OBJEÇÃO X RESPOSTA (2)

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Mas, em nosso universo não existe apenas o mal e a dor. Existe também a matéria.

Se Deus não é senão puro espírito, donde e como se derivou a matéria? Se só podemos conceber Deus como um estado espiritual perfeito, como pode ter nascido Dele, em direta relação de filiação, este tão diferente estado material imperfeito?

Há um fato positivo, indiscutível: o nosso universo é dualista. Há nele o lado material e o espiritual. Cada elemento se constrói na contradição entre dois princípios opostos. Ora, o conceito de Deus só pode corresponder a um princípio único, estritamente monista. O dualismo, então, só pode ser aceito como uma corrupção ocorrida depois.

Não é admissível, em Deus, contraste, nem contradição, nem essa dissensão interna entre dois princípios contrários. Não se pode aceitar o conceito de um Deus dividido contra si mesmo, conceito de um centro que não seja unidade absoluta.

Diante de todos esses fatos positivos, ou seja, o mal, a dor, a imperfeição de nosso mundo, a matéria, o dualismo etc., devemos concluir que: ou Deus não criou tudo isso e então há outro criador e Deus não é a cabeça e não abarca tudo; ou, se não existe um anti-Deus criador de todas essas coisas, e foi Deus que as criou, então Ele errou e agora procura salvar Sua obra, remediando o mal feito.

Mas, se achamos esta conclusão absurda, por fazer parte do próprio conceito de Deus que não pode errar, então perguntamos: quem errou?

Se devemos excluir como absurda também a outra hipótese de um segundo Deus criador diferente, não nos resta outra causa possível senão Deus ou as Suas criaturas, pois fora disso não existe outra coisa. Então se esses efeitos como vimos, não podem ser atribuídos ao Criador, só nos resta atribuí-los à criatura.

Neste caso, somente com a teoria da revolta e da queda podemos encontrar uma explicação lógica de tudo, porque dessa forma Deus não é o motor imediato e a causa direta do atual estado de coisas, mas entre Seu trabalho perfeito e as consequências imperfeitas, se haveria interposto o fato novo da revolta, a qual teria sido a causa dessa imperfeição, que não pode de maneira nenhuma ser atribuída a Deus.

O mal não pode ter sido criado por Deus, porque se assim tivesse acontecido deveria ser como a Sua substância, isto é, eterno e indestrutível. O mal estaria definitivamente instalado na obra de Deus, como mancha indelével e então seria dada a essa força inimiga o poder de arruinar para sempre a obra Divina. Não.

Se não quisermos contradizer o único conceito que devemos fazer Dele, não podemos conceber o mal, a dor etc., senão como exceção temporária; não como parte do Sistema, mas apenas como um incidente, uma doença curável, um desvio na obra de Deus. Ele é positivo, afirmativo, construtivo em tudo, e todo o negativo não pode de forma alguma fazer parte Dele, nem de Sua criação direta. O branco não pode gerar o negro, nem o bem produzir o mal, nem o amor engendrar o ódio, nem a felicidade criar a dor.

Aqui vemos uma inversão de valores: trata-se precisamente de um emborcamento e só uma revolta pode explicar-nos isso. Não se trata de um a criação diferente, estranha, mas de um emborcamento da criação perfeita de Deus.

O efeito que temos sob os olhos apresenta-se-nos exatamente na posição que, invertendo-se, teria alcançado a causa que conhecemos em Deus. Então, dado não ser possível encontrar outras causas, a única possível, nós a vemos aparecer invertida neste efeito, só há uma saída para resolver o problema: é ligar aquela causa a este efeito por meio do fenômeno que chamamos revolta e queda.

Assim tudo fica perfeitamente explicado: ao contrário se negarmos esta teoria, tudo permanece mistério e contradição. Diante dos fatos reais, não basta negar, é indispensável resolver, demonstrando. Podemos, pois, repudiar esta teoria só quando nos for oferecida outra explicação melhor dos fatos existentes, os quais não podem ser destruídos pela simples negação.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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