Queda e Ascensão  

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Como vemos, a temática da queda entranha todos os escaninhos da realidade em que vivemos, tornando-se particularmente indispensável para se aclarar adequadamente a evolução em seus mais íntimos mecanismos. “Somente sobe aos céus quem de lá desceu”, aferiu-nos o Cristo, atestando-nos que não nos é possível estudar a ascensão evolutiva sem abordar os postulados da falência do espírito. Uma vez que a evolução nada mais é que a natural reação à contração involutiva que sofrera, seus fundamentos estão inexoravelmente conjugados.

A queda do espírito favorece-nos entender por que o devenir é movimento de ablução do ser. Deus não poderia criar almas permanentemente carentes de purificação através da dor expiatória. Saímos do Absoluto pela revolta, por isso nos contaminamos com o desamor e estamos agora fadados a retornar pela dor, pela fadiga e pela renúncia aos equivocados valores do ego.

Sem esse movimento de degradação não compreenderemos exatamente a razão de o espírito haver incorporado a degeneração e a morte como ferramentas evolutivas, uma vez que Deus é somente Vida. E não poderemos entender por que o mal e a dor fazem parte do nosso pretensamente natural roteiro de crescimento, uma vez que somos filhos do amor e da felicidade. Não elucidaremos por que o passado é sempre um mal a ser superado. E por que o progresso parte dos reinos selvagens, sob o império da barbárie, para conferir-nos, somente muito mais tarde, as benesses do Paraíso. Enfim, não teremos explicações para o fato de a lei do progresso educar-nos, por incontáveis milênios, nas táticas da luta e da barbárie, para depois, apenas muito depois, através da difícil prática da renúncia, exigir-nos a definitiva arte do amor.

A evolução parte então, não das bases primevas e imaculadas da Criação, mas de uma prévia contração degenerativa do ser. Portanto, se aceitarmos que uma involução precedeu a evolução, tudo se esclarece. E então entenderemos por que a linha do progresso é uma permanente luta da sabedoria divina contra valores corrompidos do ser, como a desordem, o mal, a dor, a disputa de egoísmos divergentes, a deformidade, a moléstia e a morte. Atributos que se fazem patentes nas linhas iniciais da evolução e que não podemos atribuir aos dotes divinos. Se os imputarmos à normalidade do caminho que Deus nos traçou para crescer, estaremos ofendendo a sabedoria divina, pois o Senhor haveria de tê-los gerados como base de Sua obra.

A prévia existência da involução equilibra com perfeição a lei da evolução. Desse modo refaz-se a simetria das forças da criação, pois como vimos, por fundamento da Lei de dualidade, não existe na obra de Deus potência alguma com ação em sentido único. Por esse princípio, todo e qualquer impulso deve contrabalançar-se com seu exato oposto. Então é condição sine qua non que a evolução seja nada mais que uma força de oposição à involução. Se negarmos a existência da involução, haveremos de negar também o fundamento de Lei, o que não nos é possível. A Lei é fato fenomênico que se situa muitíssimo acima de nossas parcas interpretações.

Trabalhemos então com o pressuposto essencial da existência em nosso universo do binômio involução-evolução, e assim estaremos habilitados a compreender mais profundamente a mecânica do devenir.

Muitos observadores da atualidade, atentos a uma visão superficial, conceberam a evolução como uma linha de ascensão constante, jamais fadada ao retrocesso. Eis um conceito que precisa ser revisto. A realidade da evolução, ante uma análise mais detalhada, mostra-se diversa daquilo que julgou nossa vã razão. Não edifiquemos novos dogmas sobre a parcialidade de nossas verdades. Observemos simplesmente o comportamento da evolução em seus íntimos aspectos.

Iniciemos recordando que a substância, base para a constituição de tudo o que existe, submete-se, em nosso plano, a dois movimentos essenciais: contração e expansão. Como vimos, esse é o íntimo respiro da substância, a conferir-lhe seu apriorístico e próprio ciclo de funcionamento.

Em nosso universo, submetido à ação da queda, a substância, portanto, tornou-se inexoravelmente embalada por esse duplo impulso. O primeiro representa a fuga da substância do Reino divino, e o segundo, sua reação de refazimento. Já vimos esse binômio em ação na realidade que nos serve, de modo que não podemos negá-lo, por ser patente fato fenomênico. Tudo ao nosso derredor nasce e cresce, para depois se contrair e morrer, para novamente desenvolver e extinguir-se, repetindo sempre o duplo e íntimo pulsar da substância.

Assim vivem as galáxias, as estrelas, o átomo e a própria vida, reverberando em si a dança cósmica, feita de contrações e expansões, que a tudo agita no palco do Relativismo. Esse grande bailado é exatamente fruto dos impulsos de queda e de ascensão que passaram a mover a substância em sua intimidade fenomênica. Animado por esse duplo dinamismo, tudo vive, para morrer e tudo morre, para renascer. E assim o universo degenerado pulsa na impreterível onda queda-ascensão, repicando seus movimentos de subida e descida alternadamente na inexorável trajetória do tempo.

A evolução, em todos os seus domínios, sofre naturalmente a irrevogável ação desse duplo dinamismo, fazendo-se intimamente uma alternância de contração e expansão, nada mais que um eco dos dois primeiros movimentos empreendidos pelo espírito que se retirou do Lar paterno. Logo, irmãos, a evolução não é uma linha de ascensão contínua, mas uma trajetória entrecortada por contrações periódicas, inerentes à própria dinâmica de funcionamento do universo, produzindo-se, na trilha do tempo, um traçado quebrado, feito de subidas e descidas.

Como manifestação linear, a evolução se expressa desse modo como uma linha em zigue-zague. Arredondando-se o ângulo de suas cristas, obteremos o desenho de uma perfeita onda, feita de espículas e depressões. Este é o diagrama da evolução, que definimos então como uma grande senoide. E não poderia ser diferente, pois a vibração é a expressão natural de toda progressão energética em nosso universo, onde o movimento retilíneo inexiste. E o que é a ascese evolutiva senão uma energia de movimento, exatamente a mais poderosa força cinética do universo, a impulsioná-lo como uma inestancável oscilação? Como tal, somente pode ser uma onda.

Chegamos assim ao primeiro desenho da marcha evolutiva: uma onda, feita de ascensões e descidas que periodicamente se alternam no traçado que vai da “Terra ao Céu”, ou seja, da matéria ao espírito.

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