A Teoria da Queda diante da filosofia

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O pensamento humano pode considerar o universo de três modos diferentes:

1º) Como desordenado, ou seja, constituído de elementos separados que se ignoram mutuamente, desconexados e incoerentes, que não constituem uma unidade, nem funcionem nela organicamente. Essa é a concepção do involuído, isolado de tudo, na concha de seu egoísmo.

2º) Como ordenado, onde os fenômenos são concebidos como ligados por leis naturais que os regulam, vendo-se então no universo princípios diretivos e, portanto, em ordem. Os fenômenos são coligados por derivação causal, unindo-os a um transformismo lógico, que completa a causa no efeito. Essa concepção corresponde a um estado mais evoluído do indivíduo, exprimindo o seu tipo biológico, alcançado pela observação e raciocínio.

3ª) Como unitário, onde o universo é concebido como redutível a uma causa única, central, absoluta, realidade fundamental, causa de tudo. Aparece, assim, o conceito de uma realidade espiritual interior que dirige a forma exterior, revelando-se o conceito da organicidade do universo, o conceito da coligação de todos os elementos componentes numa mesma funcionalidade orgânica.

O universo é concebido, neste caso, como uma unidade coletiva, onde todas as individuações ocupam cada uma a devida posição, executando funções adequadas, todas coordenadas por uma lei, constituída pelo pensamento e pela vontade de Deus, que a dirige com um poder central, como senhor de tudo.

O universo aparece, então, como um Sistema. Essa concepção corresponde a um estado ainda mais evoluído do indivíduo, exprimindo o seu tipo, que chegou, por intuição, à visão de Deus e do Seu Sistema. Esta é a concepção do evoluído maduro, cujo olhar espiritualizado chegou a ver além das aparências da forma. É um estado de vidência cósmica, atingido pelo espírito maduro, ao qual se revela a íntima e recôndita realidade das coisas em toda a sua magnificência.

Este terceiro aspecto mostra-nos um universo que, embora atualmente ainda desorganizado em parte, se está reorganizando; que, embora em alguns pontos e momentos ainda hoje é caótico, vive um processo de reordenação (evolução). No campo humano, esse trabalho é executado pelo homem, pelo espírito do homem, como centelha divina saída do primeiro motor, do único motor, podendo ser a única encarregada de dar vida, movimento e desenvolvimento à matéria, por si mesma inerte e incapaz de tudo.

Deste estado do universo, Platão, seguido mais tarde por Santo Agostinho, viu a centralidade e a sua unicidade, da qual tudo deriva. Assim, o universo foi concebido como um foco central único, não criado, absoluto, do qual tudo derivou e deriva, constituindo o relativo, lançado no mundo dos efeitos pela causa primeira, absoluta.

Aristóteles viu, ao invés, o movimento dessa irradiação, o desenvolvimento dos percursos causa-efeito, como uma infinidade de linhas paralelas, esquecendo a centralidade e a unicidade, a convergência e irradiação comuns a todas as linhas daquele desenvolvimento.

Assim, o mesmo fenômeno aparece sob diversos aspectos e diferentes pontos de vista. O primeiro é dado pela visão do intuitivo, sintético. O segundo pela visão do racional, analítico. Com olhos diferentes, formas mentais diversas, perceberam aspectos diversos da mesma realidade.

Apareceu então o Maniqueísmo (de Manes, terceiro século depois de Cristo), a conceber o universo como o teatro de uma luta entre duas potências opostas. Também esse dualismo é verdadeiro. Mas não é toda a verdade. Para compreendê-la era mister explicar como esse dualismo nasceu da unidade e como volta a ela.

Dessa forma, foram percebidos aspectos separados e parciais da verdade, insuficientes por si sós a esgotá-la; aspectos que, ao invés de constituir escolas filosóficas separadas e em luta, deveriam ser coordenados e fundidos num só sistema orgânico.

Outros viram no universo uma tendência à emersão dos valores superiores, sendo esta o fruto da evolução. Esses valores superiores são o Deus Imanente, que permanece no universo desmoronado e, com a evolução, cada vez mais se vai revelando.

Kant, quando dirige o olhar para Deus e procura uma prova de sua existência, escolhe uma prova moral, a noção do “dever”. Sendo fundamental na ética, ela só pode provir de um Ser superior, que dirige segundo uma lei, de acordo com a qual Ele julga, recompensando ou condenando.

Bergson acha que não se pode chegar a compreender a existência de Deus senão através da experiência dos místicos, fenômeno este que não se poderia explicar de outra forma se efetivamente não existisse o objeto de seu amor.

O Panteísmo concebe o universo como uma manifestação da Divindade que nele se exprime sob mil aspectos, ficando de pé o princípio interno dirigente de todo o existir que, por sua vez, não é senão efeito dessa causa primeira.

Spinoza admite uma única realidade, a Substância-Deus, incriada, causa de si e a causa de tudo. A Sua liberdade é determinística, ou seja, é obediência à própria lei, antes livremente desejada. O ser é um elemento desta substância única e eterna, expressão transitória em sua forma. A finalidade do existir é o absorver-se nessa Substância, desindividualizando nela a própria individuação separada.

No panteísmo de Hegel, Deus é a ideia que se tornou totalmente consciente de Si, correspondendo ao nosso conceito de ser, a evolução é reconquista de consciência. Deste processo da re-ascensão, Hegel tirou o conceito de um Deus em evolução.

As citações poderiam continuar. Mas o nosso objetivo não é passar em revista os vários sistemas filosóficos, mas apenas trazer alguns exemplos para esclarecer o nosso pensamento. O que se disse acima é verdadeiro, mas apenas representa alguns trechos da verdade e só pode ser compreendido como parte de uma visão maior, que não encontramos nos filósofos. Para ser completa, a filosofia deveria ser, também, teologia e ciência.

Por que motivo, ao invés de uma visão única, a filosofia nos oferece tantos sistemas diferentes?

Na prática ocorre o seguinte: no estudo da filosofia não é ensinado um sistema que apresente explicação cabal dos fatos e que dê uma orientação de como dirigir nossas ações; ao contrário, é ensinado o desenvolvimento do pensamento filosófico através de numerosos sistemas diferentes. Por isso, quando se chega ao fim, aprendeu-se, apenas, a história da filosofia, a arte dialética, a mecânica da lógica, mas, entre tantos sistemas, invade-nos o ceticismo diante de todos, porque nenhum resolve tudo, nenhum deles esgota o problema do conhecimento.

Não devemos, pois, escandalizar-nos com essa pluralidade de sistemas.

Quando compreendemos que a filosofia se move no relativo, não podemos considerar tudo isso como defeito. Um relativo em movimento não pode produzir outra coisa diferente. E é justamente esse fato que nos faz compreender a nossa verdadeira posição de seres situados no relativo, capazes apenas de visões parciais.

Em virtude desse desejo de todos, inclusive os homens de ciência, cada religião, cada escola e cada partido, combate o outro, tudo pela ânsia de atingir o absoluto, tornando-se, desse, modo, absolutistas. Sentimos, por instinto, que a verdade deve ser uma só e sempre a mesma, mas esta é a verdade última, que está além de nosso mundo.

A verdade que desejaríamos, só poderá ser o fruto da completa reconquista do mundo perdido, porque ela está situada no ponto final da evolução, realizada através do progresso de tantas verdades relativas.

A pluralidade da filosofia não é, portanto, um erro, nem uma dispersão, ou um fato desalentador, mas o sinal de um enriquecimento progressivo. Pode ser uma desilusão presente e um esforço de subida, mas é possibilidade de progresso sempre maior em direção da verdade absoluta, ansiada pela nossa alma.

A convicção da verdade é outra coisa e não pode ser obtida através do estudo da filosofia. A convicção resulta do temperamento, da experiência e das reações do filósofo; é um estado pessoal ao qual se procura reduzir tudo, adaptando-lhe até as verdades julgadas absolutas e as das religiões.

Quando o próprio tipo biológico está situado no plano animal, a sua verdade continua sendo animal, e não há erudição filosófica que a possa mudar. Nem mesmo as religiões conseguem transformá-la, senão em pequena dose. O involuído continuará assim, mesmo que seja o mais erudito do mundo. Poderá dissertar a respeito de tudo, mas o único sistema filosófico em que continuará acreditando com convicção será o do ventre e o do sexo, o de sua vantagem imediata.

A verdade só pode ser atingida por amadurecimento biológico, o único a nos levar à compreensão, pois nos abre os olhos da alma.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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