Síntese Cíclica

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Analisemos melhor esse importante movimento em sua intimidade, observando mais de perto sua mecânica de funcionamento. Torna-se-nos agora fácil compreender que a espiral evolutiva está subordinada a um duplo pulsar, que nada mais é que a reverberação dos dois movimentos primários que formaram nosso universo: a contração e a subsequente expansão. Por princípio de inércia, esses dois movimentos prototípicos do cosmo caído seguem repicando-se na correnteza do tempo, até que o atrito com a grande Lei terminará por extingui-los, pondo fim assim à oscilação evolutiva, quando o ser atingir sua máxima dilatação possível.

Logo todos os filhos da queda estão impulsionados por essa agitação constante, esse bailado fundamental, feito de idas e vindas. Subir sempre, mas sofrer, de forma entrecortada, o eco de contração da queda inicial, é agora automático e inevitável determinismo imposto pelo princípio de inércia. Então, ainda que a contragosto, todos terão de submeter-se a essa estranha maneira de existir: nascer e morrer, crescer e degenerar-se, surgir e desaparecer, ora no mundo físico ora no plano espiritual, vivendo uma eternidade oscilante, em vidas entrecortadas, a acossar a consciência caída em infindos e alternados ciclos de mortes e renascimentos.

Eis a origem do fenômeno da morte, irmãos. A morte é a eternidade fracionada pela contração da queda, a reverberar-se nas pegadas do tempo. É fruto do nosso motim de origem, que fez adoecer o atributo da Eternidade que herdamos do Pai. É consequência de nossa degeneração espiritual e não da vontade de Deus, que é apenas Vida. Eis exatamente por que o Cristo veio devolver-nos o impreterível tesouro da Vida eterna, que perdemos com o primeiro levante.

O caminho da redenção faz-se assim dificultoso, não pelo desejo do Criador, mas em decorrência dos impróprios impulsos a que nos embalamos pela primeira revolta. Depois de cada laboriosa subida, somos obrigados a sofrer, no palco íntimo, a ação deletéria da degeneração, da destruição e da morte. Morte que, como sabemos, jamais é definitiva, pois, ao aplacar-se momentaneamente o impróprio impulso de queda, tornamos a construir novo veículo de manifestação, em nova expansão, até o dia em que deixaremos a exaustiva roda de idas e vindas, de mortes e renascimentos que caracterizam os ciclos reencarnatórios, para então estabilizar-nos na verdadeira Eternidade.

Observemos, contudo, um importante detalhe. Cada movimento subsequente de contração não se precipita no exato ponto de partida, porém em um local mais acima, de modo que todo fenômeno, na escalada da vida, irá subir três degraus, para descer dois, tornar a subir três, e novamente descer dois. A subida é na verdade o abrir-se da espiral, e a descida, sua curva de contração involutiva. Desse modo as volutas da espiral evolutiva abrem-se e fecham-se, para tornar a abrirem-se e fecharem-se mais além, fazendo-a expandir-se sempre em seu conjunto final. De maneira que, paulatinamente angaria-se, em cada etapa, um degrau de subida, fazendo da evolução caracteristicamente uma trajetória de expansão permanente em seu produto final. Analisado em seu conjunto, o movimento resultante desenhar-se-á como um traçado de dilatação constante, enquanto, na sua intimidade, ele permanece oscilante.

A evolução, portanto, em última análise, é um movimento circular pulsátil, fazendo do progresso um processo cíclico e permanente. E assim, ela impõe-nos a arte de experimentar e aprender para depois aparentemente olvidar, para outra vez reexperimentar e reaprender, até fixar suas lições em forma de automatismos. Dizemos então, irmãos, que a evolução configura, em última análise, uma síntese cíclica, e completamos seu conceito definindo-a como a lei cíclica do progresso.

A lei cíclica da evolução diz-nos então que todo impulso de expansão encontra seu limite, deixando-se dominar periodicamente por novo pulso de contração, depois tornar a expandir, para outra vez contrair, e assim sucessivamente. Esse princípio, contudo, limita cada contração a uma posição acima de seu anterior ponto de partida, de modo a produzir em seu conjunto, como já nos referimos, uma ascensão constante.

Desse modo, a lei cíclica da evolução impede que cada fenômeno cresça continuamente sem jamais se deter, e impõe a todos a contração e a morte, que os levam a desfazer o que construíram, em aparente extinção.

Extinção que nada mais é, no entanto, ponto de nova expansão, permitindo a todos a permanente reciclagem de todos os seus valores. Esse movimento termina, assim, à custa de sucessivas repetições, por fixar indispensáveis automatismos nos domínios do ser, carreando-o à impreterível e final perfeição. Eis por que todos vivem, sob o constante martelar da dor, embalados por inestancáveis forças construtivas e destrutivas. São forças que, agora sabemos, nada mais são que a reverberação dos dois impulsos prototípicos desencadeados pela retirada do espírito do Plano divino.

Todos os fenômenos que existem nas plagas relativistas estão inexoravelmente subordinados, por força de Lei, a essa dinâmica evolutiva cíclica. E não apenas os fenômenos biológicos, como as aparências nos levam a julgar, mas igualmente os elementos chamados inertes, que em nada se diferenciam dos “vivos”. Todos vivem essa alternância entre construção e destruição, entre vida e morte, entre o “ser” e o “não-ser”, ao longo da linha do tempo. Por isso nascem, crescem e morrem as galáxias e as estrelas, assim como as partículas atômicas, à semelhança dos seres vivos. Não vemos os sóis nascerem por concentração gravitacional e extinguirem-se por exaustão dinâmica? Não assistimos ao próprio átomo brotar com o hidrogênio, medrar e desenvolver-se na escala periódica dos elementos, para morrer através da radioatividade? Pois estamos diante de uma inexorável lei fenomênica que subordina todos os seus filhos à oscilação constante entre evolução e involução.

A evolução produz crescimento e desenvolvimento. A involução resulta em degeneração, contração e aparente perda dos valores arquivados pelo progresso. Esses dois pulsos antagônicos de que se compõe a dinâmica do progresso estão sempre presentes, abraçados no palco fenomênico. E facilmente os denotamos na realidade de nossa análise. Observemos o metabolismo celular: ele está feito de uma fase de crescimento, chamado anabolismo, no qual a célula absorve matéria orgânica, sintetiza substâncias essenciais à vida e promove o desenvolvimento do organismo ao qual pertence. Mas o trabalho da unidade biológica tem sua limitação, ele possui uma segunda etapa, a de repouso e de contração, chamado catabolismo, através do qual a máquina celular excreta, perde massa e repousa. Aí vemos o duplo movimento evolução-involução em ação, a se refletir no dinamismo de que se compõe a própria vida: anabolismo e catabolismo. Na metade inicial de existência dos seres vivos, predomina o primeiro impulso, o anabólico, produzindo crescimento. Mas na segunda, ao curvar-se a onda vital, o pulso catabólico passa paulatinamente a imperar, levando à progressiva deterioração das forças biológicas, conduzindo os moldes orgânicos à sua completa extinção, através da morte. Assim funciona o metabolismo da vida, subordinado à mesma fenomenologia que tudo agita em nosso universo, sob a inestancável alternância entre declínios e ascensões.

Se a primeira fase do movimento é do domínio da queda, a segunda representa a ação divina em favor do ser que caiu, soerguendo-o sempre do báratro de destruição em que se atirou. A maravilhosa e sábia interferência do Criador, atuando pacientemente na substância do espírito, cuida então de reerguê-lo sempre após cada pulso de reverberação das forças degradantes da grande derrocada, até levá-lo a superá-las por completo na Ressurreição gloriosa, no final dos tempos. E assim, o binômio involução-evolução é, em seu começo e fim, queda e salvação.

Analisemos ainda mais detidamente a resultante desses movimentos inerentes à dinâmica evolução-involução em nossa vida: nascemos de uma única célula, um óvulo fecundado, no qual depositamos todas as potências que até então desenvolvemos, fortemente contidas pelo pulso de contração que antecede a fecundação.

A cada mergulho na carne, repetimos, desse modo, o movimento inicial da queda: a contenção das potencialidades do espírito. Logo, fazemo-nos, a cada incursão na carne, uma nova semente de ser.

Experimentamos por isso, no restringimento ou miniaturização perispiritual que precede a reencarnação, nova contração da consciência, reproduzindo nossa primeira morte. Mergulhamos na inconsciência e apagamo-nos para a realidade exterior, sofrendo a precipitação na unidade celular. Presos e embatumados no óvulo germinado, no invólucro uterino, sujeitamo-nos ao ricochete das forças contidas e, repetindo o mesmo movimento inicial que formou o universo físico, “explodimos”, na fenomenal expansão embrionária. Nessa espetacular explosão sabiamente orientada, crescemos vertiginosamente, até que, em nove meses, tornamo-nos um organismo possuído de cem trilhões de células. Nada na natureza expande-se com tamanho ímpeto e tal velocidade de crescimento. A consciência recompõe-se, restituindo-se, ainda que parcialmente, preparando-nos para nova  aventura na carne. Uma vez atingida a metade da vida física, o pulso de crescimento, entretanto, será detido, deixando-se outra vez dominar pelas forças involutivas, às quais produzirão a progressiva degeneração orgânica  do envelhecimento. Novamente assistiremos em nós a aparente derrocada de todas as conquistas arquivadas na experiência terrena. Perdemos raciocínio e memória, agilidade e força, dissipando-se todas as nossas conquistas, que, na verdade, não se perdem, mas se recolhem nos arcanos do ser. Resumidas a uma síntese de conhecimento, nossas lições aí permanecem adormecidas, prontas a tornar à atividade em nova expansão, a qual inevitavelmente experimentaremos na nova fase que a onda da vida nos proporcionará. Enfim, morremos, devolvendo à arena física o que dela tomamos por empréstimo. A consciência adormece outra vez na inconsciência. É a queda, a qual tanto tememos, a reverberar-se outra vez nos recessos de nossa alma, atestando-nos sua incontestável realidade. Entretanto, como a morte jamais é definitiva, ressurgimos para vivenciar nova expansão, agora no mundo espiritual. Nossa consciência torna a expandir-se, carreando com ela o perispírito, que se refaz em nova reciclagem, recompondo-nos todos os valores e forças que arquivamos em vida. Essa nova expansão permite que nos expressemos neste mundo do além com a mesma personalidade que vestíamos na carne.

Nossa lembrança é refeita, preparando-nos para outra etapa de aprendizados no campo das experiências evolutivas. Até que novo impulso de contração obrigar-nos-á a novo retorno à carne, fechando-se o ciclo. Eis a grande onda da vida, alternando-se em ação no plano físico e no plano espiritual, repetindo seus movimentos por automática inércia, fazendo da existência na carne e fora dela duas fases complementares de uma mesma onda. E assim, queiramos ou não, somos seres subordinados, pela queda de origem, ao duplo impulso contração-expansão, que em última análise, é a reverberação dos embalos de involução e de evolução que agora integram nosso campo consciencial oscilante.

Embora se caracterize como um movimento desvantajoso para o espírito que quisera ascender sempre sem jamais retroceder, a etapa contrativa é, não obstante, aproveitada pela sabedoria da Lei em seu benefício.

A degradação não caracteriza unicamente um prejuízo, pois como um embalo, ela potencializa nossas ínsitas forças ascensionais. Submetidas à temporária contenção, estas se lançarão, no rebote compensatório, com muito maior ímpeto à escalada do progresso. Desse modo, a subida, realizada em pulsos de ascensão entrecortados por descensos periódicos, torna mais confortável a escalada evolutiva rumo ao Reino de Deus, que de outra forma seria estafante e mesmo impossível.

Francisco se deteve a mostrar-nos, qual fita cinematográfica em rapidíssima reprodução, a caminhada do ser humano, partindo do fenômeno de restringimento perispiritual, que antecede a reencarnação, passando pelo desenvolvimento embrionário até sua maturidade e o novo recolhimento degenerativo da velhice, terminando com a desintegração cadavérica e a restituição de sua organização perispirítica ao estado inicial, após o desenlace.

Patenteavam-se aos nossos olhos os nítidos movimentos de contração e expansão presentes em nossa própria intimidade fenomênica, de modo que, dificilmente poderíamos negar aquela realidade que a todos nos assiste e nos conduz como uma inestancável onda em ação nos mares da vida.

 

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