Lei de Hierarquização

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Os princípios de filiação, nucleação, coletivização em unidades, formação de tipos específicos e diferenciação de funções fazem a Criação funcionar como um Todo perfeitamente unitário, coeso e coerente. No quadro da grande Lei, porém, tais fundamentos somente se fazem possíveis mediante a coordenação na Lei de Hierarquização, a sétima grande Lei. Sem hierarquia não se estabeleceria o equilíbrio perfeito das partes do Todo. Então, a hierarquia é quesito indispensável da grande Lei.

Por essa Lei, o menor deve se sujeitar ao maior, mas este, por sua vez, requer também submissão à unidade superior que o alberga, coordenando-se todos na perfeita ordem hierárquica do conjunto. Assim, além do infinito e aquém do infinito, todos devem se submeter à única Potência hierárquica máxima existente, a primeira e a última de todas, o princípio e o fim: Deus.

O estabelecimento de níveis hierárquicos e a subordinação a eles fazem-se então a única maneira de a Criação existir nos limites do perfeito equilíbrio, exigido ao funcionamento orgânico que a caracteriza. Portanto, é imprescindível concordar-se com a existência de hierarquias no Reino celeste, como muito bem imaginou a velha teologia medieval. Como sabemos, a antiga tradição cristã concebeu o Paraíso divino estruturado em círculos hierárquicos, constituídos por conjuntos de querubins e serafins, arcanjos e anjos, tendo Deus em seu centro máximo. Entendemos hoje que se tratava de uma curiosa aproximação da realidade, da qual, no entanto, ainda não atingimos a plena compreensão. Não podemos até o momento imaginar o que seja a hierarquia celeste.

Somente somos capazes de aventar que tal princípio de funcionamento do Todo não se fundamenta na desigualdade de valores que demarca as hierarquias defectíveis, estabelecidas em nosso universo desmoronado.

Observemos nosso mundo. Nas unidades de matéria, a hierarquia se estabelece de modo natural em obediência ao predomínio de forças físicas. Assim, o núcleo atômico impõe-se, pelo dinamismo físico, como o centro diretor da entidade atômica, distribuída em uma eletrosfera caracterizada por crescentes níveis de energia. Na unidade da vida, a célula, o núcleo ocupa o comando central, em um pequeno conjunto de organelas, estruturadas também em escalas de valores. Por sua vez, as células gravitam em torno dos órgãos que lhes determinam o funcionamento. Os órgãos seguem o interesse maior da entidade superior que os arrebanha, o organismo, sob o comando da consciência que o edificou.

No plano do comportamento, nos baixos níveis da animalidade, a ordem hierárquica impõe-se com base no regime da força, por meio do qual o mais forte domina os mais fracos, estabelecendo-se como chefe de uma organização social mínima, o bando. E na pirâmide alimentar, os mais poderosos impõem aos menos capazes a obrigação de alimentá-los com a própria morte. No reino da razão, os mais espertos subjugam os menos aptos.

E assim, a estratificação às avessas do mundo em que vivemos faz-se a instância dos poderosos, sob o regime da coerção e da força e não do amor, como funciona a perfeita hierarquia divina.

O ser caído está sempre pronto a violar toda lei e toda ordem. Quando denota a existência de hierarquia, ele se rebela, pois não admite que alguém lhe possa ser superior ou que existam forças ante as quais deve se curvar. Esses são os mesmos sentimentos que entretecem nosso tecido social, fazendo da competição e da luta o regime capital de sua existência. Natural que tal sistema invertido termine por gerar infelicidades, atritos e dores para todos os seus membros.

Destarte, no Reino de Deus, como nos asseverou Jesus, os menores são iguais aos maiores, os últimos são como os primeiros, e os primeiros, idênticos aos últimos. É a ação do amor, que faz com que as grandezas do infinito se repitam em toda a extensão da Criação, do maior ao menor, dos primevos aos derradeiros. Sem distinção entre estes e aqueles, igualam-se todos em valorização diante de Deus.

Paulo de Tarso, com sua inspirada inteligência, deixou-nos a famosa alegoria da “guerra do corpo”, para recomendar-nos a indispensável sujeição à hierarquia da vida, por amor ao Senhor. Deus colocou os membros no corpo, cada um deles segundo suas disposições — dizia o apóstolo dos gentios —, mas se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Se há muitos membros, eles vivem em função de um só corpo. De modo que um não pode dizer ao outro: não tenho necessidade de ti. Mas todos são valorizados com a mesma importância, todos são necessários ao corpo, dos mais fracos aos mais decorosos. De modo que os menos decorosos não são os menos necessitados. Assim formou Deus o corpo, para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros.

Portanto, irmãos, compreendemos assim que somos membros de um grande organismo social, a nossa humanidade, ao qual devemos servir por excelência. Acomodemo-nos na posição que a Lei nos indica, desempenhando com o máximo amor possível nossa função na comunidade em que vivemos. Isso não pressupõe, naturalmente, que o homem se abdique do esforço de ascensão econômica e intelectual que lhe compete na vida.

Em absoluto. Não apregoamos nessas lições o sistema de castas do qual se faz impossível evadir-se. Apenas induzimos a todos dar o melhor de si em prol do organismo coletivo que nos sustenta a existência individual, resguardando-nos da inveja daqueles que ocupam posições acima da nossa e do sentimento de competição que quase sempre assenhoreia nossas disposições íntimas. São corrosivos sociais que perturbam sobremodo o convívio e intoxicam as indispensáveis trocas de valores comunitários.

Copiando a hierarquia perfeita que reina nos arcanos celestes, cuidemos nós de obedecer como convém à natural hierarquia da sociedade em que vivemos, permitindo-lhe o adequado funcionamento. Tratemos, com amor e humildade, de sujeitar-nos às posições naturais que a vida social nos evoca, se queremos ser felizes e construir uma sociedade plenificada na ordem e no equilíbrio desejáveis. O Evangelho do Cristo, escola da vida por excelência, já nos ensinou a acomodar-nos na organização necessária à subsistência, recomendando-nos enfaticamente a fazer-nos os últimos e os menores de todos se desejamos estabelecer entre nós o almejado Reino de Deus.

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