Comentários do Espírito Heitor  –  Esclarecendo dúvidas (2)

CAPA-CIENCIA-E-REDENCAO

Questão 02:

Na literatura espírita básica diz que “Deus, espírito e matéria” seriam os elementos gerais a compor nosso universo. No entanto, a informação do irmão Francisco parece contrariar a famosa afirmativa, pois a codificação não apresenta esses compostos básicos como manifestações de mesma identidade. Alicerçados na obra básica, nada nos leva a considerá-los de igual natureza, pois os atributos de Deus, do espírito e da matéria, como se faz evidente para nós, aparentam-nos ser muito distintos. Teriam errado os Espíritos ao deixar na Terra tal fundamental definição da constituição do universo?

As elevadas entidades que ditaram essa obra basilar precisavam adaptar-se aos conceitos de sua época para que fossem aceitos. Nos dias em que as mesas girantes agitavam as reuniões parisienses, o homem, alimentado ainda pelos conceitos cartesianos de então, concebia o cosmo como uma realidade dualista. Espírito e matéria eram coisas distintas e dizer o contrário pressupunha verdadeira heresia intelectual. Não obstante, uma vez que Deus é apresentado como o Criador de tudo o que existe, facilmente se deduz o monismo dos informes ofertados pela codificação kardequiana.

Observemos que as magnas inteligências desencarnadas que assistiram Kardec interpuseram entre espírito e matéria um elemento semimaterial, o fluido cósmico universal. E logo nos explicaram que a matéria bruta não era senão a mais expressiva condensação desse elemento. Desde que entendemos por fluido nada mais que energia, efetuava-se, assim, precocemente, a unificação entre matéria e energia. Matéria é fluido condensado, e energia, fluido livre. Restava então, na constituição do universo, Deus, espírito e energia.

 Ora, não se pode pressupor distinção entre Deus e espírito. Pai e filho, por atribuição essencial da Lei, devem ser necessariamente iguais. O produto é inexoravelmente de mesma natureza da fonte que o origina, como os próprios Espíritos deixam claro ao nos explicar a impreterível igualdade entre causa e efeito. Logo Deus e espírito não podem compor elementos de distinto jaez. Já o fluido cósmico, matriz de tudo o que não fosse espírito, foi considerado um fluxo da mente do Criador, tratando-se, portanto, de nítida alusão à mesma substância a que se referiu irmão Francisco, o substrato do Universo em base ao qual tudo se forma. O Criador, entretanto, da mesma forma, não poderia recender de Si algo distinto da própria natureza.

Logo, o espírito e o fluido cósmico, ou a substância, são emanações do único manancial possível para tudo: Deus.

E como tais são constructos de idêntica natureza. Desse modo podemos dizer que, como tudo vem de Deus, tudo é Deus, sem com isso ratificar o mais puro panteísmo, evidentemente, uma vez que Deus continua sendo mais que a soma das partes existentes na Criação.

Para criar, Deus emana de Si a ideia a ser criada; a ideia se movimenta, através da vontade, gerando a substância, em base a qual a ideia se realiza. Desse modo, a substância, ou fluido cósmico, como queiram, nada mais é que o prolongamento da ideia, sob a ação da vontade, o verbo criador. E assim encontramo-nos com a Trindade divina que tudo criou, fundamentando a perfeita unidade de todas as coisas.

E assim, Criador e Criação, Pai e Filho, fundem-se, por meio da substância, o elemento intermediário, na perfeita unicidade. Eis o monismo substancial.

Como vemos, a razão nos basta para realizar a inevitável fusão de todos os conceitos, de todos os elementos e de todos os substratos da Criação na Unidade divina. Por isso, irmãos, o monismo é irrevogável. Retirá-lo da concepção de Deus e do Universo é caminhar para a fragmentação analítica da complexidade fenomênica, conduzindo-nos ao mais assaz materialismo.

O que faltou à doutrina espírita foi o conhecimento da queda para conferir validade à perfeita unificação dos elementos universais. Com a queda compreendemos que a substância imaculada do Pai sofreu um processo de degeneração, através do qual se converteu em matéria. Fato que agora nos possibilita conferir aos elementos que se originam da condensação do fluido cósmico os mesmos atributos essenciais da perfeição divina. Sem compreender que energia e matéria nada mais são que produtos degradáveis e provisórios de um desmoronamento espiritual, não teríamos como considera-los criações da mente divina, de onde somente pode advir a perfeição.

Sem a queda, não podemos entender espírito e matéria como entidades absolutamente iguais.

Recordemos, contudo, amigos, que a doutrina dos Espíritos nasceu em uma época em  que o homem mal levantava o véu que esconde o Invisível e começava a desvendar alguns dos mistérios da criação. Naquele então, a natureza atômica da matéria era ainda desconhecida. Einstein não havia formulado sua evoluída compreensão relativista do universo. O importante conceito de campo ainda não tinha sido anunciado por Maxwell. As noções de espaço e tempo, matéria e energia permaneciam acanhadamente presas nas formulações mecanicistas de Newton e nos fundamentos filosóficos de Descartes. E a física quântica não era sequer sonhada.

Natural então que os Espíritos encontrassem sérias limitações ao transmitir seus elevados conceitos às mentes dos médiuns. E viam-se obrigados a reduzir suas surpreendentes revelações, de modo a se fazer compreendidos. Ademais, importa considerar ainda que o psiquismo dos medianeiros não era capaz de absorver preceitos muito além de suas possibilidades.

Por isso, as magnas entidades que ditaram O Livro dos Espíritos foram categóricas em afirmar que suas revelações achavam-se incompletas, por estar circunscritas ao limitado entendimento da época. Ciente disso, o sábio Kardec, após analisar com seu fino escrutínio mental as informações recebidas dos Espíritos, declarou, na questão 28 da obra básica, que a origem e a conexão entre espírito e matéria permaneciam ainda desconhecidas, afirmando com sinceridade ignorar se existiam ou não pontos de contato entre ambos.

O dualismo matéria e espírito, portanto, ficou em aberto e não foi de modo algum exarado nos fundamentos doutrinários espíritas, deixando-se as portas abertas ao monismo do futuro.

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