A Trindade Invertida

apostila

Como já afirmamos, Deus, todavia, não quis a existência de Filhos autômatos, escravizados pela Lei. Por isso gerou-os sob o princípio da liberdade. Ele desejava livre adesão por amor à Sua Lei e não aceitação mediante coerção. Ele sabia que não existia outra forma de se conceber uma Criação efetivamente perfeita, por isso deu ao Filho o direito de escolha. A Criação, portanto, fez-se tão perfeita que era possível negar-lhe a ordem estabelecida e intentar viver outra possibilidade. Essa outra possibilidade seria, exatamente, dar ao Filho a opção de opor-se à doação de seu quinhão de substância de volta ao Pai, e intentar, ao contrário, agregar mais substância ao próprio eu, fazendo-se expandir além dos limites determinados pela Lei.

Portanto, uma infinita parcela de Filhos apartou-se da Criação original e outra ilimitada fração lá permaneceu. A partir dessa revolta inicial, como já explicamos, formou-se o universo físico e dinâmico em que vivemos, a criação secundária, feita de espaço, tempo, energia e matéria. Entendemos assim, e espero que estejam convencidos, ser esta a única forma de se explicar as incoerências observáveis no cosmo em que vivemos. Como já afirmamos, nosso mundo caracteriza-se nitidamente como um produto degenerado da Primeira Gênese.

Identificá-lo como fruto de uma revolta de espíritos que negaram o primado do amor e deixaram a Casa Paterna para viver as possibilidades do egoísmo é a melhor maneira de se elucidar seus contrassensos, do ponto de vista da perfeição divina.

Na evolução dos conceitos, vemos então que o motivo da queda foi a negação, por uma porção do infinito contingente de Filhos, de doar, por amor, ao Pai e aos demais irmãos, o quinhão da substância que em si herdara.

O princípio cíclico, que se manteria perfeito através da igualdade entre recepção e doação, partiu-se. Um segmento do Infinito, portanto infinito também, optou pela impugnação do amor, e intentou concentrar em si a substância além da justa medida, empreendendo uma inadequada expansão do eu. Almejando igualar-se ao Criador ou mesmo superá-Lo, os filhos rebeldes terminaram por colher o oposto do pretendido, ou seja, a degeneração do necessário autocentrismo, o movimento de concentração da substância, no impróprio egoísmo que ora nos veste a essência imaculada do ser. Rompeu-se a indispensável aliança, o pacto da amizade, entre a criatura e o Criador.

Assim, os fundamentos do Todo foram abalados e parte do Infinito desmoronou, gerando o universo físico em que ora vivemos. O Infinito contraiu-se no espaço, e a Eternidade fracionou-se no tempo, cerceando-nos a liberdade e constrangendo-nos as potências de origem no cerne escuro da matéria bruta.

A obra original de Deus permaneceu imaculada e intocável, reservando-se inviolável no Absoluto. A parte rebelde contraiu-se no Relativo, onde agora vivemos.

O resultado da pretensa expansão foi então a inevitável retração do ser. A trindade menor inverteu assim sua original manifestação, expressando-se então como trindade invertida. Trindade às avessas cujos atributos muito bem conhecemos por agora nos caracterizar as expressões do ser, servindo-nos a todas as manifestações possíveis no reino das formas que nos demoramos. Logo a caracterizaremos para melhor compreendê-la.

As dimensões abertas do Infinito desmoronaram-se, reduzindo-se às dimensões fechadas em que ora nos prendemos. E a substância que a tudo formava, de um estado de pura ideação, degradou-se na matéria que então nos veste.

A contração da trindade e sua posterior expansão invertida fez degenerar o eu superior em um eu inferior, acanhado e provisório. Reduziu-se a consciência plena na instável consciência mínima de superfície, da qual agora nos valemos. Constrangeu-se a plenipotência original do espírito nas energias instáveis que ora nos dinamizam o ser. Degradou-se a substância pura que nos vestia, na matéria perecível que então nos serve de inadequado envoltório. Portanto, as expressões primárias da Primeira Trindade, que hoje não sabemos mais o que sejam, corromperam-se em consciência, energia e matéria, as três manifestações derivadas da primeira

Criação, agora identificáveis em nós e em nosso universo.

O anjo encerrou-se no vórtice atômico e conheceu a morte, o estado de inconsciência, a lamentável condição de não-ser. Assim produziu-se o espírito simples e ignorante, tão bem caracterizado nas primeiras lições do espiritismo na Terra. Reduzido a esse estado, ele principia a evolução, sua longa trajetória de volta ao Reino de origem, para fazer restituir em si a divindade agora confinada em seu imo.

Avancemos, porém, um pouco mais. Compreendamos que a contração da queda encontrou no cerne infecundo da matéria o seu limite. Aí é que se prendeu o espírito, originariamente criado como um deus. Após esse ponto de máxima condensação, suas forças íntimas sofreram um processo de ricochete, e por reação de igual intensidade e sentido contrário à contração inicial, iniciou-se nova expansão. A expansão reativa dessas potências contidas é que, efetivamente, geraram a realidade em que vivemos. Entretanto, tratou-se de um movimento novo na Criação, pois produziu, como dissemos, uma expansão também invertida. Um movimento de inadequada ampliação da substância, cujo resultado final foi a produção de espaço e matéria, de tempo e energia, com consequente aprisionamento do espírito na nova e exótica unidade fenomênica que se formou: o átomo.

Engendrou-se, assim, o Relativo, um universo anômalo, nos antípodas do Universo original. Na primeira Criação, o espírito estava plenamente expandido e a matéria existia como mero potencial de realização. Ao inverter-se na segunda criação, o ser caído fez da matéria sua realidade exterior, visível, com a qual se vestiu.

Sua essência, o espírito, que antes existia no estado de plenitude, encerrou-se em si mesmo, em seu imo, como uma potência imanente, imperceptível aos próprios olhos.

Eis exatamente por que a alma, após a queda, tornou-se uma imanência invisível, entrevista apenas pelas sensações no mundo de ilusória concretude em que passou a viver e que agora lhe aparenta ser tudo o que existe.

E Deus, que é Espírito, e somente na dimensão real, o Universo do Espírito, expressa-se em plenitude, patenteou-se como uma realidade aparentemente ausente da irreal dimensão em que vivemos. Compreendamos que tal fato é um verdadeiro absurdo do ponto de vista da Divindade e seu ato criador, irmãos, pois um Pai verdadeiro jamais poderia ocultar-se de tal forma de seu Filho, para revelar-lhe Sua face apenas quando este atingir a maioridade.

Todos os fatos induzem-nos, portanto, a concluir que nós e nosso universo somos filhos de uma trindade invertida, uma composição às avessas que manteve sua essência original, contudo, produziu elementos anômalos, até então inexistentes na realidade divina, como a energia e a matéria. Eis o fundamento maior que irá explicar a fenomenologia do universo em que respiramos. Os movimentos ativos e reativos da divina trindade menor irão assim justificar todas as aparentes contradições encontradas em nossa realidade, como a existência do caos, da desagregação, da destruição, da dor e do mal, da inconsciência e da morte. Fatos de outra forma incompreensíveis do ponto de vista da perfeição de Deus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s