Filho Pródigo

apostila

— Irmão, a notícia de que vieste de um processo de fuga do Reino de Deus abala-te as fibras da alma, bem sei. Teu coração, inconsolado, clama por provas de que estás diante da maior verdade de todos os tempos.

Aquieta-te. Sem o abafamento que o escafandro físico impõe-te à sensibilidade, podes sentir, hoje, com maior nitidez, a condição de exílio em que vives. Observa-te com cuidado. Não vês que a vida trabalha ativa e permanentemente para regenerar-te o espírito e recompor-te a perfeição perdida? Não te denotas distanciado de tua verdadeira natureza? Não percebes o quão afastado estás da realidade divina? A sensação de te achares verdadeiramente abandonado em um mundo em ruínas não te assola hoje a alma? E a terrível decepção de que não atingiste a vida definitiva, ao atravessar as portas da morte, não te é agora o maior tormento, para o qual buscas ansiosamente as explicações últimas?

Observa ainda mais atentamente ao teu redor, irmão. Não vives como o filho pródigo, sujeito a assaltos e intempéries nos tortuosos caminhos por onde trafegas? Não apascentas porcos, como nos afirmou o Cristo? Não te vês um viajor faminto, em permanente busca do aconchego doméstico? E não corre por tuas veias uma espécie de nostalgia que não sabes de onde procede? Por vezes, não sentes que perdeste um bem maior, o qual necessitas reaver? Não anseias permanentemente por paz, amor, justiça, beleza e perfeição sem que nada em teu mundo e em ti mesmo satisfaça tais anseios?

Examina com cuidado teu panorama interior, irmão. Não te domina a impressão de que vives em um mundo irreal, como se habitasses um grande sonho, uma loucura coletiva, para muitos, um verdadeiro pesadelo? Não sentes que estás no lugar errado, ou apartado de uma realidade maior? Somente as almas mergulhadas na hebetude são capazes de responder negativamente a essas questões.

Indubitavelmente, irmão, as sombras assediam-te a felicidade. Por toda parte o mal busca assolar-te o sossego. Anseias permanentemente por um mundo melhor, onde repousar do longo labor na esfera densa, a salvo do ataque das trevas. No entanto, és incapaz de identificá-lo nos planos que te abrigam, na carne, ou fora dela.

Deixaste na ribalta terrena o teu ninho doméstico e agora, como uma ave sem pouso, aspiras pela segurança de um novo lar. Detinhas a esperança de que a morte devolver-te-ia à Pátria do Espírito, onde encontrarias tua Morada definitiva. Não te deparaste, porém, nos arredores do túmulo, com o abrigo que ansiosamente aguardavas. A verdade, a estampar-te na alma como fato dolorosamente evidente, é que te achas muito distante da Casa paterna. Decididamente, o mundo que ora te acolhe em nada se assemelha à Mansão da Paz eterna, constituindo-se inquestionavelmente de paisagens contorcidas pelas intempéries do tempo e a transitoriedade das formas, descoloridas pela intensa maldade que ainda flui da natureza humana.

Move-te as fibras do espírito um inestancável anseio pela perfeição, pela quietude e pela harmonia que procuras ao teu derredor, sem encontrares. Terrível desamparo assola-te hoje as entranhas do ser. O temor estiola-te a alma, paralisando-te as forças. Trevas ameaçam-te permanentemente a felicidade. As tormentas do mal fazem-te soçobrar o sossego íntimo. Sempre receoso e incerto, não confias no amanhã e a providência divina parece-te um prêmio dos justos, da qual não te sentes merecedor.

Por vezes, implacável sensação de culpa, que não sabes de onde provém, persegue-te os passos, como um fantasma a ameaçar-te a paz da consciência. Vives permanentemente como um endividado das Leis divinas, sem uma razão que te explique tal incômodo sentimento, o qual, livre do entorpecimento que o corpo físico te proporcionava, assume agora proporções intoleráveis. Escravo das paixões inferiores, desespera-te pela libertação de teus instintos ainda animalizados.

Gostarias de sorver a afável brisa das esferas iluminadas, mas as rajadas do pretérito de crueldades do qual vieste na escola dos milênios, obstam-te o avanço. E sufoca-te a atmosfera do mal em que ainda és constrangido a respirar.

A ilusão de que estás separado do Todo e de que não vives a completude do ser lacera-te o coração com uma intensidade que jamais experimentaste no cárcere da carne. Prisioneiro de ti mesmo, cativo da matéria, da qual nem mesmo a morte libertou-te, vives desorientado, na incômoda certeza de que não fazes parte deste mundo em que ora te encontras.

Sem o salutar abafamento que a veste carnal antes impunha à tua consciência, perdeste a clara noção de quem realmente és, pois estranho vazio agora te banha as paisagens interiores. Tens a certeza de que nasceste para a luz, mas as trevas insistem em tragar-te em suas volutas. Deixaste os despojos orgânicos, porém, inexplicavelmente te sentes ainda escravo da forma densa. Não bastou o túmulo para que o real sentido da existência te visitasse a razão. Permaneces sem centro, sem rumo, sem norte.

Sim, irmão, tudo ao teu derredor e em ti mesmo fala-te que és um degredado do seio de Deus, um réprobo na Criação, carente de ser reconduzido aos Páramos celestes de onde saíste. Eis a razão última dos insopitáveis anelos que hoje te laceram as entranhas da alma e das agruras que te sufocam o espírito.

Aplaca em ti, irmão, o estrondoso ruído do mal que te ensurdece. Cala a consciência superficial que no momento te põe em contato com o mundo exterior. E então serás capaz de ouvir, na acústica da alma, os apelos divinos que falam da tua verdadeira história, ainda estuante nos abismos infecundos de teu ser. E no silêncio de ti mesmo poderás perceber, como ecos longínquos de um prístino e imemorial passado, os estrondos da grande queda que teu espírito um dia viveu.

E então, por ti mesmo, inteirar-te-ás de teu evidente afastamento de Deus. Essa grande realidade não mais estará oculta aos teus olhos. Os estilhaços da dúvida não mais lastimarão teu entendimento, pois penetrarás o ádito da certeza, sem mais deixá-lo.

Glorifica a Deus nas alturas, irmão, e semeia a paz, com boa vontade, ao redor dos próprios passos e encontrarás a Verdade!

 

 

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