O Sistema Filosófico (3)

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Este sistema filosófico nos ofereceu um ponto de referência, o Sistema, que representa o absoluto. Sem o contínuo transformismo de tudo o que existe no relativo de nosso universo não teria nenhum ponto de apoio, nem ponto final a atingir que justifique e sustente aquele transformismo. Explicam-se, assim, tantos acontecimentos, de outra maneira inexplicáveis; e o valor dum sistema filosófico pode ser avaliado em função dos fatos que ele desvenda. Explica-se, também a origem de nosso relativo, do vir-a-ser da evolução, do imperfeito no seio do perfeito, dos limites do tempo e do espaço, no seio da eternidade e do infinito.

Uma evolução assim orientada para um seu telefinalismo adquire um sentido lógico, evolução por intermédio da qual se manifesta a obra salvadora de Deus em favor da criatura decaída. O maior fenômeno de nosso universo resulta, deste modo, dirigido para um objetivo seu, sem o que a evolução seria um caminho sem meta, iniciado sem razão, a percorrer fatalmente, uma condenação a subir, não merecida.

Logo, a presença do mal, da dor, da morte, as qualidades da negatividade próprias de nosso mundo, que não podem ser produto direto da obra de Deus, encontram a sua razão de ser, sem se cair no absurdo de admitir que tudo isto tenha saído das mãos de Deus, o que demonstraria a sua maldade, ou pelo menos falta de sabedoria. Assim a contradição entre opostos, que é princípio no qual se baseia a estrutura e o funcionamento de nosso universo, encontra a sua explicação e justificação dentro da lógica de Deus, a qual fica inatingível e íntegra acima dos absurdos gerados pela revolta.

Desta forma a sabedoria domina o erro, a ordem domina a desordem, o bem domina o mal, a vida é senhora da morte, o endireitamento supera o emborcamento, a salvação corrige a revolta, o Sistema é senhor do Anti-Sistema, Deus é superior ao anti-Deus, a Satanás.

Neste sistema filosófico, a grande cisão do dualismo em que o nosso universo aparece inexoravelmente despedaçado, acaba saneada, porque enclausurada dentro de um monismo maior do que ela, que a abrange e fecha dentro de si.  Está salvo assim o supremo principio da unidade do todo, em que reina Deus, um só Deus, em cujas mãos está todo o poder, não compartilhando com outro anti-Deus, não despedaçado no dualismo, como infelizmente apareceu a vários teólogos e filósofos que ficaram na superfície das aparências e não compreenderam. É verdade que com a revolta nasceu a desordem, mas sem sair da ordem, nasceu o caos, mas sempre controlado por Deus, nasceu o mal, mas só como sombra do bem.

O segundo termo do dualismo não é senão uma função menor no termo originário, que permaneceu como eixo fundamental à volta do qual continua a rodar, permaneceu o ponto central, em torno do qual tudo continua a gravitar. A cisão da unidade entre dois opostos não somente lhe é interior, mas é fenômeno temporário que, pela própria estrutura da obra de Deus, automaticamente tende para a sua solução. De fato, logo que surge a doença, aparece o seu tratamento, é o próprio erro da separação e involução que automaticamente leva para a evolução que o corrige, o processo do emborcamento não pode acabar senão no endireitamento.

Na lógica desse sistema filosófico está resolvida a contradição entre monismo e dualismo, dois fatos que existem, que é impossível suprimir e que, embora aparentemente inconciliáveis, é necessário pôr de acordo, porque de outra maneira fracassa o princípio fundamental que é o da unidade do Uno-Tudo-Deus.

Fomos assim observando esse sistema filosófico de todos os lados e tivemos de concluir que ele satisfaz todas as exigências da razão, tudo coordenando num quadro lógico, em que tudo encontra a sua explicação e justificação. Ele, simplesmente demonstrado, convence sem deixar como resíduo pontos obscuros que, por não ter sido equacionado o problema na forma certa, é necessário depois resolver à força com dogmas e mistérios.

Esse sistema filosófico nos esclarece o significado de tudo o que nos cerca, até às suas razões mais profundas, satisfazendo o nosso instinto de justiça e desejo de felicidade, reconhecida como nosso direito, para a qual tudo progride. É um Sistema que, ao mesmo tempo que sacia o coração porque nos oferece uma grande esperança, nos dá de Deus um conceito que está longe das maldades de que o carrega o antropomorfismo, um conceito em que Deus fica verdadeiramente bom e grande, apesar de tantos erros e sofrimentos de que aos nossos olhos aparece como estando cheia a obra Dele.

Temos agora diante dos olhos todo o caminho do ser, saindo do Sistema, onde Deus o criou, e viajando até ao Anti-Sistema, de onde Deus o traz à salvação. Através do vir-a-ser involutivo e evolutivo, podemos agora seguir o roteiro que a cada um cabe percorrer até atingir o ponto final de sua trajetória. E quando conhecemos o problema maior nas suas linhas gerais, é possível orientar-nos em cada momento o ponto de nossa caminhada, é possível colocar no lugar que lhe cabe no quadro geral, cada fenômeno e movimento do ser e os fatos particulares de nossa vida. Eles assim, por pequenos que sejam, encontram a sua razão de ser, até à longínqua primeira origem das coisas.

Só deste modo se poderá viver inteligentemente, compreendendo o sentido de tudo o que nos cerca e sabendo o que temos de fazer e por quê. É progresso, porque nos aproxima do estado orgânico do Sistema; é vantagem, porque nos reconduz à felicidade plena. Filosofia sadia, que quer ajudar, que admite o utilitarismo honesto do homem de bem, filosofia que vem ao nosso encontro para nos salvar, que nos mostra a ativa presença de Deus entre nós, de um Deus bom, que antes de tudo é nosso amigo e nos quer bem.

 

 

Livro: Queda e Salvação

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/QuedaeSalvacao.pdf

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