O milagre

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A psicologia do milagre oferece-nos uma das provas demonstrativas: o homem ainda vive, em grande parte, no Anti-Sistema. Parece estranho a quem não vive na ordem de ideias do Anti-Sistema, feito de revolta, mas na psicologia do Sistema, feito de ordem, que muitos, para crer, exijam o milagre; ou pelo menos este milagre constitui uma grande prova em favor de quem o opera.

Para quem vive nas ideias do Sistema, dá-se o contrário. O fato de exigir o milagre como prova de valor e verdade, mesmo constituindo um conjunto de leis do plano superior às dos planos inferiores de nosso mundo, é comumente entendido como uma imposição a este, provocada por uma vontade para dominá-lo, violando suas leis; isto exprime, exatamente, a psicologia da revolta do ser rebelde caído no Anti-Sistema.

Desse modo, geralmente, é interpretado o milagre e não no sentido de aplicação de leis naturais pertencentes a planos mais altos, que parecem prodigiosos ao involuído ignorante. Este, para crer e respeitar precisa de uma prova de força, de algo excepcional que o maravilhe, do prodígio fora do comum, enquanto lhe passa desapercebido, no plano das coisas naturais, o grande milagre do normal, que acontece todos os dias.

Reaparece, mesmo diante de um ato de fé em Deus, o espírito da revolta original; constituindo base de respeito e fé o saber impor-se à ordem preestabelecida, com uma lei diferente, opondo-se à que está em vigor, para vencê-la. Um homem que respeita a Deus, aceitando-o como seu chefe, mas somente enquanto esse Deus, de acordo com a mente dele, saiba ser tão prepotente que possa impor-Se à Sua própria lei para violá-la, – ou seja, enquanto esse Deus, com o milagre, dê provas de força contradizendo-Se a sim mesmo – esse homem demonstra pertencer ao Anti-Sistema. Para ele, o valor do ser consiste justamente no poder de revolta e de desordem, e não no poder de harmonia e de ordem. Esses são os princípios do Anti-Sistema, ainda sobreviventes na forma mental da maioria dos homens.

O evoluído que se aproximou do Sistema não pode aceitar, como prova, o milagre compreendido como uma imposição, pelo qual Deus dá provas de violar a própria Lei. Quem vive na psicologia do Sistema, acha o contrário; Deus, ao invés de rebelar-Se à Sua própria Lei, obedece-lhe e respeita a Si mesmo, sem contradizer-se, eis a prova que mais induz crer Nele e a respeitá-Lo.

A ideia dualista de existir um oponente a ser vencido e de que o valor consiste em saber impor-se a ele, é um princípio de cisão e contraste, particular ao Anti-Sistema. Quem possui essa psicologia, decaiu da unidade num estado em que está invertido o Sistema. Neste, qualquer separação é inconcebível, porque existe apenas uma unidade orgânica, na qual tudo está fundido.

Esse conceito de divisão e antagonismo constitui, para o homem, uma verdade tão arraigada em seu instinto, que ela a aceita como axioma, sem discuti-la, ressurgindo esse conceito em toda a parte, inclusive no terreno religioso. Isto prova o quanto está ainda o homem imerso no Anti-Sistema, que nem mesmo sabe conceber a Divindade fora da luta, criando para si um Deus antropomorfo, feito à própria imagem e semelhança, ou seja, um Deus partido no dualismo, que luta consigo mesmo, o que constitui o absurdo máximo. A própria psicologia humana corrente oferece-nos uma prova do Anti-Sistema, e, portanto, da verdade da teoria da queda.

Essa teoria nos explica como a nossa vida se baseia no contraste, embora seja, também, equilíbrio de contrários. Tão logo surge uma força, aparece também o impulso antagônico para a reequilibrar.

Por isso, ao nascer um desejo, primeiro movimento da alma do qual deriva tudo, traz consigo a tendência à expansão ilimitada, constituída pelo egocentrismo, que levou os espíritos a exagerar o poder do “eu” até a revolta e à queda. Os nossos desejos são ilimitados, por sua própria natureza. Sua realização é limitada pelas reações do ambiente, dos seres rivais e das forças nestes encontradas. Daí o contínuo atrito da luta.

Eliminar essa dispersão de forças seria o interesse máximo de todos, mas para gozar dessa vantagem é necessário uma inteligência que o homem ainda não possui e está lutando e sofrendo para conquistar. Não possuindo cada um em si a medida de seus anseios insaciáveis, o equilíbrio é alcançado de acordo com a oposta avidez do vizinho, que a limita com a força, infligindo-lhe dano. Atinge-se, desse modo, o único equilíbrio possível no Anti-Sistema, um equilíbrio forçado, coagido, não inteligente nem espontâneo, um equilíbrio que custa desperdícios e sofrimentos.

O fato de o homem procurar a vitória por meio da violência, na desordem, demonstra ainda estar imerso no Anti-Sistema. A cada desejo se repete o motivo da revolta, da expansão ilimitada, sem freio nem disciplina, qualidades apenas do Sistema. Como na primeira revolta, agora também o instinto recorda e reproduz a tendência ao excesso, ao abuso, como um eco do primeiro impulso que levou o ser além dos limites a ele assinalados pela Lei.

Ao subir para o Sistema, e quanto mais dele se aproximar, mais aparece o impulso oposto, contrário à ordem e à disciplina. Surge então o verdadeiro princípio reequilibrador, resolvendo o conflito; ou seja, ao lado de cada defeito, abuso, vício, aparece o conceito da virtude correspondente, com a função específica de frear o abuso e de corrigir o defeito. Isto representa, ao lado do impulso destruidor próprio do Anti-Sistema, o impulso salvador, próprio do Sistema, reconstituindo os valores espirituais desfeitos com a queda.

A ideia de virtude representa o impulso reequilibrador, que tende a repor nos devidos limites e a tornar a disciplinar, na ordem, o exagero rebelde do egocentrismo, que constitui a revolta. Por isso, a evolução se constitui em uma subida espiritual e moral para formas de vida nas quais o estado de virtude, próprio do Sistema, acentua-se cada vez mais quando se enfraquece o estado oposto, defeituoso e viciado, próprio do Anti-Sistema.

A evolução, quanto mais sobe, mais se torna uma reconstrução de valores morais. O santo representa, em si, uma reconstrução do Sistema, muito mais adiantado do que o homem comum. Eis porque quanto mais se evolui, tanto mais aparecem ordem, obediência à lei, virtudes notáveis, em lugar da desordem, da revolta à lei, dos vícios, que ao contrário crescem tanto mais, quanto mais o homem involui para o Anti-Sistema.

Esse impulso de reconquista da saúde, mesmo nascendo no seio do Sistema, desce para operar no Anti-Sistema. Quando o impulso penetra no ambiente do Anti-Sistema, começam a agir as forças desse ambiente, que lhe são contrárias, pondo-se imediatamente nesse sentido. Isto representa uma tendência a corromper, a torcer, a inverter a correção salutar que desceu do Sistema, para as formas mais assumidas do Anti-Sistema.

Em outras palavras, a ideia de virtude, quando vem à terra, assume em geral as características da luta e da agressividade, próprias dos involuídos; usa-se, então, o conceito de virtude, não tanto para melhorar a si mesmos, mas para impô-las ao próximo; porquanto, representando um sacrifício, é melhor seja imposta aos outros, antes de nós mesmos.

Outros reagem sem demora ao assalto, agredindo o pregador de virtudes, a fim de controlar se ele age segundo prega, procurando, dessa forma, restituir o golpe, ao exigir-lhe fazer primeiro o sacrifício que não lhes é agradável. Assim, tudo se reduz a termos de agressão e luta.

Por isso, a virtude, princípio do Sistema, é utilizada de forma invertida, não para melhorar-se, mas para condenar os outros. A verificação do fato de uma função do Sistema ser aplicada em posição invertida, na forma de Anti-Sistema, ou seja, não para elevar, mas para lutar, condenar, dividir, constitui uma das provas mais evidentes da existência dos dois termos opostos, Sistema e Anti-Sistema, e portanto da teoria da queda.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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