OBJEÇÃO X RESPOSTA (4)

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Prossigamos, agora, na segunda parte da resposta, discutindo as afirmativas da objeção, opostas à teoria da queda, para ver se correspondem à verdade.

Sustenta a objeção que, sendo os espíritos perfeitos e oniscientes, não podiam pecar nem errar. Entretanto, quando tivermos compreendido o valor a ser dado ao conceito de perfeição e onisciência, isto é, que essas duas qualidades não devem ser compreendidas no sentido simplista e absoluto, como apareceu na objeção, então poderemos perceber que essa afirmativa não corresponde à verdade.

A primeira criação dos espíritos puros produziu não uma simples multiplicidade, mas um verdadeiro organismo, um Sistema, com hierarquia de posições e distribuição de funções, como é indispensável em qualquer organismo ou sistema. A estrutura orgânica não foi apenas uma necessidade para contrabalançar o processo divisionista, de onde derivara a criação e que podia ameaçar a coesão da unidade do todo.

O Sistema assumiu a estrutura orgânica sobretudo porque a criação de tantos seres diferentes se baseava no princípio do Amor, o qual foi a força que continuou a cimentá-los, o impulso que devia mantê-los unidos em sistema, o único possível num regime de absoluta liberdade. Por isso não podia ser eliminada, a priori, no Sistema, uma possibilidade de revolta, justamente porque a vida do organismo não podia basear-se senão sobre uma livre aceitação. Não podia ser impedida a revolta violando a liberdade dos espíritos com o reduzi-los à escravidão, mas apenas pela força do princípio do Amor, que devia funcionar neles em direção a Deus com a mesma plenitude com o qual aquele princípio havia funcionado, de Deus para eles.

 Ao princípio de Amor, era confiada, de modo livre, a tarefa de frear e disciplinar o impulso oposto separatista do egocentrismo individual, a cujo predomínio foi devida a revolta. Por ter sido uma rebelião contra o princípio fundamental da criação, grande foi essa culpa e conduziu a consequências tão duras.

O Amor representa o princípio de coesão e fusão, ao qual estava confiada a manutenção da organicidade do sistema, princípio cuja função foi a de organizar os egocentrismos individuais numa ordem hierárquica. Dessa maneira, contrabalançando o Amor que une com o egocentrismo que divide, chegou-se à estrutura hierárquica do Sistema. É necessário compreender bem esse conceito, que, em geral, não se dá importância e, no entanto, produz mal-entendidos e incompreensões; deste conceito derivam importantes consequências.

O princípio hierárquico vigente no Sistema, satisfaz também a outra exigência e cumpre outra função. Se a criação dos espíritos tivesse produzido uma simples multiplicidade de seres, todos iguais, não só seria impossível a distribuição e organização de atividades, como ainda, dentro da igualdade universal, Deus não seria mais centro nem seria possível distingui-lo da criatura. A organicidade do Sistema é também uma consequência da necessidade de manter em Deus a centralidade dirigente do todo.

Eis que o princípio hierárquico nos leva à ideia de distribuição, de distinção, de diferença entre os vários elementos. Ocupar na organização do Sistema, posições diferentes, significa possuir qualidades diferentes, para executar tarefas diferentes.

Chegamos, agora ao âmago da questão, em condições de poder avaliar mais exatamente o valor do conceito de perfeição e onisciência nos espíritos. Podemos dizer que estas não podem se entendidas no sentido absoluto, mas no relativo; não como um fato em si, como se supõe na objeção, mas como uma posição proporcional, em relação à função que devia ser realizada na hierarquia do organismo.

Fica salvo, assim, o conceito de centralidade de Deus no Sistema, princípio do qual deriva o de ordem, de lei e de obediência. Na homogeneidade geral, também o princípio da individualidade tenderia a naufragar, pois é difícil distinguir uma série de elementos iguais.

Trata-se, portanto, de um organismo com posições subordinadas à uma outra, tendo Deus no vértice da pirâmide, com distribuição das partes, das funções e qualidades diferentes. Isto significa perfeições e conhecimentos relativos.

Deus não havia, pois, criado espíritos perfeitos em sentido absoluto, pois nesse sentido só Ele era perfeito. Havia-os criado perfeito em relação às suas funções. Isto não quer dizer que a obra de Deus não fosse perfeita.

O organismo do Sistema, resultante da criação em seu conjunto, era perfeito, na perfeição orgânica de todo o organismo. Isto, porém, não implica, nem se pode admitir que, como ocorre em todo o organismo, a extensão e a potência da perfeição e do conhecimento de cada elemento individual componente possam ser iguais à do todo.

Uma máquina pode ser perfeita em seu conjunto, formada de partes perfeitas; mas estas, só perfeitas como partes, e não como todo, isto é, não além dos limites de suas próprias funções. Assim, um empregado de uma organização comercial pode ser perfeito conhecedor de seu ramo, ignorando os outros e também todo o conjunto da organização. No entanto, dentro dos limites das próprias funções, as partes de uma máquina, como de uma organização, podem ser consideradas perfeitas e oniscientes. A imperfeição, para elas, começa logo se sai dos limites da própria competência.

Então, um elemento fazendo parte de um Sistema perfeito, pode ser perfeito como elemento componente, ou seja, no âmbito a ele designado no plano geral. Mas eis também que, quando esse elemento quer sair desse âmbito, usurpando posições e invadindo funções além do limite preestabelecido, funções que lhe não competem e portanto não sabe de maneira alguma executar, esse elemento sai do terreno da perfeição e da competência, para entrar no da imperfeição e da ignorância. Por exemplo, o coração no organismo humano é um órgão relativamente perfeito enquanto permanece no âmbito das funções para as quais foi construído. Mas se ele quisesse tornar-se cérebro e suas células quisessem transformar-se em células nervosas, imediatamente se tornaria imperfeito e inadequado. Ora, essa imperfeição não seria obra do construtor desse órgão, mas dele mesmo, pelo fato de ter querido sair da tarefa a ele designada.

Não basta ouvir o instinto expansionista do egocentrismo para poder ocupar outras posições. É necessário, também, levar em conta os correspondentes deveres e capacidades diferentes das possuídas. Neste caso, a imperfeição seria criada pelo coração, pelo fato dele querer funcionar como cérebro. Da mesma forma ocorreu com as criaturas relativamente perfeitas do sistema. Algumas quiseram sair dos limites de sua competência e conhecimento.

Eis o significado da revolta: rebelião à ordem, desobediência à Lei.

Nesse momento aparece a imperfeição na criatura, mas a imperfeição não foi criada por Deus: é apenas obra da criatura ao querer ultrapassar os limites preestabelecidos. Assim, no seio do Sistema se formaram posições desviadas, fora das funções, erradas. Ao lado da perfeição, formaram-se então, zonas de imperfeição, as quais foram expulsas e formaram o Anti-Sistema. Explica-se, desse modo, como, através desse desvio do plano original, tenha-se podido chegar, daquela perfeição, a um estado de imperfeição, onde atualmente se encontra o nosso universo.

Está assim resolvido o primeiro ponto da objeção, que sustentava serem os espíritos impecáveis, por serem perfeitos, não susceptíveis de erro e, portanto, inaceitável a teoria da queda.

O segundo ponto de objeção, referente à onisciência, fica igualmente resolvido com os mesmos conceitos. Como já explicamos, o conhecimento da criatura não ultrapassa os limites de suas funções e não dominava a zona maior, inexplorada, conhecida na sua totalidade só por Deus. Quando a criatura quis tentar o desconhecido, ultrapassando os limites de seu conhecimento, que era onisciente, relativo à sua posição e função, transformou-se em ignorante. Essa ignorância e o querer entrar na zona proibida, cujo conhecimento só Deus possuía, reservada à obediência, ocasionou a revolta, o erro, a queda.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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