A Teoria da Queda diante do Evangelho.

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Quaisquer sejam as dúvidas levantadas contra esta teoria, não pode ser repelida pelos seguidores da doutrina de Cristo.

No Evangelho de Lucas, (capítulo 10:18), diz: “Vi Satanás, como um raio, cair do céu”. De fato, a queda foi fulminante, rapidíssima, como ocorre quando rui um edifício. Tornar a subir é cansativo e lento, como acontece na sua construção. E isto porque se deve aprender outra vez, reconstruindo o que foi destruído.

O Apocalipse de São João (capítulo 12:7-9) diz assim: “E houve no céu uma grande batalha: Miguel com seus anjos combateram contra o dragão e batalhavam o dragão e seus anjos, mas não prevaleceram, nem houve mais para ele lugar no céu. Foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente que se chama Diabo e Satanás, que engana todo o mundo: sim, foi precipitado na Terra e com ele foram precipitados os seus anjos”.

O Profeta Isaías (14:12) confirma: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, como foste cindido e abatido até a Terra? E no entanto dizias em teu coração: tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo.”

É possível a qualquer religião ou seita de origem cristã não levar em conta tão graves afirmações?

No entanto, alguns elementos do Espiritismo Brasileiro não aceitam a teoria da queda, pelo fato de a teoria Kardecista afirmar que os espíritos foram criados simples e ignorantes.

Mas raciocinemos um pouco.

Deus era finito ou infinito? Deus não pode ser senão infinito. Mas, para criar espíritos simples e ignorantes Ele devia tirá-los, não de Si, mas tirá-los de fora de Si. Isto porque, sendo Ele perfeito, só podiam sair de seu seio seres perfeitos, portanto, nunca simples e muito menos ignorantes. Da imensa sabedoria de Deus não podia derivar diretamente uma tal ignorância.

Se os espíritos são constituídos da mesma substância divina, tinham de ter, ao menos no momento da criação, as Suas qualidades. Ora, não sendo qualidade de Deus o ser simples e ignorante, os espíritos nascidos Dele, feitos de sua própria substância, não podiam ser simples e ignorantes.

Só podiam ter sido assim em duas hipóteses, ambas inaceitáveis porque contrárias ao conceito de Deus, ou seja: primeiro, Deus os tirava de sua própria substância, sendo também Ele simples e ignorante; segundo, Deus os criou não de dentro de Si mesmo, mas de fora, e em tal caso ele não seria infinito, mas finito.

Trata-se de dois absurdos. Para poder criar fora de Si seres de natureza diferente da própria, Deus deveria ser um ente limitado, e, ao criar, devia transpor esses limites. Em outros termos: ou Deus tirava os seres de sua própria substância, e Ele era simples e ignorante, ou os tirava de fora de Sua própria substância, e então Ele era finito e limitado.

Ora, é evidente não poder o seio divino, como ocorre entre mãe e filho, ter produzido senão anjos da própria natureza, ou seja, perfeitos, bem diferentes dos espíritos que vemos animando os corpos humanos da Terra.

O homem é um ser bem diferente.

Aceita-se ser ele o resultado da evolução a qual tem as suas raízes bem distantes, nas profundezas da matéria, da qual o espírito vem vindo, reconstituindo-se lentamente através de formas de vida cada vez mais complexas, permitindo-lhe a manifestação, até chegar ao plano biológico humano que ocupamos.

Aceita-se ser o ponto de partida da evolução a matéria, enquanto o ponto de chegada é o espírito, no estado de pureza e perfeição.

Então, no princípio não havia os espíritos simples e ignorantes, mas a matéria. E matéria quer dizer o caos das nebulosas onde ocorre a sua primeira formação, quer dizer desordem, trevas, um mundo desagregado, que começa a reconstruir-se.

Ora, aqui surge o ponto que nos obriga a admitir a teoria da queda.

Como admitir que a suprema imperfeição representada pelo caos, seja a primeira, a originária criação, a que teria saído diretamente do seio de Deus?

Então a substância Dele seria a matéria e a desordem do caos?

Um anjo não pode gerar um demônio, nem um demônio pode gerar um anjo. Se Deus, na criação, deu de Si mesmo, então Ele era caos, constituído pela matéria que forma as nebulosas, como todos os atributos e consequências relativas. E voltamos a recordar que a criação não podia ser exterior a Deus, porque esse conceito implica a ideia de um limite a ser superado, absurdo, porque Deus só pode ser infinito.

Eis, então, o ponto. Temos diante de nós dois fatos indiscutíveis: primeiro, Deus, só pode ser espírito, ordem, perfeição, causa primeira; segundo, o nosso universo físico, em seu ponto de partida ou criação na qual se inicia a evolução, se acha no estado de matéria, desordem, imperfeição.

Estes dois termos opostos precisam ser ligados com a mais estreita das ligações, a da filiação, relação que implica a mesma natureza para ambos. É evidente não poderem se unir da forma como estão, porque entre os dois corre um abismo, verdadeiramente uma completa inversão de termos.

Ora, como preencheremos esse abismo?

A lógica impele-nos à única saída, que é a de admitir haja ocorrido um fato novo, ao qual, justamente, temos de atribuir a causa principal de todo esse emborcamento.

O emborcamento existe. Seria absurdo procurar as causas dele em Deus. Então, quem o terá produzido?

Certamente não foi Deus que é ordem, e não caos. Deus então teria caído no caos? Absurdo ainda maior: um Deus que falha e desmorona. Deus perfeito não pode ter caído, porquanto, se existe evolução, isto prova existir um princípio dirigente que a guia e sustenta, não podendo de maneira nenhuma ter desmoronado.

Mas, se Deus não caiu, o que caiu? Eis-nos constrangidos, por uma concatenação lógica da qual não se pode escapar, a admitir a teoria da queda.

Essa teoria explica tudo e preenche o abismo entre os dois termos irreconciliáveis.

O caos da matéria não é o produto da primeira criação originária, saída do seio de Deus, mas o resultado de outro processo sobrevindo depois. A matéria não é o estado originário da criação, mas o estado de máxima curvatura do espírito, o ponto final do processo da involução e o ponto de partida da qual se inicia a evolução.

Só assim se descobre a concatenação lógica entre causa e efeito, doutra forma inexistente e os dois termos permaneciam distantes sem poderem conjugar-se. Só assim aparece o anel unindo-os. Entre ambos existe a revolta e a queda, as únicas que podem explicar o emborcamento. Assim tudo fica claro, cada coisa vai para seu lugar, e não nos vamos chocar de encontro aos escolhos de tantos absurdos inaceitáveis, como vimos.

Foi útil responder a essa objeção de alguns elementos espíritas brasileiros, para esclarecer cada vez mais a visão que estamos examinando. Com se vê, trata-se de coisa bem diferente da criação de espíritos simples e ignorantes.

Kardec não entrou no problema porque não seria aceito nem compreendido. Mas, tendo de apresentar de qualquer forma um ponto de partida, escolheu um, no percurso de todo o processo, mais próximo a nós, tal com fez a Bíblia, que parte da segunda criação-material, efeito da queda.

Não podia fazer de outra maneira, pois estava falando a criaturas que ignoravam muitos conceitos, só admitidos hoje. Assim também Kardec e os espíritos não podiam falar uma linguagem que teria sido incompreensível para aquela época, porque para as mentes de então era absolutamente inconcebível uma equivalência entre matéria e energia e uma evolução físico-dinâmico-espiritual.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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