Da afirmação nasce a contradição

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O nosso mundo, se baseia numa contraposição de conceitos opostos, que se completam como dois polos do ser; são contrários, mas só podem existir um em função do outro; lutam, mas justamente na luta se escoram mutuamente, e um não pode dispensar o outro. Ora, tudo isso é dado pelo primeiro modelo Sistema/Anti-Sistema, que aparece reproduzido em todas as formas do ser, dependendo desse fato, todo o nosso modo de conceber. Assim, a afirmação nasce da contradição e só podemos afirmar enquanto existe o termo oposto da negação. Por isso, a negação conduz à afirmação e a afirmação implica na possibilidade da negação.

Não sabemos conceber o infinito e o absoluto, esta é a verdade, senão como o estado inverso ao nosso estado de finito e relativo. O conceito que, em nossa posição de Anti-Sistema, conseguimos formar do Sistema é, para nós, negativo, apesar de tratar-se da coisa mais positiva que pode existir. O fato de só conseguirmos fazer do infinito e do absoluto uma ideia que representa o inverso de nosso finito relativo, e não uma ideia correta e positiva, dá-nos também uma prova de estarmos situados no Anti-Sistema, por efeito da queda.

Vejamos um caso mais particular. Poder-se-ia dizer que o ateísmo representa uma das provas da existência de Deus. O ateísmo é uma negação presumindo afirmação, e só em função dela pode existir. A negação não só presume e prova a afirmação, como faz parte de dois conceitos condicionados reciprocamente, de modo que um não pode existir senão em relação ao outro.

Há mais ainda, porém. A negação, ao negar, enquanto é negação, alimenta e reforça o poder da afirmação apenas com a sua presença. Quando há dois conceitos juntos, dizer não de um lado, significa dizer sim do outro, e quanto mais se diz não de um lado, tanto mais se diz sim do outro. De modo que, em última análise, o não só pode existir para anular a si mesmo, e para reforçar, com a própria negação, a afirmação oposta.

Quem nega, nega em última análise a si mesmo, ou seja, se destrói; e quem afirma, afirma a si mesmo, isto é, se fortalece e constrói. Quem nega uma afirmação, nega a si mesmo em favor dessa afirmação, que se fortalece, crescendo por um meio dessa negação. Os negadores caem nesse erro.

Deduz-se daí que, quando um conceito possui um valor intrínseco como afirmação de verdade, nada terá de temer das negações que, se aparecerem, trabalharão em seu favor. O esforço para destruir a nova verdade é utilizado, pelas leis da vida, para difundí-la, tal como os ventos tempestuosos que trazem destruição são utilizados para levar para longe as sementes fecundas de uma vida mais ampla. A própria posição negativa assumida pelos negadores, servirá para destruí-los em favor da afirmação, nutrindo-a com a própria carne.

Vemos o modelo dos dois opostos, Sistema e Anti-Sistema, reproduzindo também nos dois termos contrários: espírito e matéria. E instintivamente o homem vê Deus e o paraíso, isto é o Sistema no céu; e nas profundezas da terra, afundado na matéria, o inferno. Por que isso?

Porque a queda se deu do estado de espírito ao estado material, através da energia. Aqui, a ideia da queda é reproduzida em sentido espacial, do céu para a Terra. Na concepção de Dante, Lúcifer se precipita do céu ao inferno, aprofundando-se até o centro da Terra, onde, no ponto mais longe do céu, permanece a habitação do maior rebelde a Deus. E as subidas ao céu são concebidas em sentido contrário. O purgatório dantesco é o monte da ascensão, subindo por ele, de pano em plano, chega-se ao paraíso.

Esse inferno e purgatório exprimem exatamente, em sua posição inversa, o primeiro escavado nas profundezas da matéria, o segundo, emergindo de seu seio, as duas metades inversas e complementares do ciclo da queda constituído pelo período involutivo (queda no inferno) e pelo período evolutivo (purgatório), da purificação que leva a Deus.

Sob outra forma, achamos aí a substância da visão que expusemos. O inferno dantesco possui todas as qualidades do Anti-Sistema: trevas, dor, ódio, mal etc.. O paraíso dantesco possui todas as qualidades do Sistema: luz, felicidade, amor, bem, etc. Também no inferno há certa ordem e disciplina. Mas a ordem é coagida e a disciplina é a do escravo algemado; enquanto no paraíso a ordem e a disciplina são livres e por convicção. Isso corresponde aos conceitos de determinismo, a que está presa a matéria, e de liberdade, primeira qualidade do espírito.

Explicam-se, dessa maneira, muitos modos de conceber, encontradas nas várias religiões, e as formas nas quais os estados de além túmulo são representados por elas. Passa-se a compreender, também, a contraposição entre espiritualismo e materialismo, sendo o primeiro concebido como elevação e o segundo como negação. Explica-se a divisão do pensamento moderno nestas duas direções opostas, num contraste que representa em nosso mundo a luta entre Sistema e Anti-Sistema.

O materialismo moderno constitui um movimento de descida, mas descida na matéria, para depois chegar a compreender melhor, em relação a Deus e ao espírito, a significação do universo e de nossa vida. Nasceu como corretivo e reação ao espiritualismo abusado das religiões; como libertação e renovação, a fim de passar das velhas estradas às novas; como salvação da cristalização dogmática, a fim de que o pensamento não permanecesse morto no seu interior, mas revivesse, continuando a avançar.

Só num primeiro momento a ciência apareceu como inimiga da fé, quando se manifestou como reação de cura do pensamento humano, o qual corria o perigo de permanecer fechado em alguns caminhos sem saída. Mas depois a ciência materialista não podia evitar de caminhar, de iluminar-se mais, de construir; porque, observando honestamente os fatos e os fenômenos, devia encontrar-se com o pensamento de Deus que os dirige, e a ouvir a voz que lhes fala de Deus.

Pôde, assim, aparecer a verdadeira função positiva criadora da ciência, própria desse regresso à matéria, ou seja, a de poder tomar um impulso mais forte, para ascender mais no alto, no caminho da evolução para o espírito. Só agora começa a delinear-se este fato, mas representa o verdadeiro sentido, o valor e o futuro da ciência.

Vimos que a evolução avança com regressos contínuos, compensados depois por maiores progressos, tal como ficou explicado em A Grande Síntese, pelo gráfico que traça o desenvolvimento da trajetória dos motos fenomênicos, na evolução do cosmos. Ora, a atual fase materialista, no desenvolvimento do pensamento humano, representa o movimento expresso naquele gráfico por um período de envolvimento, que resulta menor diante do maior desenvolvimento de toda a trajetória; e assim, não obstante os seus contínuos regressos, esta continua sempre avançando.

Por isso, a ciência materialista continuará a avançar, assumindo agora a tarefa, já não mais desempenhada pelas religiões, de fazer progredir o pensamento humano. Não é destruição, é progresso.

A função da ciência não é de matar a fé, mas de fecundá-la com a razão e a observação, de demonstrá-la, dando as provas de seus enunciados, que já agora se tornaram, em sua forma primitiva demasiadamente imprecisos e elementares, para poderem ser aceitos pela forma mental moderna, mais evoluída.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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