrida geral para a vida, todos o expulsavam, e o deixavam de lado. Quem tinha razão? Ele, ou o mundo? Era ele o estrangeiro em terra alheia, o fora da lei, aquele que não possui direito a vida que era direito de todos.

Que fazer? O antagonismo e a inconciliabilidade eram insanáveis.

Não podia renunciar a ser ele mesmo. O seu mundo interior, que expressava a sua verdadeira natureza, clamava dentro dele e ele não conseguia silenciá-lo.

É mais fácil remover uma montanha do que mudar um tipo de personalidade, fruto de quem sabe quantos milênios de vida.

O seu mal era congênito e fazia parte de sua própria natureza. Não havia remédio que o pudesse sarar. Encontrava-se ele numa espécie de incapacidade de adaptação a lei biológica que se lhe deparava como a da animalidade e que, por isso, não conseguia aceitar de nenhum modo. Sua natureza rebelava-se; melhor seria renunciar à vida, antes que reduzir-se aquele nível. Sua natureza recusava-se a ocupar-se das normais astúcias para tirar benefícios concretos.

Não aspirava alcançar o tão admirado sucesso, muitas vezes obtido em prejuízo do próprio semelhante, nem conseguir a vitória que esmaga o próprio semelhante, não obstante o mundo considere isto como prova de valor. Os valores que ele almejava conseguir eram de natureza completamente diversa e ele não conseguia ocupar-se senão destes. Sentia uma invencível repugnância contra as vitórias do mundo e as rejeitava com nojo. Ele as havia analisado e conheci-as, e não era bastante ignorante para deixar-se iludir.

Procurava os valores eternos que não se tornam ilusões.

Aquele homem havia identificado os seus ideais e instintos no Evangelho. Se a sua era uma doença, podia ser denominada a doença do Evangelho.

Enquanto este é lido, comentado, pregado, repetido, pacificamente, sem incômodo, sem deslocar nada da própria vida, do mesmo modo é costume com tantas mentiras convencionais, o Evangelho alcançar aprovação plena do mundo. Mas é considerado doença quando alguém pretende vivê-lo seriamente; praticá-lo deveras, nos fatos, não como coisa aplicada na superfície da pele, mas fundida no sangue, como parte da própria vida. Torna-se, então, um escândalo também entre os crentes, quando se fazem as coisas de verdade, quando, depois de tanto trabalho e esforço de adaptação, se haja conseguido alcançar um resultado feliz, ficam todos de pleno acordo, o que bastaria um consentimento formal exterior.

Esta é a linha traçada pelos costumes do mundo, é a lei consagrada pelo uso, consolidada pela prescrição. Desobedecer a esses costumes constitui bem grande incômodo para os bem-pensantes, importa numa espécie de revolução no meio de todas as adaptações tão bem destiladas, produto de esforços seculares.

Por certo que os gênios, os heróis e os santos levaram a efeito estas revoltas, mas quem pensa em imitá-los? Eles estão no alto, sobre os pedestais dos monumentos, nos altares, lá em cima, fora da vida prática que possui bem outras exigências. E, se viveram, isto se deu quem sabe onde ou quando, por certo bem, longe das nossas férreas necessidades de todo dia, e mais longe ainda fugiram para os seus céus inacessíveis. O que fazer então?

Impossível é a evasão do dever da vida sem incidir em maior dano. Devendo aceitar a vida e tendo de vivê-la nessas condições, o nosso personagem não pode fazer outra coisa a não ser transformá-la em missão, tudo sofrendo pelo bem alheio, ajudando no caminho da evolução. Vida de sacrifícios. Mas quem mais possui, não pode possuir somente para Si; a quem está na frente compete o dever de fazer com que os outros, também, se adiantem. Se ele, no seu passado, havia experimentado e vivido de larga forma o Evangelho, se o havia assimilado e, dele, pela repetição constante, havia constituído para si aqueles automatismos que formam os instintos, competia-lhe guiar os outros no mesmo trabalho de assimilação.

O que representava para ele o seu passado, constituía o porvir dos outros, e a esse futuro é preciso chegar.

Eis como era inevitável o choque, no encontro entre instintos, completamente diversos, no embate entre duas fases de evolução e suas respectivas leis. Trabalho duro, de combate tanto mais difícil, porque pelo menos de um lado, devia ser mantido sem armas.

Quem, então, defenderia esse homem contra o mundo?

Este opunha-lhe os próprios métodos e dizia-lhe: quem esperas que venha em sua defesa se não sabes defender-te por ti mesmo? Pior para ti se, por amor ao Evangelho, renuncias à guerra! De certo, os gênios, os heróis e os santos já fizeram tudo isto e o mundo os admira. Mas admira-os hoje porque, de alguma forma, deram prova de haver sabido vencer, e o mundo respeita o vencedor em qualquer campo, porque vencer significa ser o mais forte. Por isso é que agora são aclamados. Mas antes que aqueles grandes conseguissem afirmar-se, antes que admirados, foram desprezados e condenados.

Alcançamos o ponto crucial da questão. Delineado está o conteúdo de A Grande Batalha. Eis os dois tipos biológicos que se defrontam e empenham-se na luta com armas desiguais. Quem vencerá? Eles representam dois mundos. Quem é o mais forte? Quem triunfará?

A Batalha desenvolve-se em dimensões diversas entre os dois planos de evolução sobrepostos, que conduz o homem a um plano biológico mais elevado, da animalidade à espiritualidade, a batalha da superação, do verdadeiro progresso, mais profunda de princípios e de métodos.

A evolução revelar-nos-á a sua técnica ascensional, que é a escada com a qual o homem pode alcançar o céu.

Adquirir o conhecimento e possuí-lo significa ser mais forte, e dá o triunfo.

Livro: A Grande Batalha

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/AGrandeBatalha.pdf

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